O maestro, compositor e indigenista paranaense inaugura um novo gênero musical
Guayranas é um álbum singular para a história do piano, fruto de um trabalho que aglutina em suas músicas a história do Paraná pré-colombiano e a interação de seu povo com as missões jesuíticas. É a primeira transliteração de música étnica Guarani Ñandewa para piano, mantendo as características da cultura, resultando em uma musicalidade sem similaridade, um novo gênero denominado por seu criador de Guayranas.
Originalmente, as músicas desse álbum foram compostas para instrumentos étnicos Guarani. Ao longo de sua convivência com os povos nativos, Awaju compôs centenas dessas canções, ou mborai, como se fala na língua ancestral. Nesse álbum são apresentadas 11 canções adaptadas ao piano.
Cantado em 3 línguas, Guarani, Português e Espanhol, Guayranas é a continuação de um projeto que se iniciou em uma turnê européia em 2023, na qual o Duo Kayari, composto por Awaju Poty e pelo músico amazonense Ricardo Sá, apresentou a música étnica brasileira em piano, voz, saxofones e instrumentos de sopro amazônicos. Para esse conjunto de apresentações, Awaju iniciou o trabalho de seleção e curadoria de suas canções étnicas, compondo arranjos especiais para os instrumentos ocidentais contemporâneos.
De volta ao Brasil, começa a trabalhar em Guayranas – Piano e Voz, formalizando a adequação ao piano, para o sistema europeu temperado, e suas divisões exatas entre os semi-tons. “Para a transliteração optei por usar os tons naturais, sem uso de alterações acidentais (sustenido e bemóis), já que esses não são usados na musicalidade Guarani”, esclarece o compositor.
Para entender o tamanho do desafio, é preciso saber que a música Guarani traz consigo um sistema musical próprio, com seus próprios instrumentos e ritmos. Além disso, apresenta sonoridades e características que lhes dão uma “personalidade” influenciada pela natureza e o sagrado e pela interação com outras etnias ao longo de sua milenar existência.
O maestro Awaju Poty, conta que cada composição dos mborai foi desenvolvida para os instrumentos tradicionais como harpa Guarani, rawe (rabeca), angapu (tambor), mbaracaí (chocalhos), takwapu (instrumento feito de taquara) entre outros, e o desafio era manter as características ao piano: “Por ter grande influência jesuítica a partir do século XVI, a música Guarani é modal, ou seja, similar a música eclesiástica, que era a música da Igreja Católica do final da Idade Média e início da Renascença. Assim, a música Guarani possui uma característica própria, com a presença do modo de 7 notas, mas também apresenta modos pentatônicos de 5 notas e hexatônicos de 6 notas, que remetem ao período pré-colombiano. Já a afinação é diatônica, bem semelhante ao sistema eclesiástico”, explica o maestro.
Awaju estudou a história desse povo e nos conta que nos séculos XVI, XVII e XVIII, a partir da interação entre as missões jesuíticas, surgiu no Guayrá uma rica musicalidade, inclusive com o aparecimento de grandes luthiers, corais e orquestras, havendo relatos de excursionamento pela Europa para grandes apresentações. E o maestro finaliza: “Denominei esse gênero que salvaguarda e adequa a música Guarani Ñandewa dentro de um contexto contemporâneo de Guayrana. É uma homenagem a República Del Guayrá, a região autônoma que equivale ao atual Estado do Paraná, excetuando seu litoral”.
Saiba mais sobre Awaju Poty
Com 54 anos de carreira, João José de Félix Pereira (Awaju Poty), nasceu em Curitiba e iniciou seus estudos de piano aos 6 anos de idade. Aos 13 anos, em 1970, compôs sua primeira peça para piano. Aos 16 anos, conduziu seu primeiro recital na Biblioteca Pública do Paraná, na cidade de Curitiba.
Inicia uma extensa carreira acadêmica, com início no fundamental em música, na Escola de Música e Belas Artes do Paraná (EMBAP). Muda-se para São Paulo, formando-se no Curso Superior de Piano e no Curso Superior em Composição na Faculdade Paulista de Artes.
Faz especialização na Itália e em Ensino Superior em Artes pela UFPR.
Em seu Mestrado em Semiótica pela PUC-SP, João José de Félix Pereira, passa a pesquisar a música Guarani, através dos memby (instrumentos de sopro), tornando-se um membro da comunidade indígena, adotando o Ñandereko (o modo de vida originário) e o nome Awaju Poty, que gradualmente se torna seu nome artístico.
Awaju Poty torna-se doutor e pós-doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo.
Aos 26 anos assume uma cadeira de professor na EMBAP, onde lecionou por 35 anos. Sendo professor fundador da graduação em Composição e Regência e também em Musicoterapia na Faculdade de Artes do Paraná. Aposenta-se em 2017, quando passa a dedicar-se a execução, composição e organização de suas composições.
Há 3 anos, começou a gravar seus álbuns próprios com apoio do produtor independente Fábio de Oliveira Rodriguez. Atualmente, estão disponíveis 4 álbuns e 4 singles nas principais plataformas de música.
Por Arthur Ferreira
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Fotos: Divulgação