Nas últimas décadas informações a respeito da depressão têm sido amplamente divulgadas. Com o intuito de esclarecer as pessoas e amenizar o preconceito, profissionais da área de saúde e da comunicação buscam discutir os aspectos e implicações dessa reação patológica que atinge uma quantidade significativa da população. Os sintomas já são bem conhecidos: desânimo, cansaço, alterações de sono e apetite, tristeza, desinteresse por atividades que antes eram prazerosas, irritabilidade.
A ciência trabalha para explicar as causas e propor tratamentos, visando remissão dos sintomas e maior qualidade de vida para os sujeitos afetados. A indústria farmacêutica não poupa esforços e investimento em pesquisas e desenvolvimentos de medicações cada vez mais eficazes. Tudo isso tem seu valor, mas, em muitos casos, não produzem um efeito satisfatório, como se alguma coisa ficasse fora de alcance. É interessante também para a sociedade que as pessoas sejam produtivas, a depressão ocasiona uma parcela relevante dos afastamentos do trabalho e as formas de produção vêm se modificando bastante no mundo contemporâneo.
A depressão é uma forma de sofrimento contemporâneo que se manifesta numa morosidade e numa anedonia, ou seja, a pessoa vai ficando lentificada de forma geral e vai deixando de sentir prazer nas atividades, relacionamentos e conquistas. Portanto, podemos pensar a depressão como um fenômeno social, uma forma de reação às demandas da civilização atual, que praticamente impõem ideais de produtividade, desempenho, sucesso, posses e ações em ritmo acelerado aos sujeitos. É comum encontrarmos nas pessoas deprimidas discursos autodepreciativos, estão sempre se comparando, se cobrando, se subjugando. Também se exigem ideais inalcançáveis, e como tudo fica muito difícil se abstêm de fazer alguma coisa, mantendo assim, um lugar de insuficiência, de inadequação.
Para a psicanálise, a leitura da depressão é diferente daquela descrita pela psiquiatria, pois compreende o quadro depressivo como uma resposta particular que o sujeito dá sobre o que está fazendo com a própria vida. Não é considerada uma categoria patológica, e sim como uma posição subjetiva diante do próprio desejo, podendo ocorrer em qualquer tipo de estruturação psíquica.
A nossa condição de sujeito é alicerçada na falta, desejamos porque algo nos falta. Perdemos algo que nunca tivemos, que é a ilusão de que um dia fomos tudo para o outro (geralmente aquele que exerceu a função materna). É uma ilusão, mas essencial para acreditarmos que somos passíveis de sermos amados. Assim como é essencial reconhecermos que a completude é impossível, e seria muita onipotência ser o único objeto de desejo do outro.
Na teoria psicanalítica, a depressão denuncia um trabalho de luto que não aconteceu ou foi mal sucedido. O sujeito acometido pela depressão sente que sofreu uma perda irreparável, que o coloca num lugar sem perspectivas de futuro e numa nostalgia do passado. Na clínica nos deparamos com relatos em que o paciente conta que “um dia ele foi alguém ou que fez algo de relevante, mas que agora ele não é nada”. Algo está perdido e não pode ser recuperado. Há uma idealização, sem viabilidade de substituições, de mudanças.
Freud descreve com riqueza a importância e o funcionamento do processo de luto. Quando sofremos uma perda, guardadas as devidas proporções, iniciamos um trabalho psíquico que tem como principal função limitar o tempo da dor, evitar que ela se torne crônica. Para isso, retiramos temporariamente a energia (libido) investida no mundo externo e redirecionamos essa energia para o mundo interno, ou seja, as memórias, sentimentos e pensamentos estarão a favor do trabalho de luto, da elaboração da separação do objeto perdido. A perda, assim, pode ser simbolizada, podemos construir uma narrativa dessa história e assimilar a transitoriedade que é inerente à vida. Essa elaboração permite nossa reinserção no circuito desejante e, posteriormente, o investimento da energia psíquica em outros objetos.
Na depressão não é assim que acontece. A perda é vivida como traumática e está relacionada com a imagem que o sujeito faz de si. Esse quadro impede que a pessoa assimile sua condição de transitoriedade, de integrar a perda e se arriscar em novas experiências, objetivos, aprendizagens. Só o ideal serve, só aquela dada condição perfeita. Então o sujeito deprimido nega-se outras vias de satisfação e coloca-se numa situação de estagnação, mortífera sob o aspecto da vida psíquica, dos laços, da criação e, em muitos casos, mortífera na literalidade. Se há a ilusão de que a satisfação plena é possível, e a pessoa não a atinge, sente que é por incompetência ou inferioridade dela. Mas só satisfações parciais são possíveis, para todos.
A arte também traz leituras impressionantes sobre o tema e nos ajuda a compreender nuances da natureza humana através da sensibilidade e do belo. No clássico de Leon Tolstoi, Anna Karenina, a protagonista se vê forçada a deixar o filho com o pai, seu primeiro marido, para viver seu grande amor. A separação brusca a coloca numa situação dolorosa de conflito psíquico que a impede de estabelecer um laço de amor com a filha que vem a ter com o segundo marido. Nessa história é perder ou perder.
Escutei uma história recentemente sobre uma mulher que não quer ser avó. Para essa pessoa, vaidosa e excessivamente adepta dos tratamentos estéticos, ser chamada de avó é um signo do envelhecimento. Prefere negar algo da ordem do inevitável. A depressão é muito recorrente nos idosos, que convivem com a perda de várias formas, relacionadas à saúde, ao corpo, à juventude, perdas de pessoas queridas e a aproximação da finitude. Essa condição não precisa ser vivida como trágica, muitos administram bem e se permitem um envelhecimento saudável, na medida do possível.
E o que se perde quando não se quer perder? A beleza da transitoriedade, dos ciclos, as chances de novos aprendizados e principalmente a experiência do amor. Compreender que as coisas raramente acontecem do jeito que idealizamos é se livrar de um fardo, nos libera para desejar do jeito que dá. E como já dizia o poeta: “quem tem um sonho não dança”.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FREUD, S. Luto e melancolia.
FREUD, S. Sobre a transitoriedade.
TYSZLER, J.J. As depressões, o luto e a melancolia.