Tabloide revolucionou o jornalismo e a linguagem no Brasil, em meio às transformações da contracultura e o auge da ditadura militar
Quando Sergio Porto — o Stanislaw Ponte Preta — morreu de infarto em setembro de 1968 aos 45 anos, já desde agosto lançara às bancas seu jornal A Carapuça — Semanário Hepático-Filosófico. O tabloide estava em seu quinto número e falecia junto com o folclórico cronista, personagem fundamental da vida cultural, jornalismo e boemia do Rio de Janeiro.
Inconformados com a morte do amigo e mestre, um grupo de jornalistas não se fez de rogado e resolveu, em homenagem à memória de Porto, fundar um novo jornal. Recusaram-se, no entanto, a dar ao novo periódico o mesmo nome A Carapuça, em que pese a mesma servi-la a todos, sem exceção.
Decididos, Sergio Cabral, Carlos Prósperi e Tarso de Castro, mais os cartunistas Sergio Jaguaribe (o Jaguar) e Claudius Ceccon esvaziaram algumas garrafas de uísque até definir a linha editorial do novíssimo jornal: nenhuma. Exatamente, não chegaram a conclusão alguma, e resolveram tocar o barco primeiro e conferir as cartas náuticas depois. Mas ainda faltava o nome.
Sergio Cabral diz que escolheu cerca de oitenta, sem agradar com nenhum. A mesma coisa Prósperi, Tarso e Claudius. Jaguar teve um pouco mais de sorte. Em uma bebedeira homérica na qual se aproveitava da farta adega do diretor de publicidade do futuro jornal José Grossi, veio o estalo. Se todos iam xingar o jornal de pasquim, então por que não se autoproclamar “O Pasquim”? A ideia foi aceita por quase todos — Tarso achou meio esquisito —, mas no fim a maioria venceu.
O Pasquim chega às bancas em 26 de junho de 1969. Quase um ano após a morte de seu inspirador Stanislaw Ponte Preta. O primeiro número trouxe uma crônica de Chico Buarque, direto do exílio em Roma (“Por que sou Tricolor”), charges e textos humorísticos de Millôr, Claudius, Tarso e da única mulher da redação: a brilhante escritora, cineasta e jornalista Martha Alencar (esposa de Hugo Carvana). Na edição, uma das marcas registradas do Pasquim: a entrevista.
Ibrahim Sued foi o escolhido. Essa parte guarda uma das muitas particularidades que marcaram a história do jornal na transformação da linguagem jornalística. A entrevista era feita da maneira mais informal possível. E para aquele bando de malucos da zona sul carioca, informalidade incluía, uma vez e sempre, o consumo desenfreado de álcool. A conversa foi excelente. Era guardar a fita e partir para edição, copidesque, etc. Só que todos estavam de fato muito bêbados. Jaguar incluso. Ele ficou com a fita. E ninguém mais apareceu. Jaguar era o responsável pelo envio do jornal ao prelo. De repente, não havia mais tempo para edição da entrevista. Jaguar não era jornalista de ofício, e resolveu transcrevê-la do jeito que estava. Assim foi feito. Pouquíssimo tempo antes de ir à rotativa para impressão, Tarso e Prósperi viram o texto em uma prova, e ficaram horrorizados. “Isso não pode ir assim! É preciso transformar em linguagem de jornal”, disseram a um Jaguar de ressaca. Jaguar insistiu: “tudo bem. Da próxima vez vocês editam, mas agora lamentavelmente a coisa vai ter de ir assim mesmo”. E foi.
A linguagem coloquial “do jeito que a gente fala” da entrevista conquistou de imediato o povo que leu o primeiro número. A primeira tiragem, de 10 mil exemplares, foi imediatamente reimpressa com mais 15 mil, e tudo foi vendido. Incrédulo, o “conselho editorial” do Pasquim optou por doravante deixar as entrevistas sempre daquela forma. Coloquiais, como uma conversa de botequim, o que de fato eram.
Se não foi de imediato que o Pasquim ganhou vendagem de grande jornal, a coisa não tardou. Em seus primeiros 20 números saltou daqueles 15 mil exemplares iniciais para incríveis 100 mil. Em um ano chegou ao recorde de 220 mil. Números de grandes veículos da imprensa. Foi uma verdadeira febre.
O Pasquim furou a bolha entre Rio e São Paulo, apesar do regionalismo do “sotaque ipanemenho”, como eles próprios gostavam de se referir. Colaboradores do calibre de Ivan Lessa, Paulo Francis, Vinícius de Moraes, Glauber Rocha, Odete Lara, Henfil, Fortuna, Luiz Carlos Maciel (celebrado como o precursor da contracultura brasileira), Sérgio Augusto, Flávio Rangel, Cacá Diegues, Miguel Paiva, Carlos Leonam, entre outros, passaram a formar uma equipe frequente. Para além das pedras do Arpoador, São Paulo e o país inteiro aderiram, e viram seu maior fenômeno editorial em todos os tempos.
