Um dos maiores músicos da história do rock’n roll protagonizou uma noite memorável em 1990. “The God” mobilizou jovens de várias regiões, que pegaram a estrada enfrentando todas as dificuldades de logística e infraestrutura. O Cultura930 conversou com alguns curitibanos que se aventuraram rumo ao Estreito há exatas três décadas passadas. Drogas, lama, bebedeiras, muita farra e alguns encontros inusitados aconteceram
Em 1990 o Brasil estreava em democracia após longo período. Era o primeiro ano sob um presidente eleito desde Jânio Quadros, em 1960. Fernando Collor já exercia seu breve mandato em um Brasil no qual quase tudo parecia inédito. Dos computadores pessoais aos carros, equipamentos eletrônicos e instrumentos importados.
Algo de ineditismo ainda mais impactante aconteceu. O proprietário de algumas dezenas de velhas guitarras Fender Stratocaster, igualmente inéditas nas vitrines brasileiras de então, membro do Cream, uma das maiores bandas da história, mister Eric Clapton ia tocar na capital de Santa Catarina.
Colonizada por açorianos, que relegaram a sua gente um sotaque quase dialeto de refinamento castiço, Florianópolis já fora Nossa Senhora do Desterro, até ganhar o nome que faz alusão a um dos primeiros generais da República. Juntando o continente e a ilha, contava pouco mais de 200 mil habitantes. Reconhecida Brasil afora apenas como paraíso de surfistas e hippies mais descolados, a Ilha da Magia parecia um sonho distante. Terra também do ex surfista e ex governador careca Esperidião Amin, famoso por seu posicionamento liberal apesar de sempre estar ao lado do regime, Floripa era tudo de mais exótico. A data escolhida foi 13 de outubro, uma noite de sábado. Completam-se 30 anos deste feito agora em 2020.
“De repente parece que engatamos um sonho. Saímos de um contexto de ditadura direto para um universo de shows, que começou no Rock in Rio em 1985 e nunca mais parou”. As palavras são de Renato Sozzi, experiente frequentador de shows internacionais pelo Brasil, desde o citado festival carioca até os dias de hoje. Sozzi foi presidente da torcida Os Fanáticos do Athletico. Era acostumado a viagens pelo país, acompanhando o time do coração. Embalado por igual paixão pela música, foi um dos fanáticos que seguiu a Florianópolis assistir a sir Eric Clapton.
São muitos os “sobreviventes” do famigerado show no estádio Orlando Scarpelli, do Figueirense F.C. Um evento que mobilizou 25 mil pessoas. Número que parece tímido hoje em dia. Público normal de um clássico entre o clube proprietário do estádio situado no continente e seu rival insular, o Avaí F.C. Mas para uma cidade sem a mínima estrutura, numa época em que a BR-101 ainda não era duplicada, foi algo avassalador.
“Quando soubemos que Clapton ia tocar em Floripa, a primeira coisa que aconteceu foi que não entendemos o porquê de a capital catarinense ter sido escolhida. A cidade não tinha nenhuma tradição de grandes shows”, explica Renato Sozzi.
Mesmo assim, o combalido “presidente” — como é chamado pelos seus — juntou alguns amigos de rock e torcida, ganhando a estrada rumo a Santa Catarina. Renato lembra que “choveu, mas fazia muito calor. O problema é que assim que entramos no estádio acabou a cerveja. Eles não tinham estoque nem pra meia hora”. Logo também era a água que iria faltar, e os banheiros sofreriam consequência direta. “Não havia banheiros químicos como os de hoje. Foram utilizados os do próprio estádio em dias de jogos. Aquilo virou uma coisa indescritível”.
O humorista Miau Carraro tem recordação bastante engraçada quanto ao episódio. “Não me recordo de nenhum detalhe técnico. Lembro que teve muita lama no Scarpelli, devido à chuva. Isso marcou demais. Fui com minha ex mulher. Ficamos na casa de amigos na Lagoa da Conceição. Turma de catarinas super divertidos. Teve a cena do amigo louco que ficava nos chamando pra ir pra casa dele, pois lá tinha cerveja, uísque, discos do Clapton e um pacote de farinha, e no estádio não tinha nada! Só o Clapton! (risos)”. Apesar de tudo, Miau insistiu. “Ficamos até o final. Aí fomos pra casa do cara. Amanhecemos jogando ping-pong totalmente loucos. E ouvindo Clapton, claro”.
“Teve um infeliz que jogou um tênis no palco e quase acerta o Eric Clapton. O cara parou o show e falou que na próxima ele ia embora e acabava com tudo”.
Sim, o clássico Cocaine estava no set list do show. A “farinha” para além das quatro linhas do palco e do campo do Figueirense. É possível dizer que Florianópolis viveu seu período “brilhante” nessa época, em que não era nada difícil encontrar cocaína da melhor qualidade (a famosa amarelinha) em mais de uma centena de pontos da capital, relatam reportagens do período. A coisa rolou bastante à vontade sob os acordes e o suingue de um super time de músicos.
