Em versão atualizada da personagem que o lançou ao estrelato, Tom Cruise esbanja jovialidade para falar de envelhecimento com dignidade
36 anos mais experiente e com rugas que nem os vistosos RayBan conseguem esconder, Tom Cruise emplacou a maior bilheteria do pós-pandemia, em 2022, trazendo de volta um mito do entretenimento industrial dos anos de 1980. O tenente Peter “Maverick” Mitchell não só mostrou ser ainda o melhor piloto de supersônicos do mundo, como também veio dar lição de moral na galera: “respeitem os mais velhos”.
E lacrou: “é possível envelhecer com dignidade!”.
Top Gun: Maverick trata exatamente sobre envelhecer. Obviamente que nem todo mundo tem o privilégio de envelhecer como Tom Cruise tem envelhecido. Além de coroa rico e bonitão, provou ser atualmente um dos nomes mais rentáveis de Hollywood. A ponto de diversos produtores, incluindo Steven Spielberg, ter reconhecido que Tom Cruise, sozinho, praticamente salvou Hollywood no ano passado.
A diferença entre Top Gun: Ases Indomáveis, filme que o lançou ao estrelato em 1986, e a sequência que estreou em maio de 2022 é que, além do ator e da personagem, o cinema também amadureceu nesse período. E está muito melhor. Nem de longe, a produção original se compara à atual. Ao contrário do primeiro, o segundo é um filme muito bom. Tem um roteiro bem estruturado e utiliza da melhor forma os recursos tecnológicos hoje disponíveis.
A engenharia de som e a pós-produção digital reproduzem nas telas simulações de voos com uma realidade, velocidade e cinematografia que jamais seriam possíveis nos idos dos anos de ‘80. O pano de fundo nos dois roteiros é o mesmo. Um grupo de jovens pilotos de elite da Marinha norte-americana, reunidos na U.S. Navy-Fighter Weapons School, conhecida como Top Gun, disputam as poucas vagas de missões superespeciais de defesa aérea.
No primeiro episódio, Maverick é um dos jovens pilotos do seleto grupo. Na sequência, já perto dos 60 anos, ele passa a ser o instrutor, mestre e líder dos jovens.
O roteiro do original é fraco. As peripécias acrobáticas dos pilotos da Marinha norte-americana se desenrolam enquanto adornam um açucarado romance entre Maverick e Charlie (Kelly McGillis) que, por acaso, é uma de suas instrutoras na conceituada academia de aviadores. Afora as cenas de ação que à época causaram furor, sobra muito pouco. O filme fala também sobre amadurecimento. Maverick supera a morte do melhor amigo ao entender que o jovem rebelde e insubordinado precisava ceder lugar a um piloto adulto e profissional.
O roteiro do segundo filme é pertinente e focado. Do começo ao fim, aborda o etarismo como tema central. Sim, o tópico tão em voga nas últimas semanas no Brasil foi o mote dos produtores para o retorno de Maverick para Top Gun. O preconceito contra os mais velhos é derrubado nas duas horas do filme por um Tom Cruise plenamente em forma, cheio de vigor físico, autoestima elevadíssima e personalidade forte.
Melhor representante para o imaginário dos mais idosos, impossível!
Atração para jovens e adultos
Ao substituir o romance pela causa dos mais velhos, o filme trouxe à tona o ativismo necessário para fazer sucesso na atualidade. A estratégia foi certeira e fechou o melhor borderô planetário de 2022 faturando US$ 1,5 bilhão. Entre as dez maiores bilheterias do ano, o tenente Maverick e seu esquadrão de elite bateram sozinhos todos os heróis juntos de quatro filmes do Universo Marvel e da DC Comics e de dois filmes da Disney.
O velhinho está ou não está em forma?
O retumbante sucesso de bilheteria de Top Gun: Maverick surpreendeu principalmente entre os jovens, que possivelmente foram às salas de cinema sem saber lhufas do episódio anterior. Se para os mais velhos o revival vinha cercado pelo apelo nostálgico, para os mais novos tratava-se apenas de mais um filme de ação. Ocorre que todos se depararam com o melhor filme de ação dos últimos tempos, com qualidades indiscutíveis como conteúdo e formato consistentes e bem executados.
Pouco trabalho para adaptação
Top Gun: Maverick frequentou todas as listas de indicados a Melhor Filme das grandes premiações da indústria cinematográfica neste ano, incluindo Oscar, Globo de Ouro e Critic’s Choice Award. O curioso é perceber, na comparação dos dois filmes, que os produtores tiveram pouco trabalho para criar a adaptação. Magia ou canalhice do cinema? Cenas inteiras da sequência são copy e cola do original. Sem citar que boa parte do tempo é ocupada pelos estrondosos voos dos supersônicos. O roteiro original mesmo ocupa no máximo metade de todo o texto.
Magia ou canalhice do cinema? A resposta possivelmente está com Jerry Bruckheimer, a quem Tom Cruise se associou como produtor para reviver as aventuras aéreas do tenente Maverick. Além de ter sido produtor do filme original, em 1986, o distinto senhor acumulou no currículo desde então todas as franquias das séries CSI – Criminal Scene Investigation e Piratas do Caribe, entre outros sucessos bombásticos do cinema e da TV. É ele quem detém a chave do sucesso há alguns anos.
Tanto Maverick, quanto Ases Indomáveis servem à indústria do entretenimento, com a diferença da superioridade cinematográfica da versão atual. Certamente, as três ex-estudantes de Biomedicina em Bauru que usaram a Internet para zoar a colega mais velha de 44 anos não assistiram a Top Gun: Maverick. Se assistiram, não entenderam nada. A moral da história é evidente!