“A curiosidade matou o gato.” “Pare de ser curiosa, guria.”“Tomou Curiol, foi?”
Ouvi isso algumas vezes pela vida.
Acontece que nascemos muito curiosos, com tudo. O rosto da nossa mãe, o cabelo, o peito. A nossa mão, os dedos, o nosso pé. Os brinquedos coloridos, as embalagens de papelão, as tomadas. As caixas, as gavetas, os armários…
Ah, os armários!Para mim, sempre foram os armários. Quando ia visitar a casa da Vó Geni e da Vó Arlete sempre começava a abrir os armários só para ver o que tinha dentro. Era uma delícia quando me deixavam “fuçar”, mas acho que mais ainda quando não deixavam. A coceirinha da curiosidade me roía por dentro e eu ficava algum tempo pensando o que diacho poderia ter lá dentro que eu não podia ver.
E é essa curiosidade que nos permite conhecer o mundo, conhecer o novo. Até porque quando acabamos de nascer, tudo é novo.
Mas aí a gente vai crescendo, vai envelhecendo… E tudo começa a ficar muito comum, muito normal. E vamos achando que sabemos de tudo.E vão nos dizendo que isso ou aquilo não é da nossa conta. “A curiosidade matou o gato.” “Pare de ser curiosa, guria.” “Tomou Curiol, foi?”
E vamos perdendo a curiosidade pelas coisas, a curiosidade pelo novo, a curiosidade pela vida.
Damos ouvidos aos que querem manter a ordem e “tudo como sempre foi”. Acreditamos piamente que temos que seguir a rotina, que temos que seguir as normas, ser “normais”. Vez ou outra cedemos a paixões, nos entregamos cegamente a uma pessoa, a um projeto, a uma ideia de negócio… Mas à curiosidade, jamais!
Ao contrário, eu busco dar ouvidos aos “fora da lei”, aos “maluco beleza”, aos que nadam contra a maré. E eles não me dizem nada disso, não.Se me permite, acho que você deveria buscar ouvi-los também.
Nessas minhas buscas, acabei encontrando uma das minhas maiores fontes de inspiração: Liz Gilbert. Liz mesmo, porque já me sinto íntima. Mas não a cito por causa do grande sucesso de Comer, Rezar, Amar (2006), que depois virou filme estrelado por ninguém menos que Julia Roberts. Mas sim, por causa de um livro mais recente e menos conhecido, Grande Magia – Vida Criativa sem Medo (2015).
Nele, a Liz fala que, quando a paixão está um pouco enfraquecida, o caminho para seguir criando é se entregar à curiosidade. Soou como música para os meus ouvidos, espero que soe assim para os seus também.
“Na verdade, a curiosidade só lhe faz uma simples pergunta:‘Existe alguma coisa pela qual você se interessa? Qualquer coisa? Mesmo que seja só um pouquinho? Não importa o quão pequena ou trivial.” – Elizabeth Gilbert, Grande Magia.
Basicamente, o que ela nos convida a fazer é estar atentos e não deixar de lado aquela coceirinha. Ela nos convida a entrar devagarinho em uma “inofensiva caça ao tesouro” e ver onde a curiosidade nos leva, uma pista de cada vez. Já ouvi chamarem também de novelo de lã, como se o foco da nossa curiosidade fosse só a pontinha do fio e a gente fosse puxando e desenrolando. Pena que não me lembro de quem.
Qualquer que seja a alusão, pode não dar em nada, pode te levar “a lugares incríveis e inesperados”. Para Liz, a caça ao tesouro de uma simples curiosidade por jardinagem, por exemplo, a levou a escrever um romance completo, A Assinatura de Todas as Coisas (2013).
Ainda nessas minhas buscas pelo diferente, acabei me deparando também com a origem do ditado que abre essa nossa conversa – “a curiosidade matou o gato”. Reza a lenda que ele surgiu na Idade Média, nacaça às bruxas. Na época, muitos acreditavam que os gatos tinham uma conexão direta com a feitiçaria e que precisavam ser capturados e aniquilados. Eram usadas então armadilhas. Graças a sua curiosidade, os bichanos acabavam mortos– como as bruxas e todos os que questionavam as perseguições e execuções.
O que quase não se fala, é que o ditado tinha também uma resposta: “a curiosidade matou o gato, mas a satisfação o ressuscitou”, mostrando que descobrir a verdade compensava os ditos males da curiosidade.
Gosto de pensar na verdade como uma nova visão de mundo, como cada novo input que adicionamos ao nosso repertório e que nos ajuda a nos tornarmos um pouquinho mais quem nós realmente somos ou nosso próximo eu. E gosto de pensar na satisfação muito mais pelo processo do que pelo resultado.
Mas gosto mais ainda de saber que o gato ressuscita e que agora temos resposta para toda vez que voltarmos a ouvir aquele velho ditado. E para continuarmos sendo curiosos.
Curiosos pelas coisas, curiosos pelo novo, curiosos pela vida.