Olá. Para você que está me acompanhando e para você que chegou agora, um salve!
A ideia que vem sendo traçada aqui, propõe uma investigação do lugar onde a apropriação e transformação dos elementos naturais, em materiais para o abrigo, deleite e delírio humanos, vem construindo nossos cenários de convivência social e ditando os rumos de nossa relação com o planeta.
Se observarmos a arquitetura, de um ponto de vista ampliado,como sendo a representação tridimensional de um evento, ela nos permite ler a história, com propriedades sinestésicas.Nossos espaços de convivência, estão carregados da energia dos materiais e suas inter-relações, mas também, da energia dos acontecimentos.
Muitos relatos de visitas ao Coliseu de Roma, por ex., contam sobre a sensação de tristeza ou opressão que experimentaram, apesar de não mais ser palco de atrocidades. Visitas ao Jardim das Cerejeiras, no Japão, em época de florada, costumam trazer alegria e serenidade, mesmo para os menos sensíveis à beleza natural. Visitar a SacréCoeur, em Paris, causa sensações de transcendência, mesmo para os mais céticos, e mesmo com a igreja vazia.
O cenário criado pela intervenção do humano na natureza, é semiótico, carregado de signos, representa a maneira de pensar de uma época, suas potencialidades e limitações. A nossa ação no espaço, o impregna com sentimentos, e vão transformando a percepção que temos dele ao longo dos anos, segundo nossos filtros culturais.
Então, para além das necessidades práticas de se construir, fazemos usos subjetivos do espaço inventado. Maravilha, tudo certo até aqui, não fosse o fato de que esse desejo de usar a arquitetura, como cenário para o drama humano, e a função manipuladora que atribui-se a ela, gera excessos e desgastes profundos para o planeta.
Nós, Homo Sapiens Sapiens, viemos somando capital e consumindo recursos, produzindo lixo e exterminando espécies. Nessa saga, empilhamos concreto e tijolos, ferro e vidro, madeira e pedras, à exaustão, em um idealismo alienado. Exploramos fontes naturais não renováveis, sem critérios lógicos e éticos, negando o futuro.
Perceba, através dessas citações de alguns arquitetos famosos, o intrincado jogo entre os ditames de uma época e suas idealizações tridimensionais.
Frank LLoyd Wright – 1867 a 1959, EUA – considerado até hoje, o maior arquiteto americano, admitia ser um grande egocêntrico.
“Todo grande arquiteto é, necessariamente, um grande poeta.
Deve ser um intérprete original de seu tempo, momento e época.”
“Eu apenas tiro os edifícios de dentro de minhas mangas.”
Mies Van Der Rohe – 1886 a 1969, Alemanha – considerado o mestre da arquitetura sem adornos, onde “Menos é mais.” Projetou os primeiros arranha-céus americanos, de aço e vidro.
“A arquitetura é a vontade de uma época, traduzida em espaço.”
“É impossível ir adiante, olhando para trás. Quem vive no passado, não pode avançar.”
Le Corbusier – 1887 a 1965, Suíça – o grande pioneiro da arquitetura moderna, era purista e racional, acreditava que arquitetura é uma máquina de morar.
“Arquitetura é um estado de espírito, e não uma profissão.”
“Arquitetura é o jogo sábio, magnífico e correto dos volumes, dispostos sob a luz.”
Luis Barragán – 1902 a 1988, México – Uniu a ideologia moderna, ao regionalismo tradicional mexicano.
“Creio na arquitetura emocional. É muito importante para a humanidade que a arquitetura emocione por sua beleza.”
“Não me perguntem deste edifício, ou daquele. Não vejam o que eu faço. Vejam o que eu vi.”
Oscar Niemeyer – 1907 a 2012, Brasil – O arquiteto brasileiro mais conhecido no mundo, suas obras possuem traço único, quebrou as regras do estilo internacional.
“A vida pode mudar a arquitetura, no dia que o mundo for mais justo, ela poderá ser mais simples.”
“A gente tem que sonhar, senão as coisas não acontecem.”
“Quando uma forma cria beleza, tem na beleza, sua própria justificativa.”
Lina Bo Bardi – 1914 a 1992, Itália-Brasil – Italiana radicada no Brasil, se apaixona pela arte popular e a coleciona.
“O passado não volta. Importantes, são a continuidade e o perfeito conhecimento da história.
“No fundo, vejo a arquitetura, como serviço coletivo e como poesia.”
João Vilanova Artigas – 1915 a 1985, Curitiba, Brasil – Pioneiro do movimento modernista no sul do Brasil, firmou sua carreira em São Paulo.
“Admiro os poetas, o que eles dizem com duas palavras, a gente tem que exprimir com milhares de tijolos.”
“A arquitetura não termina na soleira das portas.
Frank Ghery – 1929, Canadá –Arquitetura desconstrutivista e futurista.
“Arquitetura deve falar de seu tempo e lugar, porém anseia por ser atemporal.”
“Não sei porque as pessoas contratam arquitetos, e depois dizem a eles o que fazer.”
