Esse post que aparece na imagem, de tempos em tempos volta a aparecer na minha linha de tempo no Facebook e já faz pelo menos um ano que quero escrever sobre ele. Assim como muito outros memes, possui uma mensagem maravilhosa, sedutora mesmo, afinal, se pratico yoga e me torno furioso eventualmente, isso pode realmente ser devido a um processo que venha a despertar minha consciência, se minha vida está um caos, há grandes chances de isso me levar a renovação e conceitos como a impermanência podem ser facilmente usados para sustentar essa afirmação. Mexer fundo nos relacionamentos? Claro! Isso dá uma forma de consolo, tranquiliza a gente frente a essa bagunça toda que é a vida. Mas, quero falar um pouco sobre isso.
A gente tem um hábito, um vício mesmo de pensar de forma binária: sim e não, preto e branco, bom e mal, consciente e inconsciente. Esquecemos de toda a paleta de cores que existe entre o branco e o preto pois é muito mais complicado pensar dessa forma. Esse pensamento simplista se insere dentro de um contexto maior, de uma carência enorme que temos, por uma busca por sermos salvos ou por encontrarmos alguma salvação. No yoga, a ideia de despertar a consciência é muito comum, muito presente e se coloca em oposição a vida que vivemos, ou seja, quando eu for consciente, não vou mais sofrer e para isso, preciso passar pelo vale da sombra da morte, preciso passar por toda fúria, confusão, engano, ódio, mexer fundo nos meus relacionamentos, resolver todas as minhas questões do passado para então encontrar a salvação. Eis a salvação novamente.
Acredito que a grande confusão aqui está em entendermos como o yoga nos propõe entender o que é a confusão. Pois é.
Sofremos, pois, nos identificamos com as coisas da vida de forma exagerada. Logo que nascemos já recebemos um pacote enorme de atributos com os quais temos que nos identificar, coisas que são limitantes e necessárias ao mesmo tempo. Recebemos um nome, a educação dos familiares, a cultura do local onde nascemos, os hábitos todos… “O Mário é a cara do pai, assim como o pai, vai ser artista”. Esses atributos são importantes e precisam existir em alguma medida para que possamos formar nossa personalidade, mas ao mesmo tempo moldam nossas preferências e aversões. Desde cedo aprendo a identificar aquilo que gosto e sofro quando aquilo tem um fim, e quanto as coisas que não gosto, sofro quando preciso passar por elas. Quem tem criança pequena pode ver isso de forma muito clara!
Se sofro pelo fim das coisas que gosto e sofro pelo acontecimento das que não gosto, o que se torna mais presente em minha vida é o próprio sofrimento.
O que acontece quando ficamos resfriados? Não falo de uma grande gripe, falo de um resfriadinho moderado. Daqueles que fazem a gente ter que andar com um rolo de papel higiênico, mas ainda assim conseguimos trabalhar. Quando estamos assim, fazemos questão de contar para todos (como estamos sofrendo), trocamos receitas caseiras, e tudo na vida passa a ser um incômodo: o sol incomoda, o trabalho incomoda, os familiares incomodam, a vida incomoda. Um simples resfriado é capaz de trazer essa fúria toda e não podemos dizer que isso nos trará algum tipo de lucidez. “Quem diabos deixou essa a janela aberta, não estão vendo que estou resfriado?”
Não podemos dizer também que tudo o que somos é formado por nossos afetos de forma tão simplista, por nosso gostos e desgostos. Por diversas vezes ao longo da vida podemos experimentar emoções que transbordam nossa forte sensação de individualidade e isso muitas vezes se relacionará ao outro. Como quando ajudamos um desconhecido na rua, praticamos algum tipo de caridade sincera ou colocamos as necessidades dos nossos filhos acima das nossas sem pensarmos duas vezes. Ações e sentimentos como esses nos apontam que existe uma outra dimensão em nós além dessa forma limitada de nos relacionarmos com o mundo baseada em “gosto e não gosto” que nos foi ensinada. Não há nenhuma necessidade em chamar esse lugar em nós de iluminação ou de algo além do que somos pois isso existe em nós da mesma forma como existem nossos desejos.
Eu diria que o caminho é muito mais de reconhecimento do que de conflito. O que fiz, o que me fizeram, o que já fui se encontra no passado, causa seus reflexos aqui, agora, mas não precisa necessariamente continuar existindo. Todos nós possivelmente conhecemos pessoas adultas (ou somos elas) que ainda lamentam coisas que aconteceram na infância. Apesar de termos um relacionamento diário e intrínseco com o sofrimento, temos uma dificuldade gigantesca em aceitá-lo. Aceitar o sofrimento como algo inerente a vida nos distancia da fúria ou da necessidade em sermos bonzinhos pois os dois são simples manifestações da enorme confusão que vivemos e por mais que a confusão seja o ponto de partida para a busca por um pouco mais de lucidez na vida, não é ela que gera a transformação. Confusão gera mais confusão, acreditar que sentimentos como a raiva, a fúria e o caos podem transformar, é um jogo perigoso. Eles precisam ser reconhecidos como parte da vida e como o que são: manifestações de minhas frustrações pertencentes ao meu grande pacote de sofrimentos, nada além. É o cultivo inteligente da busca por lucidez que nos transforma.