Bicho brabo nas brenha


Em meio ao breu da noite amazônica, ele já não distinguia o que era real do que era delírio; o que estava perto do que estava muito perto.

No terceiro dia em Manaus, arrisquei entrar numa agência de turismo, contou meu amigo, que estranhou nunca ter me falado ainda sobre sua viagem à Amazônia, acontecida há mais de 20 anos. Não era bem uma agência, ele continuou contando, era uma portinha. Eu já tinha descartado conhecer um hotel de selva. Aquilo era coisa para quem ganha em dólar. Mas vai que… A atendente abriu um folheto do que jurava ser o hotel de selva mais barato do Amazonas. O pacote era o básico, chegar lá na tarde daquele mesmo dia e voltar cedo no seguinte, só pra matar a curiosidade de dormir no meio da floresta. Se não fiquei cabreiro? Claro que fiquei, mas era aquilo ou nada, disse meu amigo. Passei na pensão pegar uma muda de roupa e corri para o porto, 100 metros rio abaixo da rampa flutuante. Daquele terminal secundário é que saíam os barcos menores. Não deu 15 minutos e chegou a voadeira com quatro cadeirinhas de plástico, uma lona cobrindo o teto e um lugar na frente com o piloto, que era um índio. De roupa normal, relógio no pulso e tudo, mas índio. Embarquei com mais três mochileiros belgas, que falavam algo que parecia francês. E o índio? Falava português? Tupi? Sateré-mawé? Falava inglês, o filho da puta. Como é que eu ia saber que precisava falar inglês pra visitar o Brasil? Se entendi 10% do que eles disseram foi muito.

Ei Neném! São rãs e sapos no quintal vazio

Ei Neném! São chuvas finas na beira do rio

Um bicho brabo nas brenha pras bandas lá da Mucajá

Neném, a ginga das égua na noite preta

Tum Tá Tá

“Você precisa ouvir o boi, rapaz”, elas disseram. Que boi?, meu amigo falava agora de um papo que teve com duas moças que se juntaram a ele num bar de Manaus. Uma coisa que só existe aqui, a moça respondeu. E se a gente pedir pra banda ali tocar esse boi? Não tocam. Elas explicaram que tinha sido proibido tocar música do boi nos bares da cidade, porque os manguaceiros saem quebrando tudo. Porra, o único som que eu conheço que apavora assim é o punk, meu amigo disse pra elas. Não, o boi não tem nada a ver com nada que você conhece, elas disseram. Música do boi é música do boi, você vai ter que procurar e ouvir. E nisso passou um sujeito pela nossa mesa, meu amigo contou. Meio careca na testa, cabelão atrás, bolsa de couro a tiracolo, o tipo riponga. – Nilson Chaves!, elas chamaram e o cara veio todo gente boa. Era um cantor paraense super famoso na Amazônia toda, meu amigo contou. Eu que compro tudo que é disco nesses sebos, nunca tinha ouvido falar dele. Elas contaram que era minha primeira vez na Amazônia, ele aí tirou da bolsa um CD e me deu. É música de boi?, eu perguntei. Uma delas espirrou cerveja em mim, de tanto que gargalhou. Agradeci o presente e disse que só ia conseguir ouvir quando voltasse pra São Paulo. Mas o tal boi eu ouvi lá mesmo, e foi no dia seguinte.

Wandiê ê ê á á… / Wandiê ê ê carajá

Ciê, Ciê, Ciê… / Kã-werá…

Kananciuê, tatauapã / Numiá, arapiá, numiá

Sob a luz do luar ê ê ê…

Depois de uma hora e tanto subindo o rio Negro num pau danado, entramos num igarapé à direita. Aí foi que nos embrenhamos pra valer na mata fechada, agora deslizando bem maneiro. Cara, pensa num negócio bonito e assustador ao mesmo tempo, meu amigo contou. Até meio claustrofóbico. Paramos num ponto onde o barranco era mais baixo, o índio deixou a voadeira amarrada num toco de madeira e foi subindo o barranco na frente. Logo se abriu um pedaço de descampado no meio da mata. Dava para ver o céu de novo. Contei seis cabanas de madeira montadas em cima de uns palanques. No outro canto, ao rés do chão, uma choupana com cobertura de sapé fazia as vezes de cozinha do lugar, meu amigo continuou contando. Aí, o índio falou alguma coisa enquanto olhava para as cabanas. O que consegui entender foi que fodeu. Tinha chovido pra caralho na noite anterior e o telhado das cabanas não deu conta, os colchões encharcaram. Resumindo, eu e os belgas íamos dormir em redes estendidas dentro da cozinha – que como eu disse não tinha dentro.

O índio levantou o pano sobre a mesa e fomos apresentados ao nosso jantar, meu amigo contou. Era um lanche. Algumas frutas que eu nunca tinha visto, pacotes de bolacha, torta salgada, pão de forma, até bolo daqueles de rodoviária tinha. A noite caiu rápido, achei que íamos ficar por ali, mas depois que comemos o índio nos conduziu até um bote, saímos para focar jacaré. Ele ia empurrando o barco lentamente com um remo no fundo do igarapé, depois circundava as imediações com o foco de uma lanterna. Não demorou muito, vimos dois pontos de luz boiando na água. Com muito cuidado, o índio chegou com o barco mais perto e zapt!, enfiou a mão na água e trouxe para dentro do barco um jacaré pelo cangote. Depois de todos passarem a mão no couro do bicho e dos belgas tirarem fotos, o índio devolveu o jacaré para a água, e ele saiu rabeando no breu. Já de volta para o hotel caprichei no meu melhor inglês: drink? to drink? O índio deixou comigo uma garrafa de pinga curtida com folhas e raízes. Depois de tomar uns tragos, escolhi uma rede e subi. O índio desapareceu, os belgas acho que desmaiaram. Eu também dormi, mas foi só uma piscada mais longa de olhos. Acordei ainda escuro para viver a noite mais estranha da minha vida.

