A Tara Neopentecostal Por Jerusalém

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Como disse Jorge Drexler em sua canção Milonga del Moro Judio, “por cada muro um lamento em Jerusalém a dourada, em mil vidas mal gastas em cada mandamento” a cidade acesa como o fogo e sagrada para cristãos, islâmicos e judeus sempre foi o alvo de cruzadas religiosas e litígios entre primos, seja nas destruições dos 2 templos de Jerusalém e a tentativa de expelir a ancestralidade judaica de lá por outros povos, sejam nas cruzadas entre os templários e os Califados e o abandono da ordem católica para tornar-se-á um segmento cristão de Jerusalém com base em todos os movimentos heréticos da igreja pré-medieval que culminou no extermínio e na traição de Esquin de Floyrac a Jacques Demolay, sempre esteve lá, na contracapa do álbum Infidels de Bob Dylan, sempre esteve lá, localizada em um planalto nas montanhas da Judeia entre o Mediterrâneo e o mar Morto, Jerusalém.

No ciclo de vida judaica, a cidade é lembrada nos momentos mais felizes, casamentos, por exemplo, e em todos os anos no final do seder de Pessach quando se diz “ano que vem em Jerusalém”. Isso é crucial para um povo que sofreu tantas avarias e diásporas em milênios de perseguição e desprezo por outros povos. Na península ibérica, durante o renascimento houve por parte dos reis católicos Izabel e Fernando a expulsão de judeus e muçulmanos da Espanha, enquanto em Portugal a conversão forçada de milhares de judeus durante o Levante de Lisboa, dando origem a um novo tipo de cristão, os cristãos novos, bnei-anusim, cristão com crendices e tradições que remontam em origens semíticas.

Apenas no nordeste brasileiro, estima-se que cerca de 30% da população seja de cristãos novos, esses cristãos novos que jamais seriam convertidos ou reestabelecidos a uma comunidade judaica ortodoxa novamente, mas que ainda preservam em si matizes muito arraigadas, sejam nos sobrenomes, Coelho, Oliveira, Pereira, Machado, Carneiro, seja na estrela de Davi estampada no uniforme dos cangaceiros.

Essa problemática não existe apenas aqui, mas em todo o mundo, a lei do retorno é clara quando fala em 4 gerações, porém existe um acesso das igrejas Católicas Romana e Ortodoxa a igrejas em bairros de Jerusalém, Nazareth, Belém e outras cidades, coisa que não acontece com as igrejas protestantes, essas com a reforma luterana abdicaram do “direito” ancestral de São Pedro, tornando a igreja mais livre e interpretativa.

No Brasil, atualmente, o fenômeno das igrejas neopentecostais, tornam as coisas mais nebulosas, seja na réplica do Templo de Jerusalém feita por Edir Macedo e a IURD, seja na utilização de indumentárias judaicas como talit, kipá e tzitzit por alguns pastores. Tudo isso é uma tentativa revisionista e sem fundamentos de tentar fazer com que a enorme população de cristãos novos do Brasil possa de uma maneira errônea ter uma vivência simbólica judaica.

O cristianismo é por excelência proselitista, ao contrário do judaísmo, ou seja, esse proselitismo quer almas e terra, além da assimilação simbólica em nome de uma “palavra”, também irrompe a possibilidade de igrejas evangélicas baterem de frente com o Vaticano, como por vias religiosas isso é impossível, o viés político fica mais plausível como o reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel por Bolsonaro, isso não atende a nenhuma ideia de benefício ao povo judeu, mas sim de dar poder político para pastores, bispos e representantes da fé neopentecostal aproximando a ideia de Brasil evangélico a uma nova Canaã, um projeto nefasto que pode culminar em movimentos de antissemitismo no Brasil por parte de outros segmentos, pois judeus não são neopentecostais nem cristãos.

Crédito da imagem: Yael Cohen