Eu não sabia falar de dor. Nem de amor, tão pouco de alegria. Nossa neurose fala mau e fala mal, mas sentimentos pedem relação cultivada com as palavras. É preciso palavras que saibam dizer.
Até os meus vinte e poucos anos essa habilidade eu tinha apenas parcialmente, por isso a literatura me salvava. A palavra fez a minha vida habitada e habitável. Conseguia cultivar um jardim de relações, fazia espaço para um sujeito no mundo.
Mas nem só da palavra vive a psique. Acompanhada da literatura veio o cinema, a fotografia, o teatro, a música, a pintura, enfim a arte deixando a vida querer ser como a vida quer. Ganhei um repertório maior de dizeres e já desenvolvia um gosto especial por palavras-imagens. Já não podia ser o personagem Fabiano em Vidas Secas, de Graciliano Ramos, que engolia a indignação calado pela falta de saber dizer sobre a própria miséria. Arte me deu repertório.
Estou me referindo aos anos 90, antes da invenção dos memes de internet. As imagens eram estáticas, disponíveis nas bancas de revistas. Mesmo assim, podíamos expandir nossa realidade por gibis e revistas. Sobretudo se você morava numa cidade do interior, passando horas olhando vacas pela janela e sonhando em viajar de avião.
Se pensarmos a palavra como vetor da linguagem que organiza o inconsciente, podemos pensar a arte como conjunto de vetores polimórficos com capacidade cognoscitiva. Criamos e consumimos arte porque somente as vacas da vida não bastam.
Lembro quando mais tarde assisti as cinco horas da peça Os Sete Afluentes do Rio Ota, de Robert Lepage, saí do teatro conectado com algo próprio, mas com profundidade não usual. Como na cena com a personagem Hanako, cega pela bomba de Hiroshima, quando ela se depara com as dores do passado e corta o cabelo, cortando também os fios que a levavam ao passado.
Eu não tinha nem trinta anos e já sentia o peso do tempo. As amarras da nossa história que fazem e desfazem o presente. A ousadia de abandonar demandas sociais e de reconhecer enlaces mais originais, verdadeiros. De ver que em mim mesmo coexistia um cara que odiava tudo que significava ser do interior, mas que também admirava a beleza do pacato, do simples, do familiar. Quais dessas características eu deveria incentivar e quais eu deveria cortar?
Isso foi há quinze anos, mas não fui o mesmo depois daquela peça. Encontrei nela palavras e imagens, não só isso, inspirações para atuar o drama da vida. Naquele momento eu era Hanako, tendo clareza da teia de acontecimentos na cronologia da obra da existência.
A arte sempre me pareceu visceral, isto é, ela precisa usar da estética para atravessar o medo. Não à toa a origem da palavra catarse está no teatro. Ao encenarmos nossos afetos temos um gestalt da situação, vemos conexões despercebidas e assim desfazer a unidade dramatúrgica na qual estamos fixados.
Hoje o interesse pela profundidade parece esquecido entre áudios acelerados, vídeos de quinze segundos. Outro dia fui ao cinema e notei que ninguém conseguiu ficar duas horas sem olhar o celular de vez em quando. É tempo da pressa e a memória pertence à lentidão. Talvez por isso criamos uma nova forma de arte: o meme de internet, que possui imagem e texto carregado de referências culturais, apontando para a profundidade, sem aprofundar.
Hoje estou precisando de calma urgente. Voltar a sentir a calma parada de interior para assuntos atuais, como a fobia de avião que desenvolvi este ano.
Análoga à construção de relações aprofundadas com a arte está o aprofundamento na própria subjetividade. Requer tempo, espaço, respiro e o comparecer à própria vida. Ninguém quer aprofundar, isso demora, dói, é desconfortável e se vende mais antidepressivos agora que na pandemia.
Não há mais tempo para palavras profundas. Agora o remédio está dizendo sobre nós. E fala mal.