O adolescente- aquele que perde (se) e se rebela
A adolescência é um espaço de tempo sem lugar definido, até mesmo os limites cronológicos não são precisos: a Organização Mundial da Saúde (OMS) define as idades entre 10 e 19 anos (adolescents) e a Organização das Nações Unidas (ONU) entre 15 e 24 anos (youth). Um tempo estendido entre idades variáveis que pouco nos indica um entendimento desse período receoso.
A adolescência não é o meio, como parece numa primeira escuta. A adolescência é um começo e como todo começo é tortuoso. Luiz Tatit, paulista, músico, lingüista e professor universitário brasileiro, em verso indica as características do começo:
Por isso que sempre no início
A gente não sabe como começar
Começa porque sem começo
Sem esse pedaço não dá pra avançar
Mas fica aquele sentimento
Voltando no tempo faria outro som
Porque depois de um certo ponto
Tirando o começo até que foi bom
Luiz Tatit, O Meio
Sendo uma estreia que ainda nem se ensaiou, o saber sobre si ou sobre o mundo está difuso diante do imperativo da perda da infância. O sujeito que não mais criança e ainda não adulto começa perdendo. Adolescer é ensaiar a perda da infância ao mesmo tempo que principia num mundo que ainda não é o seu. Um vão, um precipício entre não ser mais criança e tudo que isso implica e a próxima etapa de ser adulto.
Não ser mais criança tem uma dimensão importante. Perde-se muitas coisas: o corpo infantil, os pais da infância e a própria identidade (Outeiral, p. 96). A essa perda, Freud chama de Luto e se refere a ela como “uma reação a uma perda real do objeto”, em seu texto de 1917 intitulado Luto e Melancolia. Tendo em vista que o objeto perdido da adolescência é o próprio ser infantil que não serve mais nesta estreia.
O começo é às cegas, é uma prática, sem teoria, sem experiência, um palco em que a cortina se abre e é preciso agir. O primeiro movimento é a negação opositora. Negar aqueles que até então eram uma referência é a única saída. O sentimento envolvido é um não querer ser mais aquilo que se era, é preciso se reinventar e para isso diferenciar-se dos pais e das referências de adulto é um rompimento necessário à sobrevivência psíquica. É de fácil percepção essa diferenciação necessária: os cabelos coloridos, as “facções” idealizadas (Punk, roqueiro, emo, dentre tantos outros) é uma forma de afastar-se daquilo que se fazia antes e uma busca por pares que comunguem das mesmas ideias.
Atitudes de transgressão da ordem comum também é uma forma de diferenciação e uma solução saudável de elaboração das perdas e seus lutos apontando para ensaios para essa estreia da vida quase adulta.
Pai eu já tô crescidinho
Pague prá ver, que eu aposto
Vou escolher meu sapato
E andar do jeito que eu gosto
E andar do jeito que eu gosto
Raul Seixas, Sapato 36
Os adultos assistem a isso, embasbacados, como se nunca, eles mesmos tivessem passado por esse luto. Magicamente aquele que já foi adolescente, esquece-se das perdas e das dores de crescer.
Escolher um par amoroso, vislumbrar um futuro feliz, fazer novos vínculos mais ampliados no social, reconhecer-se em atos cotidianos, construir uma imagem diante do espelho que lhe diga algo agradável de si. São as tarefas que todos nós vivemos e quando estamos diante do sujeito, não mais criança e ainda não adulto, algumas vezes nos petrificamos, porque ao ouvir esse ser, também ouvimos a nós mesmos num eco da nossa própria adolescência.
As pequenas ou grandes transgressões como tarefas escolares não feitas, passeio sem autorização dos pais, experimentar bebida alcoólica ou outro entorpecente, banhos não tomados, notas baixas e até mesmo experiências com aquilo que é considerado fora da lei é escutado como patologia. Em nome de não nos havermos com o adolescente que fomos, com o ser que transgrediu, se diferenciou, errou e sobreviveu, negamos o luto inerente dessa fase.
Para compreender o adolescente precisamos reatarmos ou afrouxarmos nossa escuta sobre nós mesmos quanto adolescentes. E o convite está feito: como foi verdadeiramente sua adolescência?
Essa convocação ao passado do adulto não é tarefa nada fácil se considerarmos que já passamos por isso e nossa tendência é a do esquecimento (ou negação) devido ao mal estar que esse período proporciona. Se aquilo que estamos oferecendo não toca o sujeito que “adolece” ou adoece de sua existência, precisamos perguntar: o que não estamos oferecendo? O que estamos negando de nossa própria história que está impedindo o acolhimento do sofrimento desse ser que um dia fomos nós? Ou será que ainda somos?