“Meu deus é Dionísio.”


Zé Celso Martinez Correa afirmava ser o Teatro a sua religião. Diretor morreu após ferir-se em incêndio doméstico

Morreu o diretor e dramaturgo José Celso Martinez Correa. O artista foi vítima de um incêndio ocorrido a partir de uma falha no aquecedor do seu quarto. Seu marido Marcelo Drummond e outros dois amigos também estavam no apartamento, localizado no bairro do Paraíso, em São Paulo. Eles seguem em observação após inalarem fumaça. Apenas Zé Celso faleceu no incidente.

Zé Celso nasceu em Araraquara, interior de São Paulo, em 1937. É considerado um dos maiores diretores de teatro do Brasil.  Desde o final dos anos 1950 tem seu nome relacionado ao Teatro Oficina, que funciona há 65 anos — 62 destes no bairro da Bela Vista, região central de São Paulo.

Foi quando estudava na Faculdade de Direito do Largo São Francisco que Zé Celso iniciou sua vida nas artes cênicas. Com outros estudantes, fundou o Grupo de Teatro Amador Oficina. Dirigidos por Amir Haddad. Encena textos autobiográficos: Vento Forte para Papagaio Subir (1958) e A Incubadeira (1959).

Em 1961, já em processo de profissionalização, o grupo aluga a sede do Teatro Novos Comediantes, tendo como fundadores, além de Zé Celso, Renato Borghi, Ítala Nandi e Etty Fraser. A companhia obtém repercussão montando textos como Pequenos Burgueses (1963), de Máximo Gorki.

Em 1964, já sob o regime militar, o diretor encena Andorra, do suíço Max Frisch e parte para a transição ao teatro épico de Bertolt Brecht. Zé Celso vai para a Europa e retorna em 1966, ano no qual o prédio do Teatro Oficina é incendiado por grupos ligados ao CCC (Comando de Caça aos Comunistas).

Em 1967, com O Rei da Vela, adaptação de Oswald de Andrade, Zé Celso escreve seu nome definitivamente na história do teatro brasileiro. Mesclando melodrama e teatro de revista com linguagem de cultura pop, o espetáculo é considerado a referência tropicalista no teatro.

No ano seguinte, Roda Viva, de Chico Buarque, acaba se tornando um símbolo da luta contra a censura do regime. Dois atentados se seguem: em julho, o Comando de Caça aos Comunistas (CCC) invade o Teatro Ruth Escobar e agride os atores. Em outubro, no Teatro Leopoldina, em Porto Alegre, a atriz Elizabeth Gasper (ela era sucessora de Marília Pêra) e o músico Zelão foram sequestrados e ameaçados de morte. A montagem foi interrompida e, em seguida, censurada.

Em 1974, Zé Celso é preso e torturado. Exila-se em Portugal e testemunha a Revolução dos Cravos. Dirige assim o documentário O Parto (1975), inspirado no movimento libertador lusitano.  Zé Celso volta em 1978, e retoma o Oficina. Em 1984, o grupo amplia seu nome para Associação Teatro Oficina Uzyna Uzona. Inicia a reforma da sede na Bela Vista. O projeto é de Lina Bo Bardi (1914 -1992) e Edson Elito. Lina não testemunha sua reinauguração em 1993, pois falecera um ano antes.

Antes, em 1987, a vida de Zé Celso é marcada pela trágica perda de seu irmão caçula, Luís Antônio Martinez Corrêa, assassinado com 107 facadas em seu apartamento, em Ipanema, RJ. Foi um crime de homofobia e o autor descoberto e preso.  A cada 23 de dezembro, data da morte do irmão de Zé Celso, a companhia realiza uma homenagem a Luiz: o Rito de Ethernidade.

A partir dos anos 1990, As Bacantes (1996), Cacilda! (1998) e Os Sertões (2002-2006), embalam com força o Oficina, que viaja todo país, com destaque para o Festival de Curitiba.

Zé Celso também fez filmes. Atuou em Árido Movie (2006), de Lírio Ferreira; Encarnação do Demônio (2008), de José Mojica Marins; e Fédro (2021), de Marcelo Sebá. Na tevê, participou da novela Cordel Encantado (2013), da Globo.

Desde 1980, o Oficina brigava na Justiça com Silvio Santos para manter o projeto original do Oficina, cuja sede é considerada patrimônio histórico pelo Conselho Nacional de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico. O teatro conta com uma grande janela lateral, de onde se vê parte da região central de São Paulo. Mas, há 43 anos o apresentador/empresário comprou o terreno  no entorno do teatro, tem um projeto de um condomínio gigante com quatro edifícios de 28 andares para o Grupo Silvio Santos, e o diretor entrou na Justiça para impedir.

Em 2016, um projeto para construção de três torres da Sisan, braço imobiliário do Grupo Silvio Santos, foi proibido pelo Condephaat, mas no ano seguinte a decisão foi revertida. O Grupo Silvio Santos recorreu à segunda instância.

Quando se casou com Marcelo Drummond, Zé Celso convidou Silvio Santos para a cerimônia, dizendo que esperava receber como presente a doação do terreno ao Oficina. O casal também planejava plantar um ipê que ganhou de presente de Fernanda Montenegro e Fernanda Torres, que plantariam no terreno ao lado do teatro. Mas a empresa Residencial Bela Vista, do Grupo Silvio Santos, entrou com uma liminar, no dia da cerimônia, para impedir qualquer tipo de ação no terreno, sob pena de uma multa de R$ 200 mil no caso do descumprimento.

A briga deve seguir. Agora sem Zé Celso. Desgraçados avarentos como Silvio Santos seguem vivos.

Zé Celso tinha 86 anos, e se orgulha de ter recebido de Mãe Estela, da Bahia, o título de “Exu das artes cênicas”. Nunca fez a “cabeça” (iniciação no Canbomblé), entretanto.

Ele argumentava: “minha religião é o teatro. Meu deus é Dionísio”.

Ouça. Leia. Assista:

O Rei da Vela – 2000

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