Federico. O cartunista


Relacionamento do cineasta com as artes gráficas foi tão intenso quanto a cinematografia. Seus desenhos influenciaram filmes e inspiraram outros artistas

O moço a meu lado no avião era diretor de cinema, o que não tardou a consumar-se em boa camaradagem. Viajava finalizar um filme em São Paulo e a escala no Fiumicino prometia ser rápida. Prometia.

Uma greve clássica e histórica dos aeroviários italianos levou o sistema aéreo local ao caos, e a expectativa era de que a escala de 24 horas se estendesse por dias — três ou quatro. Meu novo amigo, um tanto atônito, resignou-se ao atraso de seus negócios e enfim relaxou. Minha situação era diferente. Voltava de empreitada — também audiovisual — na Inglaterra, onde gravara um clipe para minha banda de rock destinado à MTV da época. Mas estava de férias por mais dez dias, e empolgado com a possibilidade de estadia gratuita na Cidade Eterna, já procurava sarnas e vinhos para me coçar. Ele observa que “Roma é um parque de diversões para adultos. Você vai curtir…”.

Um nome não me saía da cabeça: Federico Fellini. Uma imagem: a de meu pai. A primeira referência em neorrealismo italiano da vida. Nosso encontro estético. Nossa maior afinidade. Só é preciso mencionar alguns títulos para lembrar momentos de beleza e transformação. La Dolce Vita, 8½, Satyricon, Amarcord, Ensaio de Orquestra. O cinema italiano nos une. Fellini o define, sobremaneira.

Mas o recordo do pai, uma espécie de Mastroianni na pindorama de sua época (a mesma, 1960’s) passava também pelas histórias em quadrinhos. Guido Crepax e Hugo Pratt, que o velho me apresentou. Os autores que fizeram a cabeça do pai acabaram sendo os meus, os quais ampliei a Serpieri e Manara, depois Pazienza — pois o “punk rock” não passou em branco aqui.

Pouca gente sabe, mas o cinema de Federico Fellini teve as suas raízes na arte do desenho, nas charges e tiras de jornal. O que conduziu às entonações eróticas que propôs e realizou, tendo sua esposa Giulietta Masina como modelo. Fellini foi um ótimo cartunista. E exerceu a função por muito tempo. Antes e depois da fama como o diretor máximo, o filho dileto da Cinecittá.

Fellini se expressou através do desenho principalmente fornecendo esboços preliminares a suas produções. De início, caricaturas para seus amigos e terapia para si mesmo. Havia uma espécie de “diário visual” que ficou conhecido Il Libro dei Sogni (O Livro dos Sonhos).

Para além, os desenhos de Fellini despertaram o interesse de muitos que vieram a colaborar com ele ou produziram obras inspiradas no seu legado visual/gráfico. As primeiras experiências de Fellini como cartunista vão de 1937 a 1947, período no qual consagrou-se como roteirista de cinema, consumando-se com a indicação ao Oscar de Melhor Roteiro Original por Roma, Cidade Aberta, de Roberto Rosselini, em 1946.

A segunda fase gráfica é dominada por Il Libro dei Sogni (1948–1993). No meio de tudo, um emaranhado de histórias em quadrinhos e filmes de animação foram inspirados em Fellini. Autores como Giorgio Cavazzano, Andrei Khrzhanovskii e o citado Milo Manara.

Federico Fellini nasceu em 1920 na vila de Rimini, no litoral norte italiano, na Romanha. Cresceu sob o fascismo de Mussolini, portanto. Até seus 28 anos, desenhava principalmente vinhetas para sobreviver. No final da década de 1930 esteve em Florença, onde trabalhou na editora Nerbini, como revisor, humorista, desenhista e escreveu alguns roteiros de Flash Gordon. Muda-se para Roma em 1939 e trabalha num jornal satírico de sucesso chamado Marc’Aurelio.  Fellini escrevia no jornal, mas na maior parte do tempo era essencialmente cartunista. Produziu charges humorísticas usando a técnica de lápis, caneta hidrocor e aquarela.  Foi um excelente campo de inspiração para futuros diretores e roteiristas como Cesare Zavattini e Ettore Scola.