O empresário e músico Helio Freire teve o privilégio de se hospedar no mesmo local que Clapton. “Acabei ficando no mesmo hotel da banda, quase na ponte Hercílio Luz. O show, apesar de bom, foi o menos intenso da turnê brasileira, da qual fui a três: um na Apoteose no Rio de Janeiro, onde Clapton pediu para que o palco fosse invertido para que pudesse tocar vendo seu colega Redentor. E o mais especial de todos em São Paulo que, para graça dos fãs, foi numa pequena casa de espetáculos que não existe mais, porque não havia estádios disponíveis na data”.
Desde 1989, Eric Clapton vinha em turnê mundial com seu álbum Journeyman, considerado pelo artista um dos melhores de sua carreira. “O material do show era basicamente do Journeyman, além de clássicos como White Room , Cant Find my Way Home, Layla e Have you Ever, o melhor solo da noite pelo que me lembro”, relata Freire, que conseguiu até um contato pessoal com o astro principal, no saguão do hotel. “Eu o vi saindo do elevador cruzando o saguão e o cumprimentei: ‘hi, mister Clapton!’. Ele me disse ‘bye’, foi o melhor ‘tchau’ que já recebi na vida”, narra entre risos.
Helio Freire acompanhou Clapton pelo mundo em mais de 30 ocasiões. “EC alterna shows maravilhosos com medianos, mas nunca deixa de, em ao menos alguns momentos mostrar que é um daqueles seres que roubaram o fogo dos deuses. E pagaram o preço! No de Florianópolis ele trouxe uma ‘bandaça’, com o E Street Band (grupo de Bruce Springsteen) Steve Ferrone na bateria; Nathan East no Baixo — provavelmente o músico de aluguel mais caro do mundo; Greg Philganes, da galera do Quincy Jones no teclado; e o guitarrista Phil Palmer, que tocou com todo mundo, de The Who a Dire Straits”. Helinho deixa escapar a memória, mas Clapton veio ainda com o percussionista Ray Cooper — um show à parte dentro da banda de apoio — e as vocalistas Katie Kisson e Tessa Niles.
O analista de comércio exterior Antonio Vilanova conta outra história. “Teve um infeliz que jogou um tênis no palco e quase acerta o Eric Clapton. O cara parou o show e falou que na próxima ele ia embora e acabava com tudo”.
Aplicar o termo “sobrevivente” cabe a Vilanova, pois seus dois parceiros na trip já não estão mais entre os vivos. “Fui com o Ricardo Jones (r.i.p.) de carro. Chegamos num boteco e encontramos o Marcelo Spedito (r.i.p.), vulgo Juca. Bebemos um monte e seguimos ao show. Não tínhamos nem um baseado, mas encontramos um camarada lá dentro que tinha um monte. Fumaça de montão. Depois do show fomos pra outro bar, onde acabei cantando Cocaine no palco com a banda do lugar, completamente bêbado. Dormimos os três no carro do Jones e voltamos felizes no domingo”.
Cacau Menezes, conhecido colunista e comunicador local, declarou em entrevista recente que Clapton acabou por circular incógnito pelo Estreito (no continente, onde ficava o local do show) e também pela ilha, “se hospedou no Hotel Diplomata e foi visto fazendo compras no Supermercado Imperatriz, onde hoje é a Fields”.
O responsável pelo acontecimento foi Maurício Sirotsky Sobrinho, um pacato surfista no Rio de Janeiro. De família gaúcha, mudou-se para Floripa com o objetivo de dirigir a RBS (grupo de telecomunicações da família) em Santa Catarina. Ocupou o lugar do seu irmão Nelson. O empresário trouxe para a cidade Rod Stewart em 1989 e Eric Clapton em 1990. Depois, Ray Charles e muitas outras atrações.
Muitos reputam esta série de eventos como determinante para o crescimento desenfreado que praticamente triplicou a população da cidade nas décadas que seguiram. O fato é que a primeira vez do deus da guitarra em Florianópolis está na mente e nos corações de todos que lá estiveram.
À época, era comum em estrada ainda não duplicada um percurso de apenas 4 horas pelo trecho entre Curitiba e Florianópolis. Não foi o ocorrido com muitas pessoas, que demoraram além da conta. Resume o jornalista Ewaldo Arruda: “coloquei a namorada e dois amigos no Passat. Saímos de Curitiba às dez da manhã, os ingressos já estavam comprados com um amigo que esperaria no portão do estádio. Deveríamos ter chegado perto das duas da tarde, mas a cada posto do lado direito da estrada parávamos e comprávamos uma latinha pra cada. Paramos em todos os postos do lado direito quando coincidia da latinha anterior esvaziar. Não sei quantas paradas foram, nem quantas latas. Chegamos a Floripa em torno das nove da noite. Acho que foi o recorde negativo da viagem. Onze horas pra fazer 300 km. Para estacionar o carro, amassei a lataria num poste. Entrei no estádio, deitei na arquibancada e tirei um cochilo. Quando despertei, vi o bis. Vi e ouvi (acordado) só umas três ou quatro músicas. Viva Eric Clapton!”.
A propósito, nenhum dos entrevistados possui registro fotográfico do show ou da viagem. “Na época não havia celular e a gente era louco demais pra essas coisas”, arremata Antonio Vilanova.
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Fotos: divulgação
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Confira o histórico set list do show aqui.