ATRAVESSANDO O ISOLAMENTO COM O CORPO E A ALMA!


Nesses tempos de isolamento e distanciamento social parece que estamos vivendo numa espécie de cativeiro! Fomos sequestrados de nossas vidas e se não pagarmos o resgate não a teremos de volta. Sabemos que o preço tem sido caro, mas parece que estamos dispostos a fazer o sacrifício. Nesse sentido, o que temos sacrificado? Nossa liberdade!

É por isso que pululam discussões sobre como nos manter menos neuróticos diante desse desafio nas redes sociais, nos chats, nos aplicativos e nas famosas lives que hoje são uma forma de nos manter ALIVES!! No entanto, chama a atenção que, de modo geral, aqueles que operam pela via psi, privilegiam a saúde mental e, os trabalhadores de corpos, incentivam a manutenção da rotina de exercícios e treinos de acordo com as possibilidades de cada atleta. Discursos que realçam a velha e surrada divisão entre corpo e mente. Se trabalhar o corpo isso ajuda a mente a se refrescar!

Na condição de psicanalista há uns 30 anos e triatleta há 7 meses constato o que a primeira condição me ensinou, mas que somente com a segunda eu aprendi: quando falo em saúde mental eu estou falando em saúde física e vice versa, versa vice… Ou seja, o corpo é parte do nosso psiquismo, nele estão inscritas nossas experiências, nossas marcas, nossa memória. É nossa identidade, é de onde emana nossa energia, é de onde se manifesta nosso inconsciente. Como disse Reich, criador da terapia corporal que se baseia em muitos preceitos psicanalíticos, ‘o corpo é o inconsciente visível’. A cabeça pensa e o corpo pulsa, num compasso ou descompasso de acordo com o ritmo que a vida toca.

A experiência como triatleta – que ainda é bem pequena- já me rendeu porém uma lição valiosa: de que o corpo é a nossa sala de aula particular se soubermos escutar o que ele nos ensina. Muitas vezes, passamos anos sem querer saber o que ele tem a nos dizer e às vezes o único modo de se fazer ouvir é adoecendo, é criando sintomas. Mais do que uma vitrine narcísica, nossa carcaça corporal é o lugar de onde também pulsa nosso movimento pela vida. E é disso que devemos cuidar. Sim, o corpo envelhece, enferruja, adoece, mas, o desejo não! A beleza pode estar na estética das curvas bem delineadas dos músculos, mas está muito mais na ética de uma posição de cuidado (‘cura sui’ como diziam os gregos) consigo mesmo. Por outro lado, a psicanálise – e minha própria análise – me ensinaram que é fundamental compreender a relação que todo sujeito tem com seu corpo. Um lembrete: só temos um corpo que vai nos acompanhar até o fim – da vida ou da quarentena!!E ter um corpo é poder fazer alguma coisa COM ele. 

Quando entrei no triatlon, meu coach me disse: ‘o primeiro passo pra correr bem é aprender a saltar’. Num período muito difícil da vida minha analista me disse: ‘diante do precipício ou você cai ou você salta’. Onde aprendi a saltar?

Estamos diante de um precipício chamado coronavírus, recessão, desemprego, desalento, solidão, preguiça, depressividade, ou como cada um nomeia esse vão que se abriu entre nós e a vida lá fora. Estamos então diante dessa decisão: ou o corpo-sujeito cai ou o sujeito-corpo salta. Quanto à mim, sobreviver não está nos meus planos nesse tempo, eu quero mesmo é atravessar, de preferência saltando!

Rosa Mariotto, psicanalista, doutora em psicologia pela USP, triatleta amadora.

Fera’s Team – Gestão Esportiva