Aretha Franklin nos deixou, hoje, órfãos da música cantada com a alma


“Until you come back…”
Aretha Franklin nos deixou, hoje, órfãos da música cantada com a alma

Uma das coisas mais interessantes que aconteceram na nossa geração, foi a quantidade de músicas e artistas a que a internet possibilitou o acesso. Coisas boas, coisas ótimas (raras, na maior parte das vezes) e outras nem tanto, pura picaretagem e exibição. Nesse ensejo,essa facilidade veio muito bem a calhar para aqueles que estavam afim de conhecer determinadas sonoridades, estilos ou artistas. Ainda mais no meu caso, que sempre morei no interior e ficava longe desse caldeirão cultural metropolitano. Volta e meia descobria, em alguma loja de música ou sebo, alguns nomes ou álbuns incríveis mais distantes do mainstream artístico, e era sempre um prazer imensurável. “Olha esse som que encontrei”, o orgulho era pulsante ao mostrar para os amigos que compartilhavam da mesma paixão.

Mas os tempos mudaram, e estamos em pleno 2018, onde a informação voa a uma velocidade quase instantânea e já não temos mais controles sobre nada, nem verdades nem mentiras, nem sentimentos, muito menos à própria notícia. Foi nesse clima de saturação que recebi hoje a informação da morte de Aretha Franklin (76 anos) em decorrência de um câncer no pâncreas; essa mulher que tanto moldou meu gosto musical e me influenciou e influencia até hoje. Notícias choviam por todos os lados e pessoas que jamais ousaram falar o nome da rainha, choramingavam sua passagem. Me perdoem, mas isso tudo é o reflexo verdadeiro do caos, ao menos no meu ponto de vista. A data ainda nos remete ao aniversário da cantora Madonna (60 anos), e ao aniversário de morte do cantor Elvis Presley, em 1977. Tudo muito bem lembrado pelos adeptos do wikipédia de plantão do senhor “livro cara”.
Aos desavisados,  Aretha Franklin é uma das gigantes da soul music e, na verdade, do pop americano como um todo. Mais do que qualquer outro intérprete, ela sintetizava a alma em suas músicas. Sua impressionante sequência de sucessos do final dos anos 60 com a Atlantic Records – “Respect”, “I Never Loved a Man”, “Chain of Fools”, “Baby I Love You”, “I Say a Little Prayer”, “Think”, “The House That Jack Built”, e vários outros – deram-lhe o título de” Lady Soul “, que ela usou sem contestação desde então. Mas seu trabalho maravilhoso vai muito além dessas mais conhecidas canções.
Seguramente, as raízes de Franklin tinham uma forte influência do gospel e eram extremamente profundas. Com suas irmãs Carolyn e Erma, ela cantou na igreja de seu pai, em Detroit, o reverendo C.L. Franklin, na década de 1950. Na verdade, ela fez suas primeiras gravações como artista gospel aos 14 anos. Foi relatado que, nessa época, a Motown estava interessada em contratar Aretha. Por fim, no entanto, Franklin foi contratada pela Columbia.

Esse trabalho para a Columbia foi intenso durante a primeira metade dos anos 60, marcando ocasionais hits de R & B (rhythm and blues), mas nunca realmente a destacando como sua obra merecia. O período da Columbia continua a gerar considerável controvérsia entre os críticos, muitos dos quais acham que as verdadeiras aspirações de Aretha estavam sendo deixadas de lado e a produção era mais orientada para o pop. Na verdade, há uma quantidade razoável de itens finos a serem encontrados nos lados da Columbia que passaram desapercebidos.
Quando ela deixou a Columbia e foi para a gravadora Atlantic, o produtor Jerry Wexler estava determinado a mostrar seus traços mais cheios de musicalidade. Como parte desse plano, ela gravou seu primeiro single, “I Never Loved a Man (The Way I Love You)”, no Muscle Shoals, no Alabama, com grandes nomes do R & B. O resultado foi mágico e permitiu o voo da cantora de uma forma mais livre e intensa.
No final dos anos 60, Aretha Franklin se tornou uma das maiores estrelas da música. Muitos também a viam como um símbolo da própria América Negra, refletindo a crescente confiança e orgulho dos afro-americanos diante dos movimentos pelos direitos civis e outros triunfos da comunidade negra. As estatísticas do gráfico são impressionantes e falam por si mesmas: dez “Top 10 hits” em um período de aproximadamente 18 meses entre o início de 1967 e o final de 1968, por exemplo, e um fluxo constante de hits sólidos de médio a grande porte nos próximos cinco anos depois disso. Seus álbuns também tinham uma venda muito alta, e eram muito mais consistentes artisticamente do que os da maioria dos artistas da época. A cantora foi capaz de manter o ímpeto criativo, em parte, por causa de sua escolha eclética de material, que englobou originais de primeira classe e covers de gospel, blues, pop e rock, dos Beatles e Simon & Garfunkel à Sam Cooke e os  The Drifters. Ela também era uma boa, forte e um pouco subestimada tecladista.
Mas, sem dúvida, o maior sucesso comercial e artístico de Aretha foi no início dos anos 70, quando ela gravou nomes com “Spanish Harlem”, “Bridge Over Troubled Water” e “Day Dreaming”. Ela também produziu dois de seus álbuns mais respeitados e mais universais, Live at Fillmore West e Amazing Grace. Este último, um LP duplo de 1972, foi uma nova investigação de suas raízes evangélicas, gravada com James Cleveland e o Southern California Community Choir. Aretha Franklin teve mais alguns sucessos nos anos seguintes – “Angel” e o cover de Stevie Wonder “Until You Come Back to Me” – sendo os mais notáveis. Seu contrato com a Atlantic terminou no final dos anos 70, e desde então ela conseguiu hits intermitentes – “Who’s Zooming Who” e “Jump to It” estão entre os mais famosos.
Seus trabalhos posteriores foram produzidos em menor escala, e algumas informações ainda são controversas. Os julgamentos sempre existiram, uma vez que a cantora nunca foi confinada a um único gênero. Ela sempre cantou músicas diversas (em estilos variados), mesmo que seus primeiros discos tivessem a impressão de que sua verdadeira casa era a soul music. Ainda assim, ela se manteve recorde de vendas,com um grande público em suas apresentações e um imenso respeito de todas as pessoas que estimam sua obra.  Ganhou diversos prêmios nesse período e anunciou sua aposentadoria no ano passado.
Aretha Franklin fará muita falta; mas permanecerá para sempre nos corações e alma de seus verdadeiros admiradores. Descanse em paz, rainha.
O próximo programa Antonina Blues, de 22 de agosto, será todo em homenagem a essa grande artista!