Tanto os cartuns para a Nerbini quanto os de Marc’Aurelio foram assinados com o nome “Federico”. Tornou-se uma assinatura de destaque. O sucesso colocou o jovem designer no círculo dos romanos criativos mais influentes. Fellini colaborou em filmes de comediantes como Erminio Macario, escreveu as falas dos shows ao vivo de Aldo Fabrizi e começou a escrever roteiros de cinema e rádio.

O cinema como atividade principal chegou apenas no início da década de 1940, após conhecer Roberto Rossellini, que o estabeleceu como roteirista. A partir de então seu palco principal foi a tela. Mas Fellini nunca deixou de desenhar. Seu traço marcou e definiu cada um de seus filmes. Como é comum, tomaram forma nos storyboards, sempre feitos por ele próprio. Como a icônica bailarina de , ou a “patacca” em Amarcord.

 

Faz sentido. Sempre ouvi falar que, em que pese ter sido roteirista de ofício, Fellini detestava roteiros. Já consagrado, e trabalhando com atores de diversas nacionalidades diferentes em uma mesma produção, reza a lenda que muitas vezes sem paciência para o caótico diálogo que poderia se estabelecer, dizia à sueca Anita Ekberg para “contar até dez, depois a gente dubla”. Mais sentido ainda, um entendimento visual da obra, para além da dramaturgia eventualmente embutida. Autoral. Genial.

 

“Faço anotações gráficas de seus rostos, narizes, bigodes, gravatas, bolsas, da forma como cruzam as pernas, das pessoas que vêm me visitar no escritório (…) porque é uma forma de começar a olhar o filme nos olhos.”

Houve também trabalho em conjunto com grandes pintores. Para os filmes Il Casanova e Cidade das Mulheres, desenhou em parceria com o pintor francês Roland Tropor, artista de inspiração surrealista. Um cara que sempre expressava em seus quadros as mesmas angústias que Fellini retratou em filmes.

Federico e Roland trocaram ideias e discutiram maneiras de agregar cenas da vida cotidiana aos símbolos universais tão presentes na obra do cineasta. A dupla trabalhou ainda em outro projeto muito estranho: Il viaggio di G. Mastorna, mais conhecido como Fernet. O trabalho também envolveu o escritor e pintor Dino Buzzati.

O enredo, onírico e visionário, é puro Fellini. Tudo gira em torno de um certo Giuseppe Mastorna, conhecido como Fernet, um famoso palhaço que, após percorrer o mundo com o circo, se encontra em uma cidade do norte da Europa. Preso em uma tempestade de neve, ele se envolve em situações surreais, como quando presencia a dança de uma mulher sedutora que dá à luz um filho após a dança em um misterioso hotel no meio de uma floresta.

Em 1992, inspirou uma história em quadrinhos de mesmo nome por Milo Manara, posteriormente impressa pela editora Il Grifo. Não chegou a virar filme. Fellini tem então sua graphic novel, enfim.

Não passei nem perto de Rimini, onde há um museu no qual se encontram expostos os originais de Il Libro dei Sogni, uma mistura de imagens e palavras nas quais Fellini transcreveu e ilustrou sua fervorosa atividade onírica por cerca de trinta anos (de 1960 a 1990). Tais viagens noturnas mais tarde se tornaram fundamentais para inspirar seus filmes. São dois álbuns originais, apresentados em duas vitrines, enquanto uma edição pode ser consultada interativamente.

Andar em Roma é atravessar a obra de Fellini, cortando como faca a atmosfera oferecida. Seus filmes e desenhos são os sonhos de muita gente. Troquei algumas libras esterlinas por euros. Deixei meu amigo cineasta acabrunhado no hotel que improvisaram aos passageiros daquele voo, e fui-me à cata do famoso caffè espresso.

De retorno ao saguão da pequena hospedaria, fiz ver a alegria de um quadro com reprodução de desenho do meu cineasta italiano favorito na parede. Um copo daquele café na mão e um pouco de neve lá fora.

Maior alegria foi descobrir que o vinho no buffet era gratuito, do tipo sirva-se à vontade.

Papai estaria orgulhoso.

Ouça. Leia. Assista:

Fellini’s Graphic Heritage – livro

Fellini the Artist – livro

Imagens: reprodução