Ainda bem que eu disse sim


Após anos sem ver uma peça, finalmente resgatei meu contato com o teatro.

Confesso que a ideia de teatro pelo computador não me atraía nem um pouco. Uma peça, online? Que graça tem? Mas ter a chance de ver uma amiga querida (que também nunca vi fora das telas, diga-se de passagem) atuando, além da oportunidade de fazer algo diferente em um final de domingo preguiçoso (mesmo que a lista de coisas a fazer continuasse enorme), me fez dizer sim.

E, veja só, ainda bem que eu disse sim!

Primeiro, porque foi super legal mesmo ver minha amiga atuando – legal do tipo senti aquele orgulho por dentro e vontade de dizer para todo mundo, “tá vendo aquela ali? Minha amiga! Maravilhosa, né?!”. E foi o que eu fiz, sem vergonha de ser feliz.

Segundo, porque me fez experimentar algo que há muitos anos eu não experimentava – e que me faz bem demais: o teatro. Engraçado que toda vez que vou ao teatro eu juro a mim mesma que esse é um hábito que eu preciso manter com muito mais frequência, mas aí a vida acontece, tudo vira muleta e, quando vejo, a última vez que fui ao teatro deve ter sido há uns três anos… (vergonha, eu sei).

Terceiro, porque a peça era boa mesmo e me fez algumas provocações bem interessantes – que eu não estava esperando em um final de domingo preguiçoso. Em um resumo muito simplório, a coisa toda acontece quando uma mulher de 40 anos se depara com ela mesma, aos 20. E, juntas, elas fumam alguns cigarros na madrugada e conversam sobre a vida.

A esperança inocente em um ideal de futuro e liberdade. A materialização deste ideal em coisas supérfluas e cheias de significado, como uma luminária japonesa e lençóis de linho. A conquista destas coisas. A percepção do que realmente significam – ou do que acabam por não significar. A vida, as expectativas da sociedade, os segredos, as frustrações, o amor. O espelho.

Até aí, já tive motivos suficientes para confirmar que “ainda bem que eu disse sim”. Mas vou me permitir descer mais uma camada e te contar um pouco mais do que ficou.

Estamos em pandemia, lembra? Passamos por lockdown. Medo, preocupação, cuidado. Mercado, casa, mercado, casa. Acorda pela manhã, uma reunião atrás da outra, e-mails e WhatsApp nos intervalos, pausa para preparar o almoço, almoça, coloca máscara, leva as cachorras para fazer xixi, interage com o marido, faz nada, volta que já tem mais uma série de reuniões, prepara material de aula, estuda, lê, resolve as pendências, janta, cachorras, foca nos objetivos, toma banho, bate papo com o marido, resolve coisas, faz nada, vê o Instagram, cachorras, vai dormir. Repete. Repete. Repete.

Muito sem perceber, sintonizei em uma frequência única e fiquei lá, presa. Acreditei, de verdade, que o mundo se resumia a essa frequência, a esse ritmo, a essa batida.

Não se engane, a frequência não era baixa, não. Não era monótono. Não faltavam coisas para fazer – pelo contrário, a minha lista de coisas a fazer estava enorme, lembra? E não pense que fiquei no mesmo lugar fazendo uma única coisa, pois até mudança de casa e projeto novo nesse meio tempo, teve. Também não pense que o que faltava era tempo de descanso, pois as pausas existiam e fazer nada se tornou a minha válvula de escape.

Mas agora eu vejo, o que faltava era viver o novo, o diferente, o fora da bolha. Era conviver com coisas que não faziam parte da minha rotina, que não estavam sintonizadas naquela mesma frequência.

Logo eu que sempre fui muito adepta ao novo, que sempre estampei no espelho e na testa lembretes como “quando foi a última vez que você fez algo pela primeira vez?” Logo eu, me peguei fazendo a mesma coisa o tempo inteiro. Dia de semana, fim de semana, feriado. Todos os dias. Na mesma frequência.

Resultado? Passei 3 meses sem escrever. Não conseguia encontrar conteúdo, novidade, inspiração. Travei.

Ver essa peça e ver minha amiga nela não só me lembrou como o teatro é maravilhoso (e como minha amiga é maravilhosa), como também me lembrou que existem universos e bolhas além das que estou vivendo. E que visitá-las a cada tempo não é só bacana, mas é essencial para eu dar conta de sobreviver, de viver, de ser.

E não tem desculpa. Não é porque não posso sair de casa que não posso sair da minha bolha e visitar a bolha do outro. Existem alternativas, grupos, pessoas, atividades… Tem teatro online!

Está vendo? Ainda bem que eu disse sim!

Ah! E você quer um motivo extra para esse sim ter valido ainda mais a pena? Fiquei impressionada com a criatividade que produtores e atores precisam ter – na prática – para produzir uma peça em tempos de pandemia. A criatividade vai desde questões visíveis como a escolha de qual ferramenta usar para fazer a transmissão e garantir um bate papo com a plateia ao final do espetáculo, até questões que eu nem imaginava, como formato dos ensaios, integração dos atores, preocupações de enquadramento, iluminação, cenário (lembrando que os atores também estão isolados em suas casas), gravação de cenas, efeitos especiais para esconder fundos indesejados, edição. Uma aula grátis de criatividade bem ali, nos detalhes muitas vezes não percebidos de uma peça de teatro online.

Preste atenção. Experimente o novo. Saia dos seus universos e invada (educadamente) os universos dos outros. Perceba a criatividade nos pequenos (e nos grandes) detalhes. Viva!

Quero deixar esse lembrete aqui, para que eu possa revisitar e aplicar toda semana.
Fique à vontade para usá-lo em sua vida também.

PS.: Muito obrigada, minha amiga Mariana Cury e parabéns pela excelente peça!