Ao contrário dos filmes anteriores, diretor britânico com origem no teatro realiza filme de marcante simplicidade na trama e nos diálogos
“Os (sic) Banshees de Inisherin”
(The Baanshees of Inisherin, 2022, Searchlight Pictures)
Direção: Martin McDonagh
Onde ver: Em cartaz nos cinemas
Logo de cara, nos primeiros minutos, o diretor e roteirista Martin McDonagh deixa às claras as suas intenções com Os (sic) Banshees de Inisherin. O filme começa soltando a ponta do fio condutor da trama: Colm não quer mais saber do fiel amigo Pádaic, com quem conviveu 40 anos e frequentou, todo santo dia, a bodega da pequena comunidade de Inisherin, ilhota fictícia na friorenta e longínqua costa da Irlanda, para beber cerveja e jogar conversa fora.
O rompimento da amizade era primordial para Colm dar seguimento à sua vida. Mas dói em Pádaic como se lhe arancassem, uma a uma, as unhas dos dedos. A imagem dessa dor, porém, não significará nada diante das atrocidades que cada um dos velhos amigos irá impor ao outro conforme o agravamento da desavença.
“Os Banshees de Inisherin”, porém, está longe de ser um drama. Relaxem. A vibe é outra!
É aí que reside a genialidade desta pequena e doce obra-prima – mais uma na vida de McDonagh. Ao contrário dos seus tensos filmes anteriores, Os (sic) Banshees de Inisherin é uma comédia – entremeada com uma carga dramática, principalmente nas reviravoltas de roteiro, que nos leva da gargalhada ao choro em questão de segundos. Mas a leveza prevalece na maior parte. O humor é ingênuo e inocente o tempo todo, assim como os humildes moradores da ilhota. Todos são gente como a gente. Ou, melhor, gente do povão.
O trunfo de Os (sic) Banshees de Inisherin está na simplicidade da trama e dos diálogos. Primorosamente simples, na verdade. São piadas e tiradas que qualquer pessoa faria diante do ridículo ou inusitado de uma situação. O diretor chega a abusar da teatralidade realizando jograis entre os atores. Tudo é conduzido e apresentado com humor, ironia e blagues.
Mesmo com o aprofundamento da crise entre Colm e Pádaic e os ataques entre os dois ultrapassando os limites do razoável, o roteiro não deixa de resvalar no cômico. Até os bombardeios da guerra civil irlandesa, uma das mais sangrentas da história moderna da Europa, são motivos de piada.
Aos poucos, porém, como numa maldição que estraga todo o lado bom da vida, a raiva entre os dois cresce e a tragédia anunciada ganha proporções incontroláveis. A partir daí, aquela doce comédia se transforma e mergulha numa espiral descendente de ódio e vingança. Os Banshees de Inisherin é comédia de fino trato, com profunda análise sobre o abismo do fim de uma amizade. Maldição? Eis a questão…
Atuações brilhantes, beleza cênica e “barrigada” no título
Collin Farrel é Pádaic e Brendan Gleeson é Colm. Os dois já trabalharam juntos na estreia de Martin McDonagh no cinema, em 2006, no ótimo In Bruges (Na Mira do Chefe). A sintonia entre os atores é perceptível e Farrell tem o tapete estendido por Glesson (impecável como ex-amigo e agora antagonista) para realizar, talvez, o seu melhor desempenho no cinema até hoje.
É comovente a atuação de Farrell como Pádaic, um sujeito bom que só quer fazer o bem e que todos veem como um abobalhado, um homem de poucos dotes intelectuais mas que, pela generosidade, todos gostam e acolhem. Ao redor de Farrell e Gleesson, um elenco de sustentação coeso e igualmente impecável.
Destaques para a atriz Kerry Condon como Siobhán, a inteligente e dedicada irmã de Pádaic, e Barry Keoghan (mais uma vez, brilhante!) como Dominic, um marginalzinho intruso e debochado que incomoda a todos na comunidade.
O domínio de McDonagh sobre a cinematografia de Os Banshees de Inisherin é absoluta e se traduz na plenitude sobre as direções de arte e de fotografia. Cada fotograma é uma obra pictórica.
As amplas paisagens da inóspita ilha, em especial do por-do-sol, são deslumbrantes, dignas de serem vistas numa telona de sala de cinema e não em streaming. Os takes dos animais domésticos e selvagens são hilários e também compõem o andamento do enredo.
Do mesmo modo, fundamental na trama são os elementos da mitologia celta que nos conduzem (distraídos) a uma maldição. O principal componente mitológico são as “banshees” que, em tradução literal, seriam as “fadas da morte”, que rondam desde sempre o inconsciente coletivo naquela região do planeta.
Daí, é de espantar a gigante “barrigada” (gíria de jornalistas para “notícia falsa”, conhecida atualmente como fakenews) no título em português dado pelos distribuidores do filme no Brasil. Não existem “os” banshees. São figuras exclusivamente femininas e, além de incompreensível, o infeliz título em nada contribui para atrair a atenção para o filme. Em Portugal, foi lançado como Os Espíritos de Inisherin. Sem dúvida, faltou competência aos distribuidores nacionais.
Diretor de teatro cria assinatura no cinema com cinco filmes
Os (sic) Banshees de Inisherin é o quinto filme de Martin McDonagh como diretor e roteirista. Iniciou carreira no cinema em 2006, nada mais, nada menos, com um Oscar de melhor curta metragem para Six Shooter (O Revólver de Seis Tiros). Antes disso, McDonagh já havia consolidado carreira no teatro em Londres e na Broadway. Em 2008, engatou uma indicação à estatueta hollywoodiana de melhor roteiro original com o primeiro longa-metragem, Na Mira do Chefe. Em 2012, emplaca Seven Psychopaths (Sete Psicopatas e um Shih Tzu), um retumbante sucesso de bilheteria e nos meios digitais.
Mas é em 2017 que realiza sua obra-prima cinematográfica Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (Três Anúncios para um Crime), com o qual Frances McDormand e Sam Rockwell levaram todos (to-dos!) os prêmios de melhor atriz e melhor ator coadjuvante, respectivamente, nos maiores festivais da indústria, inlcuindo Oscar, Bafta, Critics’ Choice e Globo de Ouro. O roteiro é considerado um marco e divisor de águas entre os profissionais da área. Agora, em 2022, Martin McDonagh nos presenteia com mais um filme sobre rupturas, inclusive rompendo com o seu passado como diretor e roteirista.