A triste história de Norma Jeane


Marilyn Monroe é o maior ícone feminino do cinema. Aos 60 anos de sua morte, as lendas no seu entorno continuam vivas

Em 2022 completam-se 60 anos de morte da atriz mais glamurosa da história. Para muitos, Marilyn Monroe — que se estivesse viva teria 96 anos — sempre será a garota com a saia esvoaçante pela ventilação do metrô em uma calçada de Nova York. Para outros, a garota que canta o Parabéns pra Você para o presidente Kennedy. Aos mais cinéfilos, a loira junkie e fatal do clássico de Billy Wilder Quanto Mais Quente Melhor (Some Like it Hot, 1959).

Na realidade, porém, ela não era nem uma coisa nem outra. Dá pra dizer que Marilyn talvez não fosse real. Era uma personagem criada por Norma Jeane Baker, uma jovem garota de Los Angeles, na ensolarada Califórnia, dos sonhos de cinema e glória do século 20.

Norma Jeane não era diferente de muitas meninas daquela América repleta de sonho. Nascida em 1º de junho de 1926, era filha de Gladys Baker e Charles Stanley Gifford, um homem que trabalhava com Gladys na indústria do cinema. A mãe de Norma Jeane era uma mulher com uma vida complicada. Fora casada duas vezes antes, e estava sem ninguém quando deu à luz Norma Jeane.  Quis cuidar da filha, mas não tinha estrutura, e as coisas não foram fáceis, especialmente para a pequena. Uma mãe solteira era um escândalo, mesmo na Califórnia dos liberais e do sol. Duas semanas após o parto, Gladys levou Norma Jeane para a casa de Ida e Wayne Bolender, vizinhos de sua mãe, Della Monroe.

Norma Jeane viveu com os Bolenders até os 7 anos. O casal queria adotá-la. A mãe biológica, no entanto, ficou revoltada. Ela já havia perdido dois filhos anteriormente, raptados pelo seu primeiro marido, que os levou para fora do estado após uma turbulenta separação. Em 1933, Gladys decidiu mudar Norma Jeane para uma casa que ela dividia com o Sr. e a Sra. Atkinson, um casal inglês que também trabalhava no cinema.

A vida de Norma Jeane seguiu em uma série de fatos e situações confusas. Mortes trágicas na família, como a do bisavô de Norma Jeane e do seu tio-avô — por suicídio e acidente respectivamente. Gladys seguia desequilibrada e com o emocional à flor da pele. Os dois eventos trágicos foram suficientes para levá-la ao limite. Como sói acontecer, descontou tudo na filha.

Não tardou para Gladys ser internada em um hospital psiquiátrico, onde permaneceu o resto da vida, e Norma Jeane ser entregue a um orfanato. O desaparecimento de sua mãe foi mais do que ela poderia suportar.

Após uma série de lares adotivos, Norma Jeane foi viver com Ana Lower, tia de Grace Goddard, e melhor amiga de sua mãe, com quem também já havia vivido um tempo. Foi um pequeno período de estabilidade. A tia Ana acabou enfrentando problemas de saúde, e então a garota foi novamente transferida para outro lar adotivo, e depois mais um orfanato.

Em 1942, casou-se com Jim Dougherty, um vizinho da família de Grace Goddard, onde ela estava morando provisoriamente, ainda adolescente. Eles namoravam sem grande compromisso, a família estava se mudando para o leste e precisava de alguém para cuidar de Norma Jeane. Grace discutiu o assunto com a mãe de Jim Dougherty. Foi decidido que ambos se casariam. E assim foi arranjado. Desse jeito.

Jim abraçou o desafio, embora Norma Jeane vivesse o período de conflito clássico da adolescência. Não podia ser diferente, ainda mais com a vida que vivera até então. Ela queria ser mantida fora de mais um orfanato. Mas a ideia de casamento a aterrorizava, naturalmente.

O casamento durou quatro anos, durante os quais Jim foi para a guerra e Norma Jeane foi morar com seus sogros. No período, seguiu-se um turbilhão de novidades que mudaram sua vida. Conseguiu um emprego em uma fábrica de material bélico como esforço de guerra. Ao acaso foi descoberta por um fotógrafo tirando fotos para publicidade do governo, acerca do mesmo esforço. As fotografias acabaram levando a jovem para uma carreira de modelo, que a fez deixar o emprego. Jim não gostou. Ela foi a Las Vegas e pediu o divórcio. Chocou todo mundo. Mas agora Norma Jeane estava por conta própria.

Em Las Vegas, a então modelo conheceu Bill Pursel, um colega, e os dois se tornaram amigos. Bill acabou por descobrir que a amiga era de fato muito popular. Quando Norma Jeane retornou a Los Angeles, foi convidada para um teste na 20th Century Fox. Assinou um contrato e não gostou da imposição de mudar seu nome para Marilyn Monroe. Monroe era o sobrenome da avó, tudo bem. Mas Marilyn ela achou meio demais.

