Havia um menino e um velho, miúdo e seu avô. Miúdo era assim miúdo mesmo, franzino que vento podia levar longe. Mas miúdo era também miúdo porque de miúdo era como o avô chamava todos os meninos à sua volta.
Miúdo era feito qualquer criança. Criança da época em que criança saía a brincar cedo à rua, para só voltar por obra de um machucado mais feio, por ordem de comer ou banhar-se, ou levar uns cascudos por algum malfeito – como esquecer sob a pia da cozinha, marinando em sal e vinagre, uns preás caçados no matagal.
Miúdo pousou muito pouco os olhos sobre os de seu avô nessa vida. Não teve tempo. Também o avô não parava para ser olhado. Vivia de um lado para o outro, um pano amarrado à cabeça que lhe ocultava os cabelos, atendendo na venda, conduzindo o caminhão, consertando coisa pifada, tossindo mais do que respirando, fazendo feijoada para os domingos de toda a gente. E nisso o tempo de olharem-se os dois escasseou.
Por trás da pedra dura, pedra negra
Para além destas encostas
Um homem quando nasce é como a pedra
E o marão volta-lhe as costas
Ai como é duro este centeio
Com as altas montanhas pelo meio
E um homem que é um pássaro sem lar
Poderá por não ter chão, saltar
A venda de secos e molhados do avô era desses lugares que já nascem antigos na memória da gente, que nem nascem os avós. Madeirame corroído por cupins, teias no teto, paredes manchadas de umidade, ratoeiras armadas pelos cantos, portas de enrolar que pesavam uma vida.
Mulheres e seus lenços subiam ali dois degraus para comprar a granel o azeite, o feijão, a banha, a quirera, a água sanitária, meio quilo de fiambre, gomos de algum enchido, castanhas, velas e vinho.
Por detrás das mãos rugosas e da mágoa
Para aquém desta grandeza
Os homens transmontanos choram água
Pelos olhos da tristeza
Pois quando um homem chora à portuguesa
A raiva é maior do que a pobreza
E um homem que é um pássaro com lar
Poderá, tendo mulher, saltar
Mais do que tudo que havia na venda, o que miúdo gostava mesmo era de verter dentro de um copo com leite gelado o grosso xarope de groselha. E de comer bacalhau cru. Vinha lá de trás da casa contígua, rompia a cortina que separava o comércio das brigas da família, puxava a maçaneta de ferro do frigorífico, bebia num só ar o leite roseado, depois ia ao canto esquerdo onde, com a lâmina da faca sempre sobre a madeira, calculava um naco do peixe salgado, para só então ganhar a rua e vencer aos pulos o passeio de pedras paralelas, deixando às costas a casa e o rio, os velhos e a venda, o bar onde homens iam aos copos e a capela onde mulheres iam às missas.
Era assim que miúdo, que não era de comer bife, se nutria de proteína: sugando o sal ibérico das lascas de bacalhau, como um garoto do interior que chupasse bagaços de cana.
O avô do miúdo gostava daquilo. Na realidade, miúdo não sabia se o avô gostava daquilo ou se só deixava acontecer. A bem da verdade, miúdo não sabia quase nada. Não sabia que o avô nem era velho. Não sabia que o pano que escondia os cabelos do avô não era pano coisa nenhuma, mas sim uma careca lustrosa. Não sabia que o avô iria embora muito cedo, muito antes do miúdo saber o que é câncer. Não sabia que o avô também havia sido miúdo, porém em terras transmontanas, a província mais isolada de Portugal. Não sabia que o velho avô veio de lá ainda novo e de navio. Não sabia que antes da venda e de ser avô, ele transportava areia de Mogi das Cruzes para São Paulo, e chegava em casa todo santo dia sangrando do lado de fora do peito, tanto que o batelão encalhava nos baixios do Tietê. Miúdo não sabia muita coisa. Nem que o avô terminaria sangrando fumaça.
Por detrás da pedra negra, anda tanta, tanta fome
Que um homem quando emigra, esquece até o próprio nome
Hoje miúdo é quase tão velho quanto seu avô. E toda vez que leva uma lasca crua de bacalhau à boca sente um pouco o gosto de quando corria de dentro daquela casa para o lado de fora do mundo. E lembra de quando observava o avô pegar o funil de metal, encaixá-lo no gargalo da garrafa da freguesa e baixar devagarinho a bomba do tambor de azeite, até fazer um litro. E de quando embrulhava caramelos em papeis em que se lia sabor limão, abacaxi ou coco, mas que eram todos feitos do mesmo açúcar branco caramelizado ao fogo no quintal da avó.
Pois miúdo só agora se deu conta de que foi por esses caramelos que conheceu a literatura de ficção.
OUÇA
Carlos do Carmo canta aqui o “Fado Transmontano”, de Carlos Paulo e Ary dos Santos. Carlos do Carmo, que foi um dos cantores mais importantes de Portugal, primeiro artista português a receber um Grammy Latino, morreu sexta-feira passada, primeiro dia de 2021, aos 81 anos de idade. Ary dos Santos, autor da letra deste fado, foi um dos letristas mais prolíficos de Portugal, tendo escrito cerca de 600 canções. Era famoso também por beber muito gim, e por isso acabou morrendo de cirrose em 1984, com apenas 46 anos.
Lina Rodrigues canta “A Mulher que já foi tua”, de Carlos Conde e José António Augusto Silva. Lina (ou Carolina) é nascida em Hamburgo, na Alemanha, filha de pais transmontanos. Quando tinha apenas 5 meses, sua família regressou a Portugal, para Aveleda, na região de Trás-os-Montes, onde ela viveu até os 10 anos de idade. Lina tem ganhado cada vez mais projeção no cenário atual da música portuguesa, considerada por alguns críticos “uma cantora nova com timbre antigo”. Em um comentário que li, um português descreve que o canto de Lina “vem carregado de todo o sentimento do povo transmontano”.
IMAGENS
- Cena da região de Trás-os-Montes entre as décadas de 1950/60. Foto de Artur Pastor.
- Foto sem crédito retirada do blog Restos de Colecção, de José Leite.
- Batelão no rio Tietê, embarcação que servia para transportar areia para a construção civil, e que era conduzida geralmente por barqueiros de origem italiana e portuguesa. Foto do Acervo da Prefeitura do Município de São Paulo.