E foi assim, em modo detonação lenta, enquanto na cabeça o grito urgente de Charles Bradley ecoava a canção de Ozzy: “estou atravessando mudanças”, que aos poucos os dinamites transmutacionais destroçavam as pontes de um passado recente. Os últimos meses foram como esses últimos episódios dessas séries que gostamos de desperdiçar nossos tempos. É hora de recompor os retalhos, juntar os trapos e seguir em frente. A bomba atingiu a casa dos sonhos, o projeto maluco envolvendo artistas de todas as partes havia sido limado, ao menos pelos próximos meses. As crônicas de nácar buscam agora, um novo endereço, quem sabe em algum território menos hostil, onde a palavra democracia ainda signifique alguma coisa. E onde agora só se vê tinta fresca e retidão, é pela via dessa minha memória amiga que saltam as histórias vividas ali. Histórias engraçadas, às vezes trágicas ou românticas, histórias cheias de reviravoltas envolvendo personagens raros oriundos desse submundo ou provavelmente de algum universo paralelo onde os habitantes ainda acreditem na arte como libertação do indivíduo, ainda que esses mesmos seres também façam parte de um sistema sujo e bruto vulgarmente apelidado de capitalismo.
Não ganhamos dinheiro e isso não é nenhuma novidade, mas ganhamos sorrisos, histórias e uma porção de abraços sinceros. Plantamos sementes e cultivamos sonhos, daqueles que não podemos tocar ou muito menos comprar na padaria da esquina. Vivemos da nossa maneira, sem nos importar com opiniões alheias. Criamos algo concreto e que fazia o sangue das nossas veias correr rapidamente. Afinal, a maior adrenalina é aquela proporcionada quando fazemos algo que realmente queremos, ainda que os riscos tentem nos convencer do contrário. Em um mundo bicolor demos nossa pequena grande contribuição. Unimos as cores, deixamos as bandeiras de lado e mostramos que é possível termos harmonia entre indivíduos da mesma espécie, independente de sexo, cor, idade, religião ou aquela opinião política desconfortante. Na arte tudo é possível e o perdão faz parte do pacote. Deixemos os julgamentos para os homens do poder, quem sabe um dia eles perceberão que o verdadeiro poder está em você poder ser você mesmo. E é justamente quando estamos atrás de dinheiro, fama ou desse pseudo sucesso vendido na TV, que nos afastamos das nossas essências e nos sentimos vazios e oprimidos. Nossa conexão é com o cosmos e para percebermos isso, é necessário focarmos nos sentimentos, nas emoções reais, naturalmente nos distanciando dos velhos discursos, dos dogmas religiosos e das receitas de bolo vendidas nos livros de auto ajuda. E se for para se espelhar em frases prontas, fico com os versos populares dos autores atemporais: “felicidade não existe, o que existe são momentos felizes”.
A serenidade parece vir com a idade, e é através dela que conseguimos lidar com os inquietos momentos entre os instantes felizes. Vitórias serão sempre comemoradas, mas enquanto não aprendermos a perder, viveremos decepcionados e descontentes. É na perda que aprendemos as tais grandes lições. Estou percebendo isso na marra, através da morte recente da minha querida mãe. Sua vida, rica em significado, precisava ser revisitada para então poder servir de exemplo, ao menos, para os filhos e amigos que ficaram. Uma vida vivida intensamente, uma vida com vários sonhos realizados e desafios ultrapassados responsáveis por deixar um legado digno de uma grande mulher com o valor de uma jóia única, assim como ela também era chamada. Mamãe continua presente de alguma maneira que a gente não entende, mas sente. Um sentimento especial capaz de nos reconfortar. Nossa relação só cresceu, desde o momento da sua primeira internação, há 7 anos, até hoje, após sua partida. A cada dificuldade vinha uma lição. A cada recuperação pude mensurar o tamanho da sua força. Sei que sua vontade sempre foi ver seus filhos felizes e é justamente nisso que estou trabalhando e pretendo trabalhar pelo resto da vida. Só tenho a agradecer por todas as ferramentas que você me deu e que certamente me ajudam nesse caminho.
Um caminho permeado por falsos atalhos, distrações superficiais e pedras de todos os tamanhos. Alguns preferem acelerar a viagem e passam por esse caminho utilizando um trem bala ou até alguma espaçonave capaz de alcançar sonhos na velocidade da luz. Jogadores de futebol e artistas prodígios entenderão essa analogia. Eu prefiro seguir a pé, observando cada passo dado e mirando no horizonte iluminado. Às vezes tento correr ou pular, mas logo caio, me lembro dos tombos do passado, e me levanto mais uma vez. Outro verso amigo e ensinado pelo mestre decadente, o senhor Bukowski. Thanks again, man. E atrás de mim, estão todos esses mestres, muitos deles cantores, cineastas ou poetas de rua. A fila de inspirações é cumprida e também fazem parte dela meus avós, bisavós, tataravós e agora minha querida mãe. Nesse sentido, nunca me sentirei sozinho e serei eternamente grato por me sentir conectado com todos esses antecessores. Jodorowsky, gracias por ter me ajudado a compreender essa dança da realidade que você tanto fala. As famílias físicas nos ensinam a quebrar ciclos viciosos, deixando preciosas pistas que nos ajudam a entender quem realmente somos. Quando fugimos dessa história, e vemos que em muitas situações essa fuga momentânea é fundamental, porém, se não voltamos pra ela, seguiremos atormentados. Em suma, o afastamento familiar é importante, mas o reencontro mais cedo ou mais tarde, se faz necessário. Pode doer, mas essa dor pode ser maior se não há pelo menos uma tentativa para que essa reaproximação possa acontecer. No hospital, ao lado de mamãe, ouvi algumas histórias tristes que acabaram assim. Através do distanciamento podemos aceitar e nos prepararmos para perdoar. Os milagres costumam nascer desse sentimento nobre e meio fora de moda.
E assim a roda gira, as máquinas seguem trabalhando, os asfaltos da cidade modelo são refeitos, enquanto dentro de mim uma reconstrução invisível de proporções quânticas é realizada. O ajuntamento das peças brilhantes e cheias de lágrimas são lentamente reorganizadas e sedimentadas, abrindo as portas dessa casa que me acostumei a chamar de minha. Let the good times roll.