– Eu avisei que não era para ser tão rápido assim. Se alguém entra aqui na repartição e pede o formulário azul, você diz que foi solicitado. Nada de esticar o braço, pegar a folha azul e dar na mesma hora. Entendeu, rapaz?
– Ok, entendido.
– Você faz uma coisa com velocidade hoje, e amanhã tem que ter a mesma velocidade pra tudo!
– …
– Garanto que você deve responder e-mail no mesmo dia né? Já sei, você trabalhava em banco, né? Sei como são essas metas de banco. Cada dia maiores, mais desafiadoras, quase impossíveis. Aqui, entretanto, rapaz, nossa toada é que dá o ritmo das metas. Se você começar a cumprir tudo muito rápido, a direção lá em cima vai ter problema para mostrar pra capital por que é que a gente nunca foi mais rápido antes, entendeu? Por isso, e-mail você nem responde. Deixa cair na recepção. A última atendente nem sabia abrir o google…
– Como a senhora adivinhou que eu trabalhava em um banco?
– É faro, meu filho, notei que você pegou um cafézinho, mas voltou pra mesa para tomar enquanto trabalhava. Aqui quem levanta pegar café já dá uma olhada na televisão do zelador. Dia de campeonato a gente faz pipoca…
– …
– Eu sei como são essas empresas privadas. É só produtividade, eficácia, eficiência… Deus me livre, ui… Olhe, dê graças à Deus por morarmos neste país. Podem dizer que as coisas aqui não funcionam direito, mas eu digo que nossa letargia é natural. Com ela a gente tem as coisas da vida em um ritmo bem mais confortável. As coisas não são pontuais como na Europa ou precisas como na Ásia, mas tem lá suas vantagens. Só que uma republiqueta de bananas é uma construção de todo dia. É só melhorar uma coisinha aqui e ali e pronto, começa um efeito cascata que ninguém mais segura e acaba mudando tudo.
– …
– Mas eu sei que você não fez por mal. Ah! E se o formulário vier sem carimbo, faz de conta que não viu. Porque pra deixar tudo arrumado dá um trabalhão…