Os 6 milhões que nunca esqueceremos


“Foi quando os soldados chegaram, todos da família correram para o trem, menos o irmão mais velho de Inácio, este ajudou a colocar as crianças pequenas dentro do vagão, e na hora de subir os soldados o mataram diante da mãe, do pai e dos irmãos…” essa história que o meu avô contava, provavelmente relata um pogrom em algum lugar da Rússia czarista, um relato claro do ódio do começo do século XX. O que é Inácio não imaginava naquela época, era que seus descendentes seriam testemunhas oculares da maior barbárie da história, uma barbarie protagonizada pela extrema-direita alemã, o holocausto.
Confesso que passei parte da minha infância e toda minha adolescência tentando entender o que desencadeou em todo esse processo, fazia mapas, escrevia cartas, perguntava os mais velhos o porquê de tudo isso. O fato é que o holocausto foi um dos últimos momentos da história da humanidade em que o antissemitismo foi tão declarado e aberto, quando eu falo em antissemitismo eu não falo em algo específico apenas como o anti-judaísmo, falo no ódio a todos de origem semítica, etíopes, árabes, judeus e etc.
O antissemitismo ainda é uma compleição muito forte nos dias atuais, não só pelo senso comum de que todo judeu é rico, histérico, opressor, todo etíope miserável e famélico, e todo árabe um terrorista em potencial, mas, pelo fato disso estar latente nas entrelinhas de nossa sociedade, seja em liturgias cristãs ou seja nos bancos das universidades.
Trotsky deu as honras da revolução a Lênin por que em 1917 seria impossível um judeu comandar a Rússia, o fato é que durante todo o período soviético e depois na Federação Russa, até os dias atuais, nenhum judeu comandou o maior país do mundo, nem os Estados Unidos, nem a Alemanha, nem a Inglaterra, nem o Brasil. Dentro dos bancos de alguns centros universitários, pessoas seduzidas pelo judeu Marx até hoje repercutem jargões anti-semitas pré-revolução russa, simplesmente porque não compreenderam Karl Marx.
A gente precisa entender acima de tudo, que a única diferença entre um negro e um judeu é que o judeu pode se esconder e o negro não, a única diferença entre um negro e um judeu, é que na maioria das vezes um judeu é visto como branco, logo quando vejo presencio ou sinto hostilidades, tenho certeza de que o mundo não superou o Levante de Lisboa e nem os outros atentados tiveram depois deste.
Uma vez na UFSC, universidade onde os debates políticos são deveras acalorados, eu participava de uma roda de conversa sobre línguas, estava, na época desenvolvendo conhecimentos sobre a língua espanhola e sua estrutura, durante debate surgiu uma inquietação sobre o ladino, idioma que também pode ser chamado de “judeu-espanhol”, o termo “ladino” no Paraná é uma ofensa, o professor, pós-doutor em linguística e acadêmico do centro de letras da Universidade Federal de Santa Catarina, falou que não desenvolveria o assunto porque os judeus mentem a história, e que não desenvolveria um assunto tão baixo quanto esse para a linguística. Indignado na época escrevi uma carta para uma grande amiga da Associação Israelita Catarinense, e ela me relatou que esse caso foi um dos mais leves que ela já presenciou na sua vida acadêmica, e que uma das piores coisas que ainda existe dentro das universidades brasileiras é o revisionismo.
O revisionismo é uma doutrina canalha dentro da história que tenta negar a responsabilidade, e eventual existência holocausto.
De 6 milhões de judeus mortos, um milhão eram crianças, os alemães entravam nas aldeias da Bessarábia, por exemplo, humilhavam as pessoas mais velhas colocavam os homens e as mulheres mais fortes no trem e dizimavam o restante da população, então hoje, quando eu vejo a Alemanha se valendo de Estados satélites como a Hungria, para evitar a entrada de árabes em seu território, eu começo a refletir se realmente o holocausto terminou com a Segunda Guerra Mundial, ou se ele segue existindo, seja no revisionismo proposto por alguns pseudointelectuais mundo afora, seja no sentimento anti-israel propagado por muitas pessoas, seja nos Estados satélites que impedem outros semitas como os árabes de entrarem em territórios como o da Alemanha, mas principalmente o que mais me entristece é saber que tudo isso não tem cura, A comunidade judaica não foi capaz de ver o nazismo em Bolsonaro, se entende como branca, a  esquerda, hoje dentro do Brasil, repete discursos antissemitas, principalmente por entender a questão Israel-Palestina de uma forma ainda bipolar, anos 1980, Muro de Berlin, como eram os judeus para os alemães em 1938, direita e esquerda, se valem de um semita imaginário, o pior disso tudo é ver onde essa corda no Brasil vai estourar, no lado mais fraco.
Combater o nazismo, os fascismos e o terrorismo deve ser uma constante em nossas vidas, todos os 6 milhões mortos seguem em nossas mentes, nunca vamos esquecer, pois com isso, vamos mudar o mundo, vamos fazer da canção triste uma festa, nunca nos esquecendo que aquilo que brilha com luz própria ninguém apaga, a sua luz toca a escuridão de outras coisas.