O mundo inteiro torce por suas seleções no esporte mais popular do planeta. Mas só o Brasil promove uma eterna busca por culpados, ao longo de quase um século
Já estamos acostumados. De quatro em quatro anos, após as eventuais derrotas da Seleção Brasileira em uma Copa do Mundo, inicia-se um emaranhado de comentários, crônicas, reportagens, declarações e (em tempos de redes sociais) posts e memes venenosos em tom acusatório, buscando os responsáveis pela derrocada.
A primeira e talvez a mais conhecida delas se deu com um dos maiores e mais vencedores goleiros da história do futebol, Moacyr Barbosa Nascimento. Na final de 1950, o Brasil sediava a copa e recebia o Uruguai. Bastava o empate à seleção da casa, que jogava ante um Maracanã lotado com 205 mil pessoas, e um país inteiro acompanhando o embate pelo rádio. Dada como favas contadas, o Brasil “já era o campeão”. Conforme o roteiro, tudo andava bem, o Brasil abriu o placar com Friaça aos 2 minutos do segundo tempo. Festa. Já ganhou. Não avisaram Juan Schiaffino que empatou a peleja aos 21. Tudo bem. O empate era nosso. Brasil campeão. Até que aos 34 uma bola nas costas do lateral Juvenal encontrou o ponta direita Alcides Ghiggia que avançou por vinte metros em certa diagonal e já dentro da área fuzilou a meta brasileira no canto inferior esquerdo de Barbosa, que foi na bola, mas não alcançou, vendo a redonda passar entre a trave e suas mãos num espaço de 50cm mais ou menos. Silêncio sepulcral no maior estádio do mundo. 2×1 e o Uruguai levou a taça Jules Rimet para Montevidéu. Celeste campeã.
Na manhã seguinte os jornais estampavam a tristeza. E nos comentários-crônicas-reportagens-declarações não dava outra: Barbosa foi o culpado. “Deixou passar”. “Frangueiro”. Sem grandes problemas, mas traumatizado, Barbosa seguiu sua vitoriosa carreira, campeão ainda diversas vezes pelo Vasco e tudo o mais. Ainda fora convocado em 1953. Mas a pecha ficou. Embora tendo sido reconhecida sua “inocência” no fatídico gol por diversas vezes, viveu pobre e quase esquecido, levando a “culpa” pelas décadas seguintes. Morreu aos 79 anos em 2000, exatos 50 anos depois da tragédia do “maracanazzo”.
Naquela mesma tarde fatídica de 16 de julho de 1950, um garoto chamado Edson, de 9 anos de idade, na cidade de Bauru, interior de São Paulo, viu seu pai Dondinho chorando em frente ao rádio e vaticinou: “papai, não fica triste, eu vou ganhar uma copa do mundo pro senhor”. O resto da história todo mundo conhece. O garoto ganhou o apelido de Pelé, e oito anos depois, aos 17 de idade, colocou o mundo a seus pés em Estocolmo, marcando dois gols na final, em uma vitória acachapante do Brasil contra a Suécia por 5×2. Brasil campeão do mundo, enfim. Nelson Rodrigues escreveu que “chegava ao fim a nossa síndrome de vira-latas”.
A façanha se repetiu em 1962, com Garrincha desta feita liderando os canarinhos (a tragédia foi tão traumatizante em 1950 que a partir daquela copa o Brasil que jogava de branco passou a utilizar a camisa amarela, hoje eternizada, daí o apelido).
Em 1966 reinava a beatlemania e o mundial foi justamente na Inglaterra. Optou-se, por teimosia e superstição convocar praticamente os mesmos jogadores que foram vencedores nas duas copas anteriores. E o técnico Vicente Feola (campeão em 1958) retornou ao comando do escrete. Um erro, dado que a maioria já estava em fim de carreira e precárias condições físicas. Não deu outra: o Brasil eliminado na primeira fase, após uma vitória contra a Bulgária (2×0) e duas derrotas humilhantes para Hungria (3×1) e Portugal (3×1).
Culpados em comentários-crônicas-reportagens-declarações: Feola, o presidente da CBD João Havelange, “Pelé já era”, “o juiz”, “Portugal quebrou a perna de Pelé”, “Garrincha cachaceiro”, “Elza Soares (amante de Garrincha) meretriz, culpada pela má jornada e pelo alcoolismo do craque”, e assim por diante. Nenhum comentário-crônica-reportagem-declaração dava conta de que a Hungria e Portugal eram excelentes equipes e que simplesmente venceram porque foram melhores.
