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O segundo longa metragem de Kleber Mendonça Filho talvez seja ainda melhor que seu filme de estréia, o aclamado O Som Ao Redor. Em Aquarius, Mendonça Filho novamente utiliza uma ambientação de classe média para questionar alguns aspectos do status quo nacional.
A visão predominante nas artes narrativas, já há algum tempo, é a de que mais importante que o enredo é a forma como ele é apresentado. Embora essa visão tenha levado a certas aberrações, Aquarius é um forte argumento a favor desse ponto de vista. O filme é centrado em Clara, uma viúva com cerca de sessenta anos, e sua disputa com a construtora Bonfim. Clara é a última moradora do edifício Aquarius, que deve ser demolido para dar lugar a um novo prédio residencial.
O enredo da obra já foi usado, com pequenas alterações, em diversas outras produções, inclusive em novelas televisivas. Se abstrairmos o conflito para algo como “o capital contra o indivíduo”, então uma dúzia de obras vem a cabeça. Aqui, no entanto, o conflito de Clara com a construtora é apenas um plano de fundo para que sejam discutidos temas mais interessantes. Um deles já se apresenta na primeira cena: a sexualidade e, sobretudo, o contraste entre a sexualidade na juventude e na velhice. Mais que os preconceitos, é o próprio peso (e as marcas) da experiência que enche de nuances algo antes instintivo. O sexo dos jovens está presente em toda a parte: na praia, no prédio abandonado, nos comôdos da casa cheia. O dos velhos aflora na memória, mas mostra-se mais complexo quando trazido a realidade. Outro ponto importante é a relação de Clara com sua empregada, Ladjane. Aqui, Mendonça Filho não escapa de certo comentário crítico, embora a relação entre patroa e empregada seja carinhosa. Em geral, pode-se dizer que o tema central de Aquarius é o afeto nas suas mais variadas manifestações: as memórias imbuídas no apartamento, as relações familiares, as amizades e as relações sexuais.