Duas Mulheres


Antes de mais nada, gostaria de começar falando de duas mulheres, Luiza e Lena; típicas matriarcas do século XX, uma com o temperamento forte e eloquente feito os ventos “gaúchos” que o pampa cisplatino lhe davam, a outra com toda a passionalidade eufórica que as origens sicilianas podem abarcar. Eu disse isso para não dizer em síntese que uma conservadora e a outra libertária, capazes de fazerem miséria na cabeça de qualquer ser vivente.

Luiza e suas vestes clássicas, cabelos sempre pintados e um par de olhos pícaros para todos que passavam na rua, uma capricorniana típica, fibra de terra que às vezes aterrava a todos. Lena, nunca ligou para a roupa, aparência ou fala, sempre colocando o dedo na ferida, canceriana capaz de inundar a todos.

Luiza casou-se com Leuva em meados da década de 1950, um órfão das revoluções do leste europeu que se dedicava à arte da alfaiataria. Lena casou-se com Zé, violeiro e agricultor do interior paranaense, que um belo dia desapareceu da vida de todos sem deixar notícias.

Luiza falava para eu não confiar na Tereza Boiko, pois ela era Fernando Collor até embaixo da água, enquanto Lena me alertava para virtuosidade de nossos vizinhos latino-americanos, me presenteando com bandeiras e camisetas, até ser enfática dizendo que “esses americanos não prestam mesmo”, ianques feios, bonitos eram mesmo os paraguaios.

Na casa de uma Pink Floyd e Tião Carreiro, na de outra, Cauby, Gardel e os melhores do show de calouros.

Com Lena, a diversão era andar pelos itinerários de ônibus da zona oeste curitibana, enquanto ela se queixava do brejo que é essa cidade, fria e que só chove. A outra quando estava em casa, falava o oposto, contava suas aventuras na Curitiba dos anos 1950 e com um mate na mão, mesmo que de maneira incerta tudo virava política, foi capaz de criar um filho de direita e uma filha de esquerda.

Isso se dá porque Luiza chegou em Curitiba no pós-guerra, viu a cidade florescer em todos os aspectos, convivia com os turcos da Tiradentes e aos domingos ia namorar no Fontana (atual passeio público), viu inúmeras nevascas, fez fortuna e viu o marido perder tudo em uma mesa de jogos. Lena por sua vez nunca teve tais chances, chegou na capital depois da nevasca de 1975 pois a mesma tinha dizimado os cafezais floridos do vale do Itararé no Paraná.

Luiza torcedora fanática do Ferroviário, boca negra, colorada, enquanto Lena Atleticana pelo prazer de ser do contra, pois tinha ido morar com o coxa-branca Antônio, um típico polaco de Araucária.

O gosto pelos pobres e as histórias alheias às suas próprias vidas sempre fizeram parte da ordem do dia dessas mulheres, assim como um histórico de luta e dor, Luiza perdeu um filho para o frio enquanto Lena viu seu mais velho trabalhar com 10 anos de idade. Luiza nunca fez questão de unir aos seus, enquanto Lena em nome da união desunia a todos.

Porém sempre viram em mim um tipo de instrumento de retórica, sempre fui o preferido das duas, mas para Lena eu era o “boca-suja” enquanto pra Luiza nunca consegui chegar nos mesmos termos, era um juiz sádico para os outros primos Carlos (o virtuoso) e Fernando (o malvado), e a sensação de poder era incrível.

O fato é que Luiza sempre foi velha, enquanto Lena nunca fez questão de rejuvenescer, mas capazes de aceitar a tudo, olhos fixos e até minha verborragia indômita, eu subia ao palco do Guaíra pela primeira vez na minha vida e era de certo modo a consequência da vida das duas, confesso que todos os dias tento, mas não consigo alcançá-las, sou a herança forte dessas mulheres que me fizeram retumbar em personalidade, afeto e perigo, pois com elas aprendi que o sonho continua. Com amor, em um dia 08 de março posso ter consciência que sou elas também.