Lançamento de Zanardi em versão completa pela Comix Zone recoloca obra do quadrinista italiano em evidência. Hedonismo e amoralidade são algumas características de seus personagens
Para se entender a revolução das histórias em quadrinhos que explodiu nos anos 1970 na Itália, é preciso antes de tudo entender o contexto e a explosão do movimento espontâneo que varreu as ruas, fábricas e universidades, como uma extensão dos movimentos de 1968. Só que o chamado Movimento del’77 veio como uma virada de página do século 20, uma tentativa de revolução pós-industrial, prevendo e mais que isso, reivindicando, as benesses da tecnologia em detrimento do trabalho. Algo que foi chamado de “desafeição”.
“Desafeição ao trabalho é a fórmula com que era definida (por parte do establishment jornalístico, patronal e sindical) a tendência presente entre os operários, sobretudo os mais jovens, que se realizava num conjunto de pequenas táticas de recusa: alegar falsamente doença, pedir uma licença ou sistematicamente trabalhar pouco e mal”, escreveu o filósofo Franco Berardi em artigo publicado na Uninômade em 2017.
1977 foi o ano em que irrompeu um movimento de estudantes e jovens operários, que se exprimiu de maneira muito intensa nas cidades de Bolonha e Roma. Um tempo de violência, de medo nas ruas e nas escolas. Ano também do punk inglês e das revoltas contra Margareth Thatcher, é bom lembrar. Na Itália, já havia dois anos que as Brigadas Vermelhas haviam sequestrado e assassinado o primeiro-ministro Aldo Moro. Cicatrizes ainda não fechadas abriram-se novamente. A Itália era um barril de pólvora.
E aqueles jovens de 1977 já não queriam a radicalidade violenta das Brigadas Vermelhas tampouco a imposição do neoliberalismo que já se anunciava. No fogo cruzado, estava Andrea Pazienza.
Nascido em San Benedetto del Tronto em 1956, seus pais eram professores: o pai ensinava Artes e a mãe Desenho Técnico. Passou seus primeiros anos em San Severo, perto de Foggia. Desde muito jovem demonstrou grande interesse pelo desenho.
Aos 12 anos, Pazienza mudou-se para Pescara para estudar e rapidamente começou a se movimentar nos círculos artísticos locais. Conheceu artistas e intelectuais, incluindo Tanino Liberatore (co-crriador de Ranxerox), figura chave que se tornaria um amigo para toda a vida. Em 1974, iniciou a licenciatura em artes na Universidade de Bolonha, mas não concluiu o curso porque começou imediatamente a trabalhar como artista. Reza a lenda que a única matéria que faltava era Estética, ministrada por ninguém menos que Umberto Eco, mas Pazienza não se sentiu à vontade para fazer o exame final (apesar de ter feito amizade com o ilustre professor).
Pazienza realizou sua primeira exposição em 1975. Foi uma série de pinturas que surpreendeu os visitantes e incluía Isa D’estate, dedicada à querida amiga Isabella Damiani, que foi reconhecida como uma verdadeira obra-prima. Na verdade, Andrea Pazienza não foi apenas um mestre dos quadrinhos, mas um pintor muito respeitado: seu estilo único influenciaria muitos artistas nos anos seguintes.
O artista manteve relação de amor e ódio com a cidade de Bolonha: o meio universitário, a política militante, as praças e as manifestações tornaram-se pano de fundo para as primeiras histórias de Paz (diminutivo pelo qual era chamado na intimidade). Mas foi mesmo em Bolonha e no meio das agitações que absorveu muitos dos temas que mais tarde figurariam na sua obra.
Seu primeiro trampo remunerado como quadrinista surgiu em 1977 nas páginas da Alter Alter, revista fundada pelo renomado autor e dramaturgo italiano Oreste del Buono. Pazienza apresentou uma história de dez páginas intitulada As Aventuras Extraordinárias do Pentothal.
Pentothal é uma referência à droga amplamente retratada como “soro da verdade” na cultura junkie. E As Aventuras Extraordinárias de Pentothal, serializado em Alter Alter entre 1977 e 1981, foi na verdade uma confissão do artista. É uma peça intergeracional que conta a história de um jovem preso numa realidade da qual não consegue escapar.
As capacidades técnicas de Paz são notáveis, mostrando grande habilidade narrativa com histórias inspiradas nas ansiedades e viagens mentais que caminharam de mãos dadas com a agitação que atingiu Bolonha em 1977. Estes foram os anos dos chamados “centros sociais autogeridos”, contra -informações e grandes manifestações de rua. E em 1977 ocorreu um acontecimento que seria um divisor de águas na vida do artista.
Francesco Lorusso, um jovem militante de extrema-esquerda, foi morto pela polícia durante os conflitos na Universidade. Ao saber dessa tragédia, Pazienza correu para a revista, e no último minuto deu a eles uma página final completamente redesenhada para Pentothal substituir a existente.
Para um leitor novato, ler Pazienza não é nada simples. São confusões de quem não consegue fugir à sua realidade: uma Bolonha dominada pela revolução de 1977, sempre atrasada. É possível notar a mudança que ocorreu dentro do artista: ele fala diretamente com o leitor, quebrando a “quarta parede”.