Em 1970 a comédia de erros estava prestes a se repetir. O Brasil fez eliminatória impecável e avançava rumo ao tri no México, mas com o técnico João Saldanha meio que “cancelando” Pelé, julgando-o já em fim de carreira, beirando os 30 anos. Vejam só. Uma declaração de Saldanha às vésperas do Mundial ofendeu o ditador Emílio Garrastazu Médici e o “velho comunista” foi trocado por Mário Jorge Lobo Zagallo. Zagallo montou um time moderno, sem pontas e o que se viu foi a melhor seleção da história. Brasil absoluto. Tricampeão. Sem culpados.
Até que em 1974 na Alemanha, Pelé deu adeus à seleção, e o mesmo Zagallo montou um time muito mal reciclado, de campanha irregular e que caiu ante ao carrossel holandês do técnico Rinus Mitchel e do craque Johann Cruyff. 2×0. Um banho de bola. Comentários-crônicas-reportagens-declarações: “Zagallo retranqueiro”; “Zagallo desprezou a Holanda (verdade)”; “Pelé covarde, abandonou a Seleção”. Pelo menos dessa vez, diversos elogios à Laranja Mecânica, que de fato assombrou o mundo, mas — vejam só — perdeu a final em Munique para a Alemanha de Beckenbauer, 2×1.
Daí a burocracia de Claudio Coutinho, “campeão moral” na Argentina em 1978. Eliminados pelo Peru que perdeu de 6×0 para os donos da casa. Sem derrotas. Outros culpados foram encontrados. Nunca foi o futebol medíocre apresentado pelo Brasil. “Era preciso resgatar a alma do futebol habilidoso”, era praticamente um canto em uníssono, fosse da imprensa ou dos botequins fedorentos nos mais distantes rincões tupiniquins.
Em 1982, tá aí o que você queria. Enfim nosso “futebol-arte” (termo cunhado pelo cineasta Pier Paolo Pasolini em referência ao Brasil de 70) estava de volta. Cerezo, Falcão, Zico, Sócrates, Leandro, Júnior, um timaço. Ninguém combinou com Paolo Rossi e a combalida Itália, que em jogo memorável despachou o Brasil pra casa. 3×2, três gols de Rossi. Um trauma para toda uma geração.
Comentários-crônicas-reportagens-declarações deram a “culpa ao inverso”, desta feita: “falta de responsabilidade tática”, “muita festa, pouca marcação”, “faltou se defender”. Enfim, o brasileiro nunca admite que o “outro” pode ter sido melhor, em uma tarde infeliz, nunca, jamais, se reconhece o mérito do adversário.
Deu-se o mesmo em 1986 (Zico e o pênalti, pano pra manga), 1990 (Lazaroni retranqueiro! de novo). Vitória por 0x0 nos pênaltis com a bola nas nuvens de Roberto Baggio e o tetra veio em 1994. Daí na França em 1998 o “pane” de Ronaldo Fenômeno. 3×0 pra França, um timaço de Zinedine Zidane, franco-argelino, e no Brasil, mais culpados: Parreira, tudo o mais. Aqui, teorias da conspiração agora já davam as caras.
2002 tinha tudo pra ser um escândalo. Mas ganhamos. É penta!
De lá pra cá. Mais e melhores/piores culpados ocorreram. Não é preciso enumerar. A arrumada de meia de Roberto Carlos em 2006; a apatia de Dunga e o violento Felipe Melo em 2010; o vexatório 7×1 de 2014; a Bélgica que “engoliu Tite e Neymar” em 2018; e a pequena tragédia croata do Qatar, ainda fresca, mas que já haja culpa pra colocar. A lista de culpados é vasta. Estamos vendo. Deus — que dizem ser brasileiro — também. Nada de elogiar a Croácia, “onde já se viu?”.
Aos fatos: o brasileiro não sabe ganhar. Não sabe perder. Não sabe torcer. E o Brasil não é definitivamente o país do futebol. A maior vergonha do futebol brasileiro não foi o 7×1, tampouco o maracanazzo de 1950. A maior vergonha do futebol brasileiro foi não ter ido ao pódio em Atlanta, nos jogos olímpios de 1996. Deem um google e vejam a diferença entre vexame (que é eventual) e uma verdadeira vergonha, que a exemplo da culpa, é algo que se porta, se tem, se carrega. Muitas vezes para sempre.
O Brasil é o país das culpas, em que pese procurá-la sempre no outro. Diz a piada, a la Homer Simpson: afinal, a culpa é minha e eu a coloco em quem eu quiser.
Nós ganhamos cinco vezes essa coisa. Ninguém ganhou mais.
Chato pra cacete.
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Ouça. Leia. Assista:
Maracanazzo – A História Secreta, de Atilio Garrido
Anatomia do Sarriá, de Piero Trellini
Uma Medalha com Vergonha, crônica de Matinas Suzuki Jr.
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Imagens: reprodução