Obras para implantação de porto privado em Pontal do Sul provocam revolta entre moradores e ativistas. Governo ainda não cedeu às pressões. Artistas respondem com música e videoclipe #SalveaIlhaDoMel
Logo à entrada do site salveailhadomel.com.br, no item “Opinião Pública”, é possível ler a frase da cidadã Helenita Forcelini, moradora de Pontal do Paraná: “não precisamos de porto! Não precisamos de estrada que vai beneficiar só empresários! Precisamos de IDH, saúde e educação. Precisamos de turismo ecológico!”. O curitibano Leo Gomes, completa: “por uma gestão correta dos recursos públicos e do patrimônio natural, (…). Sem chance para mais retrocessos ambientais!”.
Toda a celeuma encontra razão na própria existência do site, criado a partir de uma atitude do governo, considerada abusiva, antidemocrática e ilegal pelos ativistas ambientais.
Houve em novembro de 2017 uma reunião que visava a discussão da necessidade ou não da construção de uma “faixa de infraestrutura”, que prevê a construção de uma nova rodovia de pista simples ao longo de 20 km de extensão e um canal de drenagem ligando Praia de Leste à zona portuária e industrial de Pontal do Paraná, distante da Ilha do Mel apenas três quilômetros. Tudo gira em torno da construção de um novo porto em Pontal do Sul, na cidade de Pontal do Paraná, litoral do estado.

Induzido por um representante do governo do estado, o Conselho de Desenvolvimento Territorial do Litoral do Paraná (COLIT) aprovou o licenciamento da faixa de obras, determinando o fim da reunião e das discussões.
Segundo o site, “o Governo do Paraná atropela regras para aprovar obras que destroem a Mata Atlântica e favorecem instalação de porto privado em frente à Ilha do Mel”. O sítio na internet termina seu manifesto com uma proposta: a de melhoria dos dois portos já existentes na baía (Antonina e Paranaguá), invés da construção de um terceiro (em Pontal).
Há quem seja favorável ao novo porto e à implementação da faixa de obras. O empresário do ramo logístico Helio Freire declara: “o porto (com o qual não tenho nada) não afeta a ilha! É um porto para container, de carga limpa, descolado da ilha por um largo canal. Isso é manobra comercial pra impedir a concorrência. O litoral precisa de empregos e mesmo gente da ilha vai trabalhar lá. Esse videozinho é o fim da picada. Tendencioso”.
O vídeo ao qual o empresário se refere foi realizado com participação de diversos artistas paranaenses ou ligados ao litoral do estado. O clipe, que conta com a hashtag do movimento #salveailhadomel foi visualizado por 3.500 pessoas.
Segundo o site Mar Sem Fim, o mais importante da Ilha do Mel não são os pontos turísticos e históricos, mas justamente a biodiversidade, especialmente a restinga. O site apurou junto à bióloga Márcia Marques, da UFPR, que “a maior parte das restingas da costa brasileira têm formações vegetais rasteiras, com arbustos e moitas, no máximo. Mas, as da Ilha do Mel, ao contrário, têm formação florestal mais desenvolvida com árvores que chegam aos 20 metros de altura”. A cientista atua na área ecológica, autora do livro História Natural e Conservação da Ilha do Mel.

Desde que foi “descoberta” pelos hippies na década de 1970, a ilha vem sofrendo constantemente invasão e depredação de sua fauna e flora. O boom imobiliário se deu nas pacatas vilas insulares (são cinco comunidades, duas mais conhecidas e frequentadas: Brasília e Encantadas) já nos anos de 1980. Em duas décadas, diversos imóveis foram vendidos a “preço de banana” para um público não nativo, que hoje é parte de mais da metade da população fixa da ilha.
Os turistas “completaram o serviço”. A ilha abriga em torno de 9 mil pessoas durante as temporadas de verão. O que é considerado muito em qualquer ambiente insular com natureza ainda minimamente preservada e área semelhante, acima dos padrões mundiais.
Com a construção do porto, outra grande preocupação é em Pontal do Sul, onde está prevista a abertura do canal, sobre ambiente natural que inclui mangue, área de pesca e principalmente o berço dos botos, abundantes e comuns na região. O estudo de impacto ambiental apontou todos estes fatores, mas nada demoveu o governo estadual a alterar os planos. O produtor cultural Guilherme Batista eleva o tom das críticas: “para onde vão os pescadores que residem e garantem seu sustento na área em que serão realizadas as obras? Como sempre, ficarão à míngua, condenados à pobreza extrema”.
Há uma carta ao Estado, que pode ser acessada aqui, em formato de abaixo-assinado, em que é solicitado que o governo melhore os dois portos existentes na baía, ao invés de construir um novo. Lá também é possível assistir ao vídeo realizado pelos artistas envolvidos na campanha contrária à construção do porto.
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Fotos: Mar Sem Fim
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