APENAS UMA NOTA DE AGRADECIMENTO

músicacuritibana

Uma carta aberta para todos e todas:

“Recentemente lancei um álbum ao vivo pelo Estúdio Showlivre, foi para mim a realização de um sonho, pois figurei em um dos principais palcos do país. É incrível ter feito o que eu fiz, sob a carência estrutural que coloca em vilipêndio as artes em nosso tempo, cheio de dancinhas e trends, sou um dos poucos fora do eixo que consegue isso e sou grato.

Nasci em Curitiba, a mais fria entre todas as capitais do país, em um bairro que nunca foi o estereótipo de curitibanice aquela curitibanice das propagandas de Lerner e cia, que tentaram impor por 4 décadas a imagem do que eles são.  Cresci no seio da música paranaense, desde cedo as lutas de meu pai, Claudio e minha mãe Bete me projetaram para esse caminho, gente bonita, atleticana que conversava com os vizinhos, Charlote, Dona Cecília, Tita Dolinski, Seu Antônio, Abel e Sueli, na essência de risadas altas, os lunáticos andando pela rua e das histórias dessa gente que de tão curitibana não se reconhecia como tal.

Mas voltando para minha música, mesmo vindo de um mundo musical, sempre precisei enfrentar tranco na esquina e estive no mínimo 40 minutos atrasado em relação aos meus colegas do centro da cidade.

Iniciei com uma bandinha, já com o nome muito daqui, Paralelo 25, sempre tive a pretensão desde os 14 anos de idade em emancipar nosso som, depois fui tocar baile, moda de viola e acabei na Segunda Autoral, onde conheci o fino da MPB histórica dessa cidade. Foi ao meu lado que o inesquecível Tatára subiu no palco do Guaíra pela primeira vez. 

Depois disso rodei o Brasil e o mundo, tive a oportunidade de conhecer todos os biomas do país, e faltam apenas 3 estados da federação para eu tocar meus pés, vivi na Argentina, onde compreendi que a minha música tinha solução.

Mesmo assim, nunca me deram mole, era sempre um marginal nas panelinhas, desde aqueles que pensam em conservatório, até os que amam um acorde com sétima e nona. A poesia de minha música é a poesia transversal do bairro do Fazendinha, ora esperavam um rapper vindo de lá, eis que surge eu, com língua afiada fazendo uma música que soa sofisticada aos pés da MPB e do Rock brasileiro.

Ganhei respeito quase (ou literalmente) no tapa, por isso não posso deixar de falar de mim nesse momento, nessa estação de minha vida, aponto em frente a esperança em versos, pois quero que todos e todas que fazem arte sejam reconhecidos, e entendam que o ofício artístico não é um luxo, não está apenso as redes sociais, não um grito político partidário e sim, a mais pura necessidade humana, transformar em beleza a consciência viva da dor!

Curitiba não é o que dizem, não é o que praticam, é o nosso infinito modo de ser e estar, a glândula pineal dos caretas, por isso fazemos o que somos. 

Vou além e digo que um dia de manhã quando você acordar, você vai perceber que todos os seus amigos estarão longe, vai ver Os Rolling Stones em Havana e vai perceber que a revolução cubana ganhou uma outra forma, mais bela e profunda, vai olhar para o lado e ver que os cantores de protesto perderam a guerra e hoje o reggaeton move o mundo, e você estará ali longe de Wall Street e do dinheiro do planeta, mas justamente nesse dia você vai olhar para aquela luz difusa que invade suavemente a escuridão e verá que singelamente aquilo vai tentar mover seus pés e isso será o mais puro reconhecimento que você vai ter, pois precisamos recriar toda manhã aquilo que nós mesmos destruímos na noite passada. Que nenhum artista no mundo seja um cadáver, uma carne dada aos vermes que possuem os meios e  pensam o que é ser artista.

Obrigado a todos e todas pelo reconhecimento, sou apenas um compositor e a música é a minha única arma!”

Link do álbum:
https://onerpm.link/elian-woidello-no-showlivre