Alvaro Siza – 1933, Portugal – Discípulo de Alvar Alto, representa a linha mais orgânica da arquitetura moderna.
“Os arquitetos não inventam nada, apenas transformam a realidade.”
“O trabalho do arquiteto é uma resposta ao espaço, que assim o exige, e também uma questão: como transformá-lo.”
Norman Foster – 1935, Inglaterra – Um dos maiores arquitetos europeus, suas obras são grandiosas e arrojadas.
“Como arquiteto, desenho para o presente, com certo conhecimento do passado, rumo a um futuro que é essencialmente desconhecido.”
“Para ser um arquiteto, é preciso ser duas coisas: otimista e curioso.”
Tadao Ando – 1941, Japão – Arquiteto autodidata, suas criações são minimalistas, em uma releitura da cultura nipônica.
“Realmente, tem que se tomar muito a sério os sonhos.”
“A imaginação é mais importante que a sabedoria.”
Jean Nouvel – 1945, França – defende a liberdade artística do arquiteto, acima das premissas técnicas.
“A arquitetura é sempre uma modificação temporal do espaço, da cidade, da paisagem… cremos que é permanente, porém, nunca sabemos.
Zaha Hadid – 1950 – 2016, Iraque – Arquiteta desconstrutivista, primeira mulher a ganhar o cobiçado prêmio Pritzker.
“Não creio que a arquitetura seja só um refugio. Ela deve ser capaz de te excitar, de te acalmar, de te fazer pensar.
“Eu acredito no impossível.”
Santiago Calatrava – 1951, Espanha – Arquiteto e engenheiro, suas obras são complexas estruturalmente, e altamente tecnológicas.
“Arquitetura é a arte que determina a identidade de nosso tempo, e melhora a vida das pessoas.”
“Não busco ser entendido, busco ser livre.”
Ok, bacana, temos agora um apanhado de frases soltas, de alguns poucos arquitetos, em um período curto da vida humana na Terra, mas… e daí?
O que tudo isso quer dizer?
Primeiro, que esse recorte tem um motivo, pois foi a partir da virada do séc. XIX para o XX, e principalmente, durante o período modernista – com todas as suas vertentes – que foram construídas as bases do pensamento que ainda reside, fortemente, nas escolas de arquitetura. Todo aspirante a arquiteto, vai estudar e ser influenciado, pela maioria dos citados acima.
Se observar bem, destaquei em negrito algumas palavras que se repetem, ou são similares, no que disseram: poesia, beleza, tempo, época, sensações, experiência, espaço, transformação, sonhos… palavras que colocam a arquitetura como agente transformadora ideal de seu tempo.
Essas influências imprimem algumas características comuns, na grande maioria dos milhares de jovens arquitetos que se formam todos os anos, e que saem das universidades se considerando semideuses, achando que são instituídos da capacidade de transformar o mundo em algo perfeito. Tendendo a acreditar que seu instrumento de trabalho, é algo glamoroso e fascinante, quase como uma varinha de condão.
Bem… ao menos até cair no mercado de trabalho, esse – do império capitalista, em que o rei usa cifras como coroa e seus súditos moldam-se facilmente à sua vontade.
Esse encontro, do mundo universitário romantizado, com a realidade usurpadora do status quo, gera dois rumos básicos para nossos recém formados. Os grandes talentos, ou os grandes afortunados, vão dedicar suas carreiras ao poder vigente. Nesse caso, com muitos recursos disponíveis, as premissas são a inovação, a beleza, a sofisticação… tudo a serviço de um superego coletivo que, cada vez mais, beira a um absurdo egocentrismo alienado.
Já a grande maioria, os arquitetos comuns, que precisam lutar e galgar com força por seu lugar ao sol, se dobram às leis de mercado, e caminham míopes, pelo mundo da exploração de recursos das commodities.
Para mim, nenhum desses caminhos parece ser bom. Então, concluo que estamos errando feio. Claro que temos as exceções. Delas, com certeza, falaremos em uma outra conversa. Pois são essas exceções que podem trazer uma luz ao debate dos rumos que buscamos.
A arquitetura é a tradução concreta de uma época, de uma cultura, e se ela existe para solucionar problemas e inspirar, se ela se propõe a trabalhar em benefício das pessoas, o que devemos buscar e valorizar, qual o conceito que realmente importa, e qual as soluções mais acertadas, na prática?
Deixo essa pergunta no ar, para uma reflexão. Até nosso próximo encontro!
Ivana Cassuli é arquiteta, design e artista visual. Formada pela UFPR, com especializações em Teoria da Forma (UFPR), Design de Mobiliário (Paris CollegeofArt), Design de Superfície (MaMaVieCreativeCloting), FengShui (Escola da Forma de Carlos Solano) e Paisagismo (CEPDAP PR). Atua como arquiteta, desenvolvendo projetos residenciais, comerciais e acompanhamento de obra, é a sócia criativa da marca de tecidos naturais Ivis&Tuca, e desenvolve trabalhos nas artes visuais, como pintura, desenho e fotografia.