Encenação vem arrebatando público e crítica país afora. Temática é universal e integra trilogia escrita por Marcos Damaceno
Dois homens, uma mulher. Como o trio Catherine, Jules e Jim em Jules et Jim de François Truffaut. Ou em Band à Part de Godard: Odile, Franz e Arthur. Ainda a vida real da psicanalista Lou Andreas-Salomé e os filósofos Friedrich Nietzsche e Paul Rée, talvez o primeiro “trisal” assumido do ocidente.
Em celebração e juventude, são triângulos, amorosos ou não, que implicam antes em amizade. De comum, têm sempre o conflito entre os dois pontos masculinos da tríade. Um clássico. Ou vários.
Estou no CCBB em São Paulo. Em cena, dois pianistas que parecem duelar e uma mulher, que caminha rumo ao enterro de um amigo. Enquanto anda, ela pensa. “Andando vamos resolvendo as confusões e perturbações do pensamento, penso, enquanto ando”, diz ela.
Música é basicamente um conjunto de ritmo, melodia e harmonia, três coisas. Marcos Damaceno parece construir seu texto apoiado em três pilares constantes, feito um Pep Guardiola que sempre faz questão de postar suas peças em campo com o terceiro elemento como opção de fuga, o que invariavelmente na mente brilhante (doentia para alguns) do técnico, funciona. A construção de Damaceno caminha naturalmente para a feição de um “tik-taka” infalível como o do catalão.
A moça é quem está com a bola, e é ela quem escreve, ou pensa, enquanto anda. Conta a história, de seu ponto — talvez o “ponto de fuga” do dramaturgo. Ela conta que fora apelidada de “aforista” pela sua dupla de amigos, com os quais formou um brilhante triângulo de estudantes de música, em um conservatório na cidade inventada de Laciport, há coisa de três décadas. Eles se formaram e praticamente nunca mais se viram. Ela está a caminho do funeral de um deles.
Prodigiosos, os três, um em especial: John Marcos Martins (O “Johnzinho”, ela sempre enfatiza com ironia). E o outro: Polacovski, frustrado e doentio invejoso do amigo. Johnzinho, segundo a protagonista, era de fato dono de um talento absolutamente sui generis. Ela, que narra a história, se diz escritora — especializada em aforismos — apesar de ter estudado música como os outros dois. E segue narrando, sob música e confusão, a experiência vivida.
Assim é, mais ou menos, o espetáculo A Aforista, escrito e dirigido por Marcos Damaceno, como parte de uma trilogia (vejam só!) inspirada no romancista e dramaturgo austríaco Thomas Bernhard, para o qual a vida era uma espécie de produção. Bernhard era generoso, autodisciplinado e prolífico como artista, mas entre amigos íntimos e familiares, era um personagem vulnerável e ferido que oscilava entre afeição e desprezo.
A peça é interpretada por Rosana Stavis. Não são necessárias mais que as palavras do próprio diretor e escritor para descrever (no programa impresso do espetáculo) sua companheira, sócia e performer principal há mais de duas décadas: “Rosana é um poder, uma entidade, como são todos os grandes atores, as grandes atrizes (…), quando estão no palco são, não apenas eles ou elas, mas toda humanidade”. Faço minhas.
Os detalhes que podemos ver nas ênfases, expressões, olhares, pontuações, gestos e palavras minuciosamente dispensadas à plateia por uma das maiores atrizes do teatro contemporâneo acabam se tornando um privilégio de raridade incomparável. Há em algum canto do programa (sim, coleciono programas, e este é dos bons, com design gráfico de Pablito Kucarz) menção a uma espécie de slogan que diz A Aforista ser um “espetáculo para assistir com os ouvidos”, além de um aforismo de um aforista mais famoso que a protagonista, o já citado Nietzsche, no qual versa que “a vida sem música seria um erro”.
Não há para onde correr, a música de Gilson Fukushima está em tudo, e não podia ser diferente. Os dois pianistas, que constituem as outras pontas deste triângulo com a atriz são Sérgio Justen e Rodrigo Henrique. As conduções — musical e cênica — têm precisão milimétrica, e no final tudo se intercala perfeitamente.
A impressionante generosidade deste espetáculo, por incrível, é baseada na avareza, mediocridade, mesquinhez, pobreza de espírito, trairagem, vaidade, soberba, inveja, todos os sete pecados capitais mais um pouco de tudo de ruim que a personagem parece enxergar na vida pregressa de seus talentosos amigos e na sua própria. Vê ainda tudo isso na imaginária Laciport, a cidade de onde ela se mandou faz tempo. Um lugar onde só faz frio e chuva, e onde apenas se lamentam, e se maldizem as pessoas “em suas bocas malditas”, enfatiza a personagem, quando Stavis já tem a plateia completamente sob os gestos de suas mãos.
Tudo fica engraçado e divertido, e confere leveza, pois a ironia é fina e não pesa, mesmo aplicada sobre temas tão complexos como a loucura de pensar/ser/estar — essa outra tríade barra-pesadíssima, ou você pensa que é fácil caber justo a nós sermos nós próprios? Damaceno deita e rola sobre Laciport. Ainda por cima dá o recado a quem quiser entender.
É extremamente necessário alguém com capacidade e discernimento para socar em nossos corações e mentes que “é para isso que servem os artistas, para dar ao mundo a dose de loucura que o mundo precisa” (a Aforista).
Algum tempo após as luzes criadas por Beto Bruel se apagarem, o autor, bastante descontraído, me entrega em outra generosidade informação que havia sorrateiramente me escapado: Laciport é “tropical” ao contrário.
Está tudo ali. Em algum Centro Cultural Banco do Brasil perto de você. A peça já percorreu Rio de Janeiro e Brasília. Permanece em São Paulo e vai a Belo horizonte em junho/julho.
Ainda não em Laciport.
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Ouça. Leia. Assista:
Thomas Bernhard Was a Demon – The Guardian
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Fotos: Maringas Maciel/Divulgação