Jornalista inovou na tevê, mas tem história ainda mais longa no rádio e imprensa escrita. De farta vida boêmia, foi o primeiro a adotar a linguagem das ruas em programas policiais
“Não dá entrevista. Não dá lero. Cansei de tentar gravá-lo. Eu rodava a cidade com ele, uma, duas horas. Depois deixava ele na casa dele. O interesse do Vampiro era minha milonga, minha gíria, meu jeito de falar”. O autor da declaração é o jornalista Ali Chaim. Ele fala do amigo Dalton Trevisan, escritor famoso por nunca dar entrevista e ser avesso à fama ou ao reconhecimento.
Nada mais apropriado. O universo que é possível encontrar nos contos do maior escritor vivo (98 anos em 2023) da língua portuguesa é o mesmo que Chaim frequentou e descreveu a seus leitores, ouvintes e telespectadores ao longo de décadas. Mas seu idioma era próprio.
Descendente de pai libanês e mãe polaca, Ali Chaim nasceu em 1939 em Curitiba, no bairro Capanema, bem perto de onde se formou a favela da Vila Pinto, o primeiro e mais central gueto da capital. Formou-se em Ciências Contábeis na UFPR, e perito-auxiliar na Escola de Polícia Civil.
Começou a carreira escrevendo no Diário da Tarde, em 1960. Chaim mantinha uma coluna sobre a boemia curitibana, a Giro na Noite. Como era comum na época (vide Sérgio Porto e seu “Stanislaw Ponte Preta”, ou Nelson Rodrigues e sua “Susana Flag”, entre outros) escreveu por um bom tempo sob o pseudônimo “Laurence das Arábias”, em alusão ao famoso filme de 1962. Provavelmente o primeiro de uma vasta gama de apelidos que adotou ou pelo qual foi alcunhado ao longo da vida.
Em 1968, foi convidado a trabalhar na Rádio Clube Paranaense, onde começou a desenvolver uma linguagem completamente diferenciada, com uso constante de gírias da malandragem, muito especialmente do mundo do crime. Em 1973, assinou com a Rádio Colombo, apresentando o programa Bate Papo com o Califa. “Califa” era um apelido em alusão a sua ascendência árabe, a exemplo do “Laurence” de anos antes. O programa e a sua coluna no jornal Correio de Notícias com o título de O Buxixo do Califa 33, contribuíram para a fama do jornalista, então com pouco mais de 30 anos.
Ganhou notoriedade na tevê quando passou a apresentar programas jornalísticos de conteúdo policial, como o Show da Notícia do Canal 4 na antiga TV Iguaçu. O Califa 33, na mesma emissora, foi sem dúvida o mais criativo programa policial da história. Chaim utilizava o truque de ficar atrás de um lençol estendido na frente da câmera, no qual só era possível ver sua sombra. E levou sua linguagem inovadora para muito mais gente, chegando a liderar a audiência. O apresentador era também repórter: ia às delegacias, muquifos e cenas-do-crime conferir in loco os fatos, entrevistava os bandidos, advogados, vítimas, agentes e delegados envolvidos, sempre na linguagem peculiar. Depois retornava ao estúdio para editar o material e apresentar, invariavelmente ao vivo.
Uma vez, estava cumprindo reportagem em uma delegacia para o rádio, em 1975, quando se deparou com uma história contada por um taxista que estava lá para fazer um boletim de ocorrência. Era a história de uma loira que embarcou em uma corrida (no Cemitério Municipal) com o motorista e simplesmente sumiu do banco de trás do carro. Chaim não perdeu tempo, entrevistou o taxista e levou a notícia para seu programa. Acontece que a história se repetiu com mais um punhado de taxistas, sempre com o mesmo roteiro: cemitério e sumiço, com poucas variantes. A “Loira Fantasma” se transformou em uma lenda de Curitiba. Virou curta-metragem lançado em 1991, com direção de Fernanda Morini, e com a participação de Chaim fazendo o papel dele mesmo.
O “Califa” falava a língua do povo, da malandragem, dos bandidos, prostitutas, travestis, policiais e gângsteres. Frequentava corredores das delegacias e secretarias de segurança com a mesma desenvoltura com a qual caminhava por puteiros, boates, bocas de fumo e favelas. De gosto refinado e muito culto, Chaim era amigo de músicos e boêmios, desde o compositor Lápis até o maestro Waltel Branco e o vocalista de rock Ivo Rodrigues. Privava da amizade de escritores como Paulo Leminski e o citado Dalton Trevisan. É irmão do não menos lendário livreiro Aramis Chain (com “n” mesmo), da Livraria do Chain, a mais tradicional da cidade, ponto de encontro de escritores, artistas e intelectuais nos arredores da Reitoria da Universidade Federal.
Passava as madrugadas rodando as “quebradas” com seu fusca. Ia atrás dos fatos. Onde acontecia um “buxixo quente”, em pouco tempo já estacionava o carro do “Sombra” (outro apelido), com trânsito livre do qual poucos gozavam. Costumava declarar que o segredo de sua bem-sucedida empreitada era o respeito. Nunca realizava a abordagem com chacota pelo marginal. Falando com afinidade, extraia sinceridade dos bandidos para a notícia.
Também trabalhou na TV Paraná canal 6 e na TV Paranaense canal 12. Recebeu honrarias e várias homenagens, entre elas o Troféu Comunicação Cidade (em 1977 e 1979), o troféu Melhores do Rádio (1974) e Jornalista do Ano (1985). Sua vida profissional foi tema do curta-metragem Califa 33, com direção de Yanko Del Pino, em 2012.
Deixou vasto e imensurável “dicionário” das gírias que usou ao longo da carreira. Buxixo, cana, xarope-ou-morto, mão-grande, casão, mocó, penita, colégio, malaco, charla…
E arrematava sempre com o tradicional “esclanque!”, seguido de corte para a matéria ou comercial.
Ali Chaim morreu em 2020, aos 81 anos. Um sujeito simplesmente genial.
…
Ouça. Leia. Assista:
A Loira Fantasma (1991), dir. de Fernanda Morini
Califa 33 (2012), dir. de Yanko Del Pino
…
Imagens: reprodução