Com Pentothal, Pazienza mostrou-se um artista maduro: conseguiu desviar a atenção dos leitores dos personagens para ele próprio. Foi uma guinada radical na época, quando os quadrinhos ainda eram conhecidos e comprados para seus personagens. Mas foi também a época na qual as HQs — na Europa antes das Américas — atingiram o status dos romances literários. Por fim, gibi então já não era mais apenas “coisa de criança”.
Surgiram no período as revistas italianas que fizeram essa história: Pazienza trabalhou para a Cannibale — fundada por Stefano Tamburini e Massimo Mattioli — junto com os amigos Filippo Scòzzari e Tanino Liberatore. Este grupo de amigos artistas continuaria a trabalhar junto em revistas como Il Male, Corto Maltese e Frigidaire.
A partir de 1978, Andrea Pazienza tornou-se uma estrela do mundo dos quadrinhos: desenhou capas de discos para os músicos Roberto Vecchioni e a mitológica banda PFM, além dos cartazes de Cidade das Mulheres de Federico Fellini e 1900 de Bernardo Bertolucci. Foi tal e qual um período de experimentação e sátira, incluindo uma série de charges políticas, atingindo em cheio Sandro Pertini, o presidente à época.
Nos anos seguintes, surgiu seu personagem mais icônico: Zanardi. Uma espécie de alter ego irascível e desesperançoso. Aparecendo pela primeira vez na história Giallo Scolastico em uma edição de 1981 da Frigidaire, foi o personagem que realmente trouxe Pazienza à fama. Os movimentos de massas de 1968 e 1977 deram lugar ao hedonismo, às drogas, ao dinheiro e ao individualismo da década de 1980. E isso se refletia em um sujeito moralmente depravado, que, ao lado de seus fiéis companheiros, Colasanti e Petrilli (também alter egos do desenhista, se prestarmos atenção) se dedicava a pregar as peças mais cruéis e a consumir todas as drogas que encontrava.
“Zanardi é a má consciência, é o antigo colega de classe, o amigo de infância que nos humilhou de mil maneiras. É a pessoa que mais odiamos e, ao mesmo tempo, aquela que gostaríamos de ser. É nefasto, ignorante e não tem escrúpulos, porque está absolutamente vazio.”
(Andrea Pazienza)
Zanardi é um estudante anárquico e detestável que personifica perfeitamente a rebelião niilista contra qualquer tipo de suposta respeitabilidade. Pazienza descreveu Zanardi assim: “Seu traço de caráter principal é a superficialidade. Uma total superficialidade que permeia tudo o que ele faz”.
Neste ponto, a influência de Pazienza nos quadrinhos e na cultura popular italiana atingiu seu ponto máximo. Sua popularidade estava explodindo e ele colaborava em muitos novos projetos. Trabalhou na Avaj, fundada junto com Jacopo Fo, e depois lecionou quadrinhos na Libera Università di Alcatraz, fundada por Dario Fo em Santa Cristina, perto de Gubbio. Enquanto isso, em Bolonha, foi criada a escola de quadrinhos Zio Feininger. Pazienza lecionou ao lado de Igort, Magnus, Lorenzo Mattotti e outros grandes artistas da Itália e do exterior.
Foram anos prolíficos para Pazienza, que o viu se ramificar em roteiros, teatro e design publicitário. Mas a heroína também se tornou parte da sua vida.
Em 1984, Andrea Pazienza mudou-se de Bolonha para Montepulciano, na Toscana, e continuou viajando pela Itália a trabalho. Até começou a contribuir para a renomada revista Linus. Em 1985, em Roma, conheceu Marina Comandini, que se tornou sua esposa em 1986 e se mudou com ele para a Toscana.
Foi então que ele criou um de seus personagens mais marcantes. Pompeo, publicado pela Editori del Glifo no final de 1987. É em muitos aspectos uma história autobiográfica de uma espiral em heroína. É uma peça introspectiva com um trabalho de traço muito rico, mas extremamente irregular.
Especialmente comoventes e proféticas são as últimas páginas que mostram Os Últimos Dias de Pompeo, nas quais Pazienza empreende uma espécie de introspecção final que prenuncia sua própria morte.
No Brasil, Pazienza ficou conhecido através da revista Animal (1987-1991). Arrebatou leitores com as histórias de Zanardi e sua turma. A passagem mais significativa — e traumatizante para muitos — traz a trama na qual Zanardi quer se vingar de um desafeto e pede que o comparsa Colasanti (o bonitão do trio infernal) seduza a irmã do sujeito em uma festa. Ele sugere um ritual de iniciação à pobre adolescente e pede que ela fique de quatro sob um cobertor. Enquanto isso Zanardi convida o desafeto para a festa propondo trégua e no meio da loucura oferece a garota ao agora pacificado inimigo. Ele vai lá e manda ver. De súbito, Zanardi puxa o cobertor fazendo ver a todos que o cara estava comendo a própria irmã. Era assim mesmo. O tal do trio lembrava os caras da Laranja Mecânica. Zanardi em edição completa acaba de ser lançado pela Comix Zone, no Brasil. Vale apena. É demais.
Nesse período surgiu o ditado “a paciência tem limites, Pazienza não”. Ele era foda, mesmo.
Em junho de 1988, Andrea Pazienza morreu de overdose dentro de sua banheira, em Montepulciano. Tinha 32 anos.
Foi o fim de um dos maiores artistas italianos.
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Ouça. Leia. Assista:
Andrea Pazienza – entrevista (em italiano)
http://www.andreapazienza.it/ (site oficial)
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Imagens: reprodução