Maior sucesso da sétima arte nacional, artista levou 200 milhões de pessoas ao cinema. A solidão, entretanto, foi uma de suas marcas mais profundas
Diretor, ator, produtor, artista de circo e humorista, Amácio Mazzaropi ficou conhecido por encarnar em suas esquetes um jeca, caipira típico do interior profundo do Brasil. Especialmente o caipira clássico, do interior de São Paulo, Paraná e Minas Gerais. Seu personagem apontava diretamente para a vida diária de grupos da base da pirâmide social brasileira. O pobre, o matuto, o analfabeto e ingênuo. Também malandro e esperto. Uma caracterização que herdara, por ser oriundo da mesma classe.
Filho e neto de imigrantes italianos e portugueses, Mazzaropi nasceu em São Paulo, capital, em 1912. Desde muito novo já demonstrava talento para o teatro e imenso interesse por música. Chama a atenção da mãe, Clara Ferreira, e do pai Bernardo Mazzaropi.
As dificuldades financeiras levam a família de mudança a Taubaté, no interior do estado, onde a mãe tinha origem. Seus pais passam a trabalhar na indústria têxtil que emergia. O pequeno Amácio aproxima-se de seu avô materno João José Ferreira, que tocava viola caipira e era bastante conhecido na região. Assim entra em contato a cultura caipira, que marcaria sua vida futura.
Em 1926, há uma curiosa passagem: o jovem Amácio Mazzaropi é enviado a Curitiba pela família, onde trabalha na loja de tecidos do tio Domenico Mazzaropi. O motivo era o envolvimento do filho com o circo, mas pouco adiantou, pois a capital do Paraná também tinha circo, e a longa tradição dos irmãos Queirolo.
Mazzaropi enfrenta forte oposição familiar, especialmente do pai, mas ruma a São Paulo e ingressa no pequeno Circo La Paz, como qual viaja o país fazendo o papel de “ajudante do faquir”, além de entreter o público nos intervalos das atrações principais, como uma espécie de palhaço.
Não deu muito certo do ponto de vista financeiro. Mazzaropi retorna a Taubaté e trabalha por um tempo na Companhia Taubaté Industrial. Nas horas vagas, assistia aos espetáculos do Theatro Polytheama. Acaba ingressando na companhia. Ali, realiza suas primeiras apresentações caraterizado como o personagem caipira. Já era 1930. Estreia na comédia teatral A Herança do Padre João, de Baptista Macedo.
Capitaneada por Sebastião Arruda, uma certa Trupe Arruda desembarca em Taubaté, em 1934. O grupo tem uma representação de caipira diferenciada da que Mazaropi realizava. Era famosa em todo interior de São Paulo, e a atração principal era uma performance de ninguém menos que Cornélio Pires e Genésio Arruda. O jovem ator é influenciado até a medula pela estética apresentada.
Ainda em 1934, Mazzaropi conhece Olga Crutt, nome artístico de Maria Nogueira do Amaral. Ela mantinha uma trupe, a Troupe Olga Crutt, que gozava de muita reputação no período. A artista convidou Mazzaropi para a companhia. Estabeleceu-se uma parceria, e uma paixão. .Depois de algumas apresentações, a mulher abandonou o nome artístico que usava e passou a assinar “Olga Mazzaropi”. Assim nasceu a Troupe Mazzaropi, dedicada ao circo-teatro. A estreia foi em Jundiaí com a peça Divino Perfume, de autoria de Renato Vianna.
O suposto amor de Olga e Mazzaropi é até hoje um mistério, pois nunca foram casados de fato e fontes revelam que eram apenas amigos. Não se sabe ao certo o destino de Olga. Em seu livro Mazzaropi – Uma Antologia de Risos, Paulo Duarte escreve:
“Olga Crutt ou Olga Mazzaropi? Qual o seu fim? Poucos sabem a resposta. O fato é que Olga sai da história de Mazzaropi da mesma maneira fugaz e misteriosa com que havia entrado. Alguns dizem que se Mazzaropi, alguma vez na vida, amou uma mulher de verdade, seu nome foi Olga Crutt. Talvez, ela o tenha amado mais do que ele que, obstinado por sua carreira, acabou optando pela arte em vez do amor…”
Em 1946, já com bastante prestígio e todo “patrão” de si, é contratado pela Rádio Tupi, em São Paulo. Ele protagonizaria o programa Rancho Alegre. O público-alvo era exatamente aquele que migrava em massa do interior para a capital. Mazzaropi e seu tipo caipira eram a feição daquela gente. Interpretou um contador de “causos” acompanhado por um sanfoneiro.
