E o pipoqueiro?


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Fujam para as montanhas, fiquem em casa, não saiam, que assim diminui a evolução do contágio, fechem as escolas, os shoppings, os bares. Fica só farmácia, o mercado e o hospital.

Nos mercados todos desesperados e a mulher no seu carrinho tem mais de vinte frascos de álcool gel. A outra se revolta, o outro filma, viraliza um barraco cheio de expectadores que não reagem. Fica a senhora heroína lutando sozinha, retirando os frascos do carrinho da mulher indiferente,em nome de muitos, muitos, que assistem no mercado lotado. Vi tudo daqui de casa.

A peste é o homem e seus pecados, sua brutalidade, sua ignorância.O dinheiro justifica o abandono à própria sorte de milhares, não muitos, milhares.

E o pipoqueiro?

O pipoqueiro do Barigui foi visto, no meio tarde, empurrando seu carrinho, indo embora.Mesmo com gente por ali, quem compra a pipoca?

E amanhã, pipoqueiro? Tem mais de sessenta? Voltará aqui? E depois de amanhã? Conta com quem? Vai se aposentar? Tem milho ainda para estourar?

Já te vi girando a alça da panela feita só para pipoca, senti o cheiro.Com bacon? Doce? Colorida? Pequena ou grande?

Símbolo que ultrapassa séculos, lá está o pipoqueiro e seu estandarte da contracultura do “times ismoney”, da  revolução em nome do ócio, do convívio, pelos patos que se reúnem por ali à espera de sua gentileza.

Crianças e casais se transformam com o barulho dos estouros, com o cheiro que alcança todo o espaço, sua crocância e as histórias dos dentes pedidos nos milhos não estourados.E ainda não sabem se lambem os dedos ou limpam na roupa. Eu lambo. Séculos e agora ali foi visto indo embora, cedo demais.

Boa sorte aos pipoqueiros, os milhões que trabalham na informalidade, os artistas de rua, os boys de bicicleta, de moto, os camelôs, os feirantes, ubers, jardineiros, diaristas, vendedores de panos de prato no sinal…

Por isso, resolvi perguntar, e o pipoqueiro?

Cuidemo-nos.

 

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