Não tardou por óbvio a chamar a atenção das autoridades, que digamos, à época eram o terror de todos que trabalhavam em redações, nos tempos do recém estabelecido AI-5. Como dizia uma das divertidas frases sob o cabeçalho da primeira página — a cada número uma tirada: “quem tem jornal tem medo”.
Os censores caíram dentro do Pasquim, passando a frequentar a redação na rua Clarice Índio do Brasil, em Botafogo. Como os rapazes eram de extrema simpatia, com aquele jeito carioca de ser, engambelavam da forma que podiam — regada a doses de uísque e muito bate-papo — os profissionais do regime responsáveis pelos cortes necessários à moral e os bons costumes. A negociação via de regra era favorável ao jornal. E assim foram tocando.
Não é preciso dizer que o Pasquim não perdoava nada nem ninguém. Apartidário, mas de clara postura irreverente quanto ao regime. O humor era ácido, simbolizado por seu mascote — o rato Sig (de Sigmund Freud) — criado por Jaguar. Um humor escancarado nas páginas de um jornal como nunca se vira. Até que um dia.
Um dia, em outubro de 1970, Jaguar — provavelmente em tarde de bebedeira ou ressaca — resolve publicar uma charge utilizando como base o famoso quadro de Pedro Américo Independência ou Morte. Quase um símbolo da pátria. Jaguar coloca um balão de quadrinhos sobre a cabeça de Pedro I com os dizeres “eu quero mocotó”, inspirado em uma canção de Jorge Ben que fizera muito sucesso em um festival da canção à época.
O uísque Buchanan’s Deluxe que acariciava os humores dos censores na redação fez deixar passar mais esta insolência da “patota”, como era chamada a equipe do jornal. Mas não passou incólume pelas mesas do generalato em Brasília. Veio a ordem: todo mundo em cana.
Só não foram presos Millôr Fernandes e Henfil, por não serem localizados pela polícia. A “patota” puxou dois meses na Vila Militar, em Deodoro, zona norte do Rio. Em contrapartida, o jornal começou a receber colaboração voluntária de montes de artistas que faziam matérias, charges e conteúdo de graça para o jornal. Afinal, era o periódico mais querido do Brasil.
Disfarçando — por censura — a prisão de toda sua equipe, Chico Buarque enviara de Roma um texto em que sugere que uma “estranha gripe” assolou a redação, justificando assim a ausência de Francis, Tarso, Jaguar e os demais. Todos aderiram à lorota da inusitada influenza e o Pasquim continuou nas bancas.
Este episódio da prisão de quase toda equipe não foi o único problema que tiveram com a repressão. Antes, ainda no ano de 1970, um grupo da extrema-direita colocou durante a madrugada uma bomba na sede do jornal. Um defeito no dispositivo impediu a explosão. Foi desativada por peritos da polícia. Reza a lenda que eram cinco quilos de dinamite, o suficiente para destruir todo o sobrado em Botafogo.
Além da “oralização” do texto jornalístico, há muitas outras contribuições do Pasquim para a linguagem e os costumes. Certamente há muita gíria que se fala hoje em dia que as pessoas sequer imaginam foram criadas, ou difundidas país afora, graças ao Pasquim. Normalmente corruptelas, clássicas da malandragem carioca. Duca (de “do caralho”), vôco (“vou comer”), jáco (“já comi”), putzgrila, bicha, paca, por exemplo.
O Pasquim tirou o terno-e-gravata da imprensa, a colocou de bermudas na praia, com um copo de uísque na mão. Impôs a um país inteiro o linguajar solto e sem regras de um bairro de classe média cuja alusão mais conhecida até então era uma canção da bossa nova, que versava sobre uma distinta e bela garota “que coisa mais linda mais cheia de graça”. Entrevistou a própria “garota de Ipanema” (Helô Pinheiro, filha de um dos censores, a bem da verdade), além de ícones como Leila Diniz e Madame Satã. Ajudou a fundar o famoso bloco de carnaval do bairro, a Banda de Ipanema. Peitou a ditadura. Arrefeceu por conta (e contas) própria. Durou a trancos e barrancos até 1977. Depois, em idas e vindas até 1991.
O Pasquim foi uma aventura. Tão louca quanto é o Rio de Janeiro. Tão insana quanto é, e não poderia deixar de ser, o Brasil.
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Leia. Ouça. Assista:
O Pasquim – A Subversão do Humor – (filme de Roberto Stefanelli)
Pasquim – 50 anos da Prisão de uma redação de craques (site ABI)
Pasquim – Todos os Números (fac-símile, Biblioteca Nacional)
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Imagens: reprodução