Com o advento da televisão no país (1950), o programa de rádio é adaptado para a TV Tupi em 1951. A emergente arte televisiva exige que Mazzaropi utilize a linguagem corporal do teatro nas apresentações. Um torcicolo que teve acabou por exigir que ele andasse “meio torto” e assim nasceu o jeito de andar do jeca que interpretava, e que seria sua marca registrada.
No mesmo ano entra em cena a Vera Cruz, companhia de cinema que rapidamente o contrata. Estreia no filme Sai da Frente (1952), dirigido por Abílio Pereira de Almeida. O sucesso é imenso. Ganha em seguida papel em duas produções seguidas: Nadando em Dinheiro (1952) e Candinho (1953). Neste último, o personagem tem a ver com a vida do ator: Candinho é expulso da fazenda onde mora, e vai para a cidade, vive situações difíceis e deslumbramento com os arranha-céus e o trânsito. O caipira conquista de vez o público nacional, pela identificação imediata que provocava em milhões de pessoas que passaram pela mesma situação, migrando dos rincões rurais para zonas urbanas nos quatro cantos do Brasil. Especialmente São Paulo.
Mazzaropi nunca acreditou na televisão, para ele a tevê “matava o humorista”, pela repetição de repertório frenética, que exigia novas gags a cada semana. Abandona o meio televisivo em 1954.
Em 1958 inaugura sua própria produtora de cinema, a PAM Filmes — Produções Amácio Mazzaropi, em Taubaté. O cenário perfeito para a transposição do universo caipira para o cinema, entendia Mazzaropi. Ele não estava errado. Era muito mais fácil adaptar sua fazenda (sim, ele já era fazendeiro à época) em estúdio que um estúdio em ambiente rural.
Caminho traçado por dez entre dez grandes self-made-men do cinema (Chaplin, Disney…) Mazzaropi começa a assinar a direção, produção, roteiro, e até a música nas canções de alguns filmes. Consegue apoio financeiro com distribuidores e exibidores em salas de cinema por todo país. Estava feito. Uma verdadeira fábrica de ganhar dinheiro. Seu primeiro filme na PAM Filmes é Chofer da Praça (1959). Logo em seguida, também em 1959, produz Jeca Tatu, inspirado em Monteiro Lobato. Neste filme, imortaliza de vez o caipira que vinha amadurecendo há décadas.
Linguajar, preguiça, e aquele jeito de andar, aliado a piadas que Mazzaropi colhia do cotidiano popular que observava como poucos, aliado à já citada identificação do caipira que eram dois a cada três brasileiros daquela época, são os segredos que contribuem para seu sucesso no cinema.
Mazzaropi conta 31 filmes ao longo dos 50 anos de carreira. Sua arrecadação nunca foi de menos de 3 milhões de espectadores por filme. Para efeito de comparação: já nos anos 1980/90 Xuxa e Renato Aragão, os arrasta-quarteirões do período, faziam coisa de 2,5 milhões em suas melhores marcas.
Foi o homem que mais ganhou dinheiro com cinema no Brasil. Acumulava impressionantes 30 milhões de dólares em uma fortuna que não teve muitos herdeiros. Cinco filhos adotivos, dos quais pouco se sabe. Mazzaropi era homossexual. Nunca escondeu de ninguém. Levou 200 milhões de pessoas aos cinemas. Viveu solitário até o fim.
Amácio Mazzaropi estava internado havia 25 dias no hospital Albert Einstein em São Paulo, em julho de 1981, vítima de um câncer na medula óssea, quando veio a falecer. Contava 69 anos.
Em Taubaté, um museu levantado em sua fazenda guarda a memória do artista.
…
Ouça. Leia. Assista:
Mazzaropi – Uma Antologia de Risos, de Paulo Duarte – PDF
Mazzaropi – documentário, de Celso Sabadin
O Jeca Macumbeiro – dir. Ampácio Mazzaropi/Pio Zamuner, 1974
…
Imagens: reprodução