Após alguns percalços e pequenos papeis entre 1947 e 1949, foi notada pelo agente Johnny Hyde, que a apresentou para o pequeno mas importante papel de Angela em The Asphalt Jungle. (O Segredo das Joias, 1950). Os dois se tornaram amantes. Hyde a pediu em casamento mais de uma vez. Ela o recusou todas.

Marilyn focou na carreira. Interpretou papeis em produções como o clássico Al About Eve (A Malvada,1950), Clash By Night (Só a Mulher Peca, 1951) e Don’t Bother To Knock (Almas Desesperadas, 1952), entre outros. Sua estrela estava em ascensão, mas uma descoberta de que ela havia posado nua ameaçava sua carreira. Além disso, descobriram também que sua mãe estava viva e internada. Ela declarava a mãe morta há anos. Tais revelações quase marcaram o fim para a envolvente Marilyn Monroe.

Mas ela decidiu contar a verdade. Alegou que fizera as fotos nuas porque estava sem dinheiro (verdade). Quanto a sua mãe, contou que desejava manter seu paradeiro em segredo para protegê-la. A honestidade funcionou. Marilyn caiu nas graças do povão.

Em 1952, Marilyn se apaixonou pelo jogador de beisebol Joe DiMaggio, uma lenda viva do esporte, aposentado, e quase um herói nacional. Por esta época, ela protagonizou filmes peso-pesado, como Niagara (Torrente de Paixão) e Gentlemen Prefer Blondes, (Os Homens Preferem as Loiras). Tornou-se uma estrela. Mas queria papeis melhores e, retaliada pelo estúdio, casou-se com DiMaggio, recusando outros papeis de “loira-burra” que lhe ofereceram, afastando-se por um tempo.

O estúdio a suspendeu, mas não durou muito. There’s No Business Like Show Business (Mundo da Fantasia, 1954) e seu primeiro filme com Billy Wilder, The Seven Year Itch (O Pecado Mora ao Lado, 1955) foram grandes sucessos. Foi nessa película que rolou a cena famosa que eternizou o mito de Marilyn Monroe, a do vestido esvoaçante, mostrando suas pernas e alguma lingerie. O mundo estava entregue a Marilyn. A partir daí um verdadeiro mito.

Foi este papel e a famosa cena em seu primeiro de dois filmes que rodou com o gênio Billy Wilder que causaram sua separação. DiMaggio ficou furioso, estava na plateia e não gostou. Uma discussão violenta foi seguida de um pedido de divórcio. Mais um.

Marilyn queria evoluir, artística e intelectualmente. Rumou a Nova York, montou sua própria empresa de cinema com o fotógrafo Milton Greene e começou a ter aulas de atuação e psicanálise. Durante uma leitura, conheceu e se apaixonou pelo dramaturgo Arthur Miller, com quem se casou em 1956.

O casal foi a Londres filmar The Prince and The Showgirl (O Principe Encantado, 1957) com Laurence Olivier. Voltaram aos EUA, onde tentaram uma vida normal, um velho sonho de Norma Jeane. Assumiu o papel no novo filme de Billy Wilder, Some Like It Hot, um dos grandes filmes da história da sétima arte. Durante as filmagens, sofreu mais um aborto. O sonho de ser mãe estava cada vez mais distante.

Tentou várias intervenções médicas fracassadas de uma gravidez normal.  Até que, resignada e muito triste, desistiu. Marilyn já era demais para Norma Jeane. E a superou em tudo. Até em seus sonhos. O relacionamento com Miller terminou após ele escrever o papel de Roslyn para ela em The Misfits (Os Desajustados, 1961), com Clark Gable. Norma Jeane estava de novo sozinha.

No ano seguinte, reatou com Joe DiMaggio, em termos de amizade, reza a lenda. Ele tornou-se o amigo que Marilyn precisava. Viajavam a praias na Flórida e iam ao beisebol. A imprensa aventou um novo casamento entre ambos. Marilyn negava. Até hoje ninguém sabe se era real ou não.

Não é preciso dizer que Hollywood sempre foi um antro de drogas e álcool, vício e perdição química, desde seus primórdios. Não poderia ser diferente com um mito como Marilyn Monroe. Tampouco a uma garota cheia de problemas como Norma Jeane. Em agosto de 1962, Marilyn foi encontrada morta. A causa mortis foi overdose.

Muitas teorias foram apresentadas ao longo dos anos sobre as razões que levaram Marilyn à morte. Algumas delas versam sobre seu envolvimento com John Kennedy, presidente dos Estados Unidos eleito em 1960, assassinado em 1963. Nunca foi provado. Tudo o que se sabe realmente é que ela cantou para ele em seu aniversário e era amiga de sua irmã, Jean Kennedy Smith.

Nunca se saberá realmente por que Marilyn Monroe faleceu. Levou seus segredos para o túmulo. Tudo o mais é história.  Importa de fato a vida que levou. Tudo o que se sabe é que a garota de Los Angeles Norma Jeane Baker sempre quis ser amada.

O mito que criou para si própria foi. Por um planeta inteiro.

Ouça. Leia. Assista:

Quanto Mais Quente Melhor (1959) – trailer

Blonde – livro, por Joyce Carol Oates

Blonde – filme – Netflix – trailer

Imagens: reprodução