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Diz o senso comum que pessoas mais velhas,avessas às dificuldades inerentes de novos métodos e abordagens, tendem a seguir caminhos mais conhecidos. Quem já tentou introduzir o avô ou avó às redes sociais provavelmente teve uma prova dessa tendência. Na sétima da arte, também vemos isso acontecer. Depois de consagrados, filmes “de tal diretor” tendem a ser reconhecidos por determinadas marcas de estilo, presentes em todas as obras subsequentes. Aos setenta e dois anos, Claire Denis mostra o perigo das generalizações. Após décadas de sucesso no cinema francês, High Life trás duas inovações para a carreira de Denis: seu primeiro filme em inglês e o primeiro de ficção científica.
Estrelando Robbert Pattinson no papel de Monte, um criminoso que prefere participar de uma missão espacial à cumprir a pena na Terra, High Life é um filme conceitual, reminiscente de obras como Solaris. A vida a bordo da espaçonave é difícil, monótona e meticulosa, já que ela é um ecossistema encapsulado, onde toda a matéria orgânica precisa ser reciclada. O enredo descreve a convivência entre os tripulantes e, mais tarde, entre Monte e sua filha, únicos sobreviventes no experimento.
A obra de Denis não é das mais fáceis, com uma mistura de cenas perturbadoras ou sem nexo (as vezes ambos), um enredo por vezes desconexo e pouca ação. Ainda assim, High Life traz grande beleza fotográfica, boas atuações e, sobretudo, um caráter filosófico muito raro no cinema contemporâneo. Mesmo ficções científicas “de arte” tentam hoje se distanciar das obras contemplativas dos anos setenta. High Life, pelo contrário, parece pouco se importar com aspectos de entretenimento, preferindo um estudo meticuloso do isolamento e confinamento do espaço – e como esses aspectos impactam a relação de paternidade. Há uma riqueza de conceitos apresentados, mas que requerem um relacionamento mais ativo entre a obra e os espectadores. Para aqueles interessados em explorar o que a diretora coloca em pauta, High Life pode ser uma experiência bastante profunda.