Músico e produtor tem história significativa tanto na música argentina quanto brasileira. Sua obra é vasta e de influência determinante
O jovem Giuliano Canterini — nascido na Itália em 1944 e naturalizado argentino desde a infância — costumava frequentar uma casa de jazz na avenida Pueyrredón 1723, em Barrio Norte, Buenos Aires. Em 1967 propôs ao proprietário, um homem turrão que atendia apelo nome de Bravo, que o clube mudasse o estilo musical de suas atrações. A casa atendia pelo nome de La Cueva, e já era uma espécie de reduto beatnik em Buenos Aires. Assim, Canterini tornou-se coproprietário e ajudou a criar no local a primeira geração do rock argentino. O chamado Rock Nacional, ou simplesmente “el Nacional”. O rock argentino cantado em língua espanhola.
Canterini já era músico e adotara o nome artístico que o eternizaria: Billy Bond. E o apelido “el Rebelde”. Por essa época já havia tocado com Sandy e Los de Fuego. Bond era a vocalista do grupo e imitava Elvis Presley. Então ele formou, junto com Willy Verdaguer (toda vez que você ouvir aqueles baixos geniais do Secos & Molhados, lembre desse nome) o grupo The Bobby Cats. Mais tarde, ele se juntou a Los Guantes Negros, com Ricardo Lew e novamente Willy Verdaguer. Eram expoentes de uma espécie de “jovem guarda” portenha. Como no fenômeno brasileiro, os novos “roqueiros” se apresentavam em programas de tevê, gravavam compactos e animavam bailes pela periferia da cidade. Por esta época, já estavam todos iluminados pelos Beatles — da fase pós Revolver, de LSD, psicodelia e abertura de consciência. Não tardou a Billy Bond abandonar o visual rockabilly e deixar o cabelo crescer. Lançou assim seu primeiro álbum solo Yo, Billy Bond, em 1968.
Em 1970 monta a icônica Billy Bond y La Pesada del Rock and Roll. Alguns quilos mais pesado, no visual e no som, que inaugura o hard rock em terras platinas. Fazia as vezes de vocalista gordinho, à moda do Canned Heat. A banda marcou o novo rock argentino. Por La Pesada passaram nomes como Pappo, Luiz Alberto Spinetta, Javier Martinez, David Lebón e Alejandro Medina, para citar alguns. Todos nomes fundamentais na história do rock nacional de todos os tempos.
As coisas mudavam rapidamente, acompanhando a partir daí a evolução musical do mundo, de peso e temática mais inspirada. A barra, paradoxalmente, também pesava. Billy Bond teve inúmeras músicas censuradas. Mas a banda lotava seus shows.
O termo “Rompam Todo” (quebrem tudo!) que dá nome à série documental que a Netflix exibe atualmente sobre a história do rock na América Latina, foi proferido pela primeira vez por Billy Bond, para a multidão que lotava o estádio Luna Park, em 1972, reprimida pela polícia, durante apresentação do La Pesada.
Após participar do surgimento do primeiro disco do Sui Generis em 1972 (a banda ensaiou e gravou no estúdio do La Pesada), trabalho seminal de Nito Mestre e o gênio Charly Garcia, maior nome d’el nacional em todos os tempos, a iminente ditadura apertou.
Billy Bond providencialmente buscou exílio e trabalho no Brasil, fixando-se em São Paulo. Atendeu convite de Ney Matogrosso e produziu seu primeiro álbum, Água do Céu-Pássaro (1975), que lança o cantor recém-saído dos Secos & Molhados. Começava então uma trajetória que marcaria o rock brasileiro e os rumos da produção musical no Brasil.
Trabalhando como produtor de estúdio e conquistando bom trânsito no meio da indústria fonográfica, Bond ingressa naquela que seria a formação mais marcante do emblemático grupo Joelho de Porco. Foi o momento mais significativo da banda, que marcou época com seus terninhos smoking e o vocalista gordinho com sotaque esquisito. Os versos de Trombadinha (andando nas ruas do centro / cruzando o viaduto do chá / eis que me vejo cercado / trombadinhas querendo / me assaltar) ganham certo sucesso no disco homônimo (Joelho de Porco, 1978) lançado pela Som Livre.
O grupo percorre programas de tevê em performances irreverentes e repletas de alguma bagunça. É famoso o episódio no qual o vocalista derruba seu amigo Chacrinha no chão, tomando sua buzina, tocando para o apresentador. Billy Bond era amigo do povo da tevê, o “velho guerreiro” incluso, e isso seria determinante para o que o futuro lhe reservava.
A produção era intensa, como uma máquina incessante. Em 1979 Billy Bond sai do Joelho de Porco e lança seu primeiro disco solo em território brasileiro: O Herói, 1979. Totalmente autoral. Monta ainda diversos grupos e projetos na década seguinte. Mas marcaria a produção musical ao trazer o grupo Queen para o país, em 1981, no estádio do Morumbi. Algo absolutamente inusitado até então. Traria ainda o Van Halen, em show histórico no Ibirapuera. “El Rebelde” ingressara definitivamente no mundo do showbizz, desta feita na condição de patrão. De Alanis Morissette a Red Hot Chilli Peppers, sua carteira de shows é coisa de gente grande.
Trabalhou em tevê e produziu muitos programas. Entrava no ar às 17h e saía as 22h, em algumas épocas. Muita coisa que você assistiu nas tardes da Record e Bandeirantes tinha as mãos de um dos reis do rock argentino por trás. É considerado o precursor do videoclipe no Brasil, com seu programa BB Vídeo Clip, na Record em 1982. Uma nova forma de divulgação musical, até então restrita única e exclusivamente a discos de vinil, rádio e shows.
E não é tudo. Desde 2003 — impressionantemente magro para quem o conheceu pelo Joelho de Porco ou La Pesada — Bond empreende homenagear clássicos de todos os tempos da Literatura Infantil, produzindo e dirigindo musicais. Pinóquio – o Musical, estreou em 2006 e foi aplaudido por 900 mil pessoas no Brasil. Em seguida, foram apresentadas as montagens de A Bela e a Fera, Peter Pan, Branca de Neve, A Bela Adormecida e Alice no País das Maravilhas. Sua primeira montagem, O Mágico de Oz, foi prestigiada por um público superior a 1 milhão e 800 mil espectadores na América Latina.
Billy Bond hoje conta 77 anos, gravou 14 discos e produziu outros tantos incontáveis. Deve estar aprontando mais alguma. El Rebelde nunca parou.
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Imagens: reprodução
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Ouça. Leia Assista:
Hasta que se Ponga el Sol (1973) – filme sobre o B.A.Rock, realizado em 1972 no Luna Park, Buenos Aires)
Argentina Beat – Crónicas del Primer Rock Argentino (2005)
Rompam Todo – A história do Rock na América Latina (2020)
Meu Tio e o Joelho de Porco (2018)
Billy Bond – Derrubando Fronteiras nos anos 70 (portal Senhor F)