E é tanto terço no roxo do frio

Tum Tá Tá! São sete embalos na rede navio

Um tiro longe que fere pras bandas lá da Mucajá

Neném, teus filhos no mundo na noite preta

Tum Tá Tá

Meu amigo contou que sua salvação em Manaus foram as casas de guaraná. No centro, tem duas ou três por quarteirão, cara. Eles batem guaraná em pó e xarope de guaraná com tudo que é fruta, castanha, erva… até com ovo de codorna, ele continuou contando. Eu pedia sempre com limão ou abacaxi. Só com muito guaraná na veia pra conseguir andar pela cidade naquele calor dos infernos. Pois foi numa dessas andanças que me peguei paralisado por uma música que começou de repente do meu lado direito, vinda de dentro de uma loja de discos. O que ouvi primeiro foi um naipe de flautas andinas, logo calçado por um charango bem característico desse tipo de música. Um som andino rolando em pleno centro de Manaus, só faz sentido se a gente pensar que o rio Solimões, que ali se junta com o Negro e passa se chamar rio Amazonas, nasce lá na cordilheira dos Andes, no Peru, meu amigo me contou. Mas não era isso. Logo entrou um cantor jogando no ar umas palavras indígenas e um coro que as repetia. Depois começou uma batida bem marcada, uma levada primitiva, que logo embalou e virou um negócio festivo. Lembrei daqueles documentários sobre o Quarup, ele disse. Entrei na loja pra saber que som era aquele. Era o tal do boi, cara.

Nas terras de berocã / Canaã, canaã

Às margens do rio Araguaia / Aruanã…

Inansô-werá ê ê ê… / E se fez a luz

No sopro da vida / Ciê… Ciá, carajá

Não sei se por febre ou se delirei a frio, mas acordei ainda no breu da noite em meio a uma algaravia absurda de bichos, me contou meu amigo. Era uma babel de tudo que é bicho que você nem imagina. Tinha grito que parecia de bicho ave, barulho de bicho aquático, guizos de cascavel, coaxares, uivos e rugidos, cara. Rugidos assustadores do que devia ser uma, duas, sei lá quantas onças espreitando ali. Minha rede parecia girar, ou era o mundo. Eu me sentia molhado de suor e queria sair dali, mas e coragem? Gritei por socorro, mas cadê o índio? Cadê os belgas?? Até que em algum momento dessa pira eu devo ter desmaiado de febre ou de medo. Já na luz da manhã fui acordado por uma turbulência na minha rede, cara, contou meu amigo. Abri o olho e dei de cara com um macaco-aranha. Um baita de um macaco-aranha com os dentões arreganhados, pendurado com as pernas na choupana e chacoalhando a corda da minha rede com a mão, contou meu amigo. Os belgas e o índio se mijando de rir, acredita? E o mais louco é que eu me sentia bem. Parecia que eu tinha dormido feito um anjo a noite toda. Mas chegando em Manaus, depois de comer e tomar uma cerveja o cansaço baixou e eu dormi a tarde toda. À noite me enfiei num bar ali perto. Duas garotas na mesa do lado sacaram que eu não era dali e se juntaram na minha mesa. Contei o que aconteceu, crente que elas não iam acreditar, mas elas acreditaram e disseram que o Amazonas é assim mesmo. O que acontece aqui, só acontece aqui. O que existe aqui, só existe aqui. Por exemplo, você já ouviu o boi?, uma delas perguntou. Você precisa ouvir o boi, rapaz.

OUÇA

Nilson Chaves e Vital Lima, ambos artistas paraenses, cantam “Tum tá tá”, do compositor acreano Walter Freitas. Nessa canção, o autor narra a perda de seu irmão, que morreu com o disparo acidental de uma arma com a qual brincava no quintal de casa. Em novembro último, Nilson Chaves foi internado com covid-19, tendo ficado 14 dias na UTI. Desde o dia 2 de dezembro o cantor se recupera em sua casa. Artistas como Ceumar, Zeca Baleiro, Fafá de Belém, Paulinho Moska, Chico Cesar, entre outros, têm participado de lives solidárias para arrecadar dinheiro para as despesas do tratamento do cantor.

Arlindo Júnior canta “Kananciuê”, toada que foi tema do desfile do Boi Caprichoso no Festival de Bumba Meu Boi de Parintins em 1995. Segundo seu compositor, Ronaldo Barbosa, indigenista e ex-funcionário da Funai, essa música narra a luta entre a luz e a escuridão, da qual nasceu Kananciuê, o criador do povo carajá. O cantor manauense Arlindo Pedro da Silva Junior, um dos maiores nomes da história do Festival de Parintins, morreu em dezembro de 2019, aos 51 anos de idade, vítima de câncer.

IMAGENS

Foto em destaque: Vane Barini.

Foto do igarapé: Projeto Igarapés Amazônia/divulgação.

Foto de Arlindo Junior se apresentando entre os bois Garantido e Caprichoso: arquivo do portal Em Tempo.

Foto de Nilson Chaves e demais fotos são de divulgação.