Coachella. Música e arte no deserto da Califórnia


Festival pauta a tendência dos festivais mundo afora há 23 anos. Eletrônica e dance music sempre estiveram em evidência na programação

Todos os anos, a temporada de festivais é pautada por um festival bastante distinto. O Coachella Valley Music and Arts Festival, além de “inaugurar” o verão no hemisfério norte como que dando boas-vindas ao sol dourado do sul da Califórnia, entrega também os critérios e vertentes que serão efetivas ao redor do mundo no ano que segue.

O principal festival de música da costa oeste norte-americana foi iniciado em 1999 pela Goldenvoice, a mesma empresa de entretenimento que o administra até hoje.

O primeiro festival pulou um ano em 2000. Aconteceu porque o evento não foi lucrativo em 1999. Com uma política de ingressos extremamente baratos em comparação com outros festivais do mundo, no começo os tickets eram vendidos em um dia por apenas US$50 no primeiro ano, a lucratividade de fato não era o forte. Tudo bem, hoje custa US$400 para um passe de três dias.

O primeiro ano contou com Rage Against the Machine e Beck como atrações principais. A quantidade de shows famosos que os organizadores pretendiam foi o principal motivo para eles não conseguirem colocar o festival em pé no ano de 2000. Os custos eram altos para as pretensões de então.

Tradicionalmente, o Coachella apresenta artistas que não estão no hype, nem contam com muita mídia. Artistas indie em ascensão ou que mantenham sua integridade musical sempre foram o prato principal de um cardápio que hoje é bastante vasto.

Em contrapartida, quase todas as bandas e artistas que se apresentaram no Coachella desde 1999 reputam o festival como um dos momentos-chave e sempre um destaque em suas carreiras. O festival também é bastante respeitado por ter a grande maioria de seus artistas pertencentes ao gênero de música eletrônica. Hoje os lineups incluem principalmente as categorias de dance music — vide as brasileiras Anitta e Pablo Vittar constando da lista, e apresentando shows com muitos dançarinos no palco.

Os Chemical Brothers tocaram três vezes no Coachella. Estão entre os artistas mais conhecidos do mundo eletrônico. Fat Boy Slim também tocou no segundo festival e novamente em 2014. O Coachella conta com uma base de fãs particularmente fiel, que inclui artistas, público e algumas celebridades. Daí o interesse de personagens em pleno up to date — vide as brasileiras citadas —  em conectar-se ao evento.

O Coachella não nasceu um sucesso. Como referido, o ano em que estreou foi marcado pelo respingo da violência latente no Woodstock 99, que comemorava os vinte anos do famoso festival hippie de 1969. Os tumultos lá, levaram a mídia a atacar a ideia de outro festival no mesmo ano.  Apesar do receio, o Coachella acabou por fornecer o diferencial de conforto e modernidade, mesmo acontecendo em um deserto na fronteira com o México. Sendo um deserto, evidente que não haveria lama. Além do quê, chuva é algo raro na Califórnia. Ponto para o Coachella.

A ideia do Coachella foi concebida pelo promotor do Goldenvoice, Paul Tollett. Ele originalmente reservou o Empire Polo Grounds para um show do Pearl Jam, porque o grupo se recusou a tocar em Los Angeles, onde as sobretaxas da Ticketmaster eram altas. Tollet iniciou então uma busca por lugar.

No sul da Califórnia, há coisa de 150km de San Diego, em uma localidade chamada Coachella, no condado de Riverside, Tollet encontrou o que lhe parecia adequado. O local parecia bom para grandes eventos, mesmo estando bem distante de qualquer grande cidade. Então ele teve a ideia de criar ali um festival diferente de qualquer outro. Pesou bastante a ideia sui generis de uma galera ir ao deserto, longe da afetação urbana.  Não se tratava apenas de uma viagem pela natureza. “Há uma filosofia que o povo leva consigo quando vai embora”, declarou Tollett certa vez.

Há ainda a lenda de que a fonte da juventude está escondida no Coachella Valley. Bem, levando-se em conta a edição de 2022, é possível dizer que a juventude anda muito afim de mexer as cadeiras, como desde Elvis não se via.

É a primeira vez que a música brasileira em seu, digamos, “estado-funk-miami-bass-bunda-de-fora” é apresentado em um festival internacional realmente relevante. As mídias sociais, impressas e eletrônicas estão dando os shows de Pablo Vittar e Anitta como revolucionários, tanto para as carreiras das cantoras, como em estética. Dizem que a favela chegou ao deserto. Não é pouco.

Está tudo certo. Dançar faz bem. Se a objetificação e sexualização da mulher vai ser a tônica da música brasileira doravante, não é possível dizer — e parece bobagem. Além de antigo.

O Brasil é grande como os EUA, e além de um povo mestiço, dimensões continentais e cerveja vagabunda, ambos os países fazem música popular de primeira.

O grande mal é o fascismo. Não o sexo. Deixa o povo rebolar. Faz bem. O Coachella 2022 segue até dia 24 de abril. E o resto é verão na América.

Ouça. Leria. Assista:

Coachella 2022 – Live – channel 1

Coachella 2022 – Live – channel 2

Cobertura Rolling Stone – Coachella 2022

Imagens: reprodução