Exile on Main Street. A evasão fiscal dos Rolling Stones


Grupo se mudou para a o sul da França em 1971. O “exílio” foi uma manobra para escapar da carga tributária britânica, e resultou em uma obra prima que completa 50 anos em 2022

Antony Seely, especialista em política tributária na Biblioteca da Câmara dos Comuns escreveu um artigo para o portal commonslibrary.parliament.uk intitulado Tax exile on Main Street: Tax avoidance and the future of the tax system (Exílio fiscal na rua principal: elisão fiscal e o futuro do sistema tributário) no qual faz uma aparentemente curiosa citação para exemplificar a longa prática de “elisão fiscal” na Inglaterra. Elisão (avoidance) significa suprimir, eliminar, o ato ou efeito de “elidir”. Em bom português de malandro: “dar o migué” nos impostos da Rainha.

Seely vaticinou: “considere o Exile on Main Street dos Rolling Stones, gravado no sul da França após a decisão da banda de deixar a Inglaterra na primavera de 1971. Indiscutivelmente as primeiras notas do álbum foram escritas pelo então chanceler Roy Jenkins em seu budget (orçamento) de 1969. Jenkins observou preocupações de que os impostos que ele havia introduzido sobre as rendas mais altas estivessem tendo um impacto significativo nos incentivos, mas revertê-los só poderia ser visto como uma ‘alta prioridade’ para um orçamento posterior. Uma alta prioridade, talvez, mas não foi o suficiente para os Stones”.

Entenda o caso: os Rolling Stones, no auge de seu prestígio, vinham de três grandes triunfos de público e crítica, os álbuns Beggars Banquet (1968), Let it Bleed (1969) e Sticky Fingers, este recém lançado naquele mesmo ano de 1971. O grupo rompeu com a gravadora Decca e assumiu as rédeas de sua carreira, com Mick Jagger à frente dos negócios. Nascia a Glimmer Twins, cujo símbolo é a famosa “língua dos Stones”, uma logomarca irrepreensível. Daí, foi inevitável os escritórios comandados por Jagger não se depararem com a questão dos impostos. É aí que a França entra na jogada.

O guitarrista Keith Richards (na verdade o sócio majoritário de Jagger, um dos Glimmer Twins , que surgiria oficialmente em 1974) aluga uma mansão em Nellcôte, perto de Nice, e fixa residência. Jagger aluga um lugar em Paris, onde também passa a morar. E o grupo começa a transferir equipamento e equipe para o local. Tudo não passou de uma manobra para se livrar dos altíssimos tributos que deviam ao fisco inglês.

No período, apesar do imenso sucesso — ou talvez devido a esse fator — o grupo passava por um período turbulento de criatividade, relacionamentos, brigas e principalmente abuso excessivo de drogas e álcool. Em um curto período de dois anos, perdeu seu guitarrista fundador Brian Jones, substituído por Mick Taylor, enfrentou uma barra pesadíssima no festival de Altamont, na Califórnia, no qual os Hell’s Angels assassinaram uma pessoa quando incrivelmente faziam a “segurança” do evento a pedido da banda. Mesmo assim, os Stones eram um êxito completo e a barca seguia.

Não é preciso dizer que a mansão de Richards se transformou em um antro de gente louca por todos os cômodos. As dependências foram improvisadas como estúdio, refeitório e obviamente “salão de festas”. Esse ambiente caótico, entretanto, resultou naquele que é considerado o melhor álbum do grupo, com um título sacana: Exile on Main Street. Uma alusão ao “exílio fiscal”.

Um álbum duplo, lançado no ano seguinte, em 1972, que reúne a fina flor das influências da banda até então, que vão do country ao blues, passando pelo r&b com naipes de metais alucinantes. Era enfim a cristalização de toda influência da música de raiz norte-americana que fizera a cabeça da banda desde seus primórdios dez anos antes, em 1962, agora materializada em um extenso álbum com 18 faixas impecáveis.

Toda saga foi registrada pelo diretor Stephen Kijak em filme de 2010, Stones in Exile. Imagens do período foram utilizadas também por Martin Scorsese em seu Shine a Light de 2008.

Antony Seely ainda observa em seu artigo de 2013, que “a decisão dos Rolling Stones de deixar este país (a Inglaterra) para o continente prenunciou uma mudança fundamental no sistema do Reino Unido em direção à tributação indireta, já que nossa entrada no Mercado Comum exigiu a introdução do IVA – um imposto amplo sobre o consumo, que em alguns aspectos forneceu uma resposta a estes problemas de desenho fiscal”.

Mick Taylor saiu dos Stones em 1974, dando lugar a Ron Wood, que segue até hoje. O baixista Bill Wyman deixou o grupo em 1993. O baterista Charlie Watts faleceu em 2021. Mick Jagger segue à frente dos negócios da banda. Keith Richards continua vivo.

Os Rolling Stones acabam de anunciar uma novíssima turnê europeia para 2022. Continuam sendo chamados de “a maior banda de rock’n roll do planeta”.

Aparentemente com os impostos em dia.

Ouça. Leia. Assista:

Tax Exile on Main Street – artigo de Antony Seely para a House of Commons Library

Exile on Main St – álbum completo

Stones in Exile – de Stephen Kijak – trailer

Imagens: reprodução