Hells Angels. Violência e racismo na contracultura


A ideia de uma calça jeans, cabelo ao vento e uma moto na estrada não representa exatamente, ou por completo, o espírito das gangues de motoqueiros em sua origem mais seminal

Depois da Segunda Guerra Mundial, as motocicletas começaram a ser fabricadas em modelos novos e mais baratos, o que tornou o motociclismo algo popular nos Estados Unidos e no Canadá.  A tradicional Harley Davidson é a coqueluche de todas, desde sempre. Com isso, clubes de duas rodas viraram uma espécie de mania.

Em 1948, um ex-combatente chamado Arvid Olson, que servira no 303º Grupo de Bombardeio (que tinha um apelido de Hells Angels – Anjos do Inferno), batizou com o nome informal do esquadrão um grupo de motociclistas que estava sendo formado em Fontana, na Califórnia. Assim surgiu a mais famosa e mais emblemática gangue de motociclistas (os chamados motoclubes) da história — a Hells Angels Motorcycle Corporation. O fato curioso é que Olson deu nome ao clube, mas ironicamente nunca foi um membro.

Nos anos seguintes, os Hells Angels ganharam destacamentos por toda a Califórnia — onde até hoje estão suas raízes mais fortes — e se espalharam por todos os Estados Unidos. E até hoje trazem sob a insígnia da “cabeça da morte” (a “logomarca” do grupo) muitas lendas e controvérsias a seu respeito.

Para além da natural mitologia de uma “gangue de motoqueiros”, de ser simplesmente uma história acerca de estrada, personagens folclóricos e muita emoção em alta velocidade sobre duas rodas, os Angels trazem em si uma narrativa das subculturas, e tudo que as envolvem: traição e lealdade, amizade, e principalmente a “liberdade acima da lei” — e da ordem, muitas vezes.

Em 1966, o jornalista Hunter S. Thompson publicou seu primeiro livro: Hell’s Angels – Medo e Delírio Sobre Duas Rodas (Hell’s Angels – The Strange and Terrible Saga of the Outlaw Motorcycle Gangs). O registro inaugura o gonzo journalism. O termo “gonzo” surgiu através novo jornalismo já exercido por nomes como Gay Talese, Truman Capote e Tom Wolfe, que aliava técnicas literárias de narrativa ao jornalismo. Para além, Thompson ainda se insere no evento em questão. Em outras palavras: além de narrador é também personagem dos fatos. E tal e qual sem grande preocupação com a objetividade.

Através do relato de Thompson, o leitor acaba tomando contato não somente com o discurso dos Angels, mas digamos que “veste a jaqueta” dos caras. Sob um caleidoscópio da vivência cotidiana, da troca e da convivência, nem sempre fácil, nem sempre pacífica, destes motoqueiros.

Além das tradicionais jaquetas de couro sem mangas, indumentárias como capacetes nazistas e suásticas, motos mexidas e envenenadas, a caveira alada (que parece vestida com um cocar indígena) chamada “cabeça da morte”, sob o som de blues e rock’n roll, constituem a salada de elementos que acaba por definir a paradoxal e contraditória vida dos Hells Angels, analisados por Hunter Thompson. Dá pra gente chamar tudo aquilo de uma cultura de guerra com trilha sonora de paz e amor, ou uma atmosfera de contracultura hippie com indumentária beligerante.

O fato é que a existência e a história dos Hells Angels, quando vistas de perto, como é o caso do livro de Hunter Thompson, transformam completamente o imaginário de quem vê o motociclismo como simplesmente um libelo de “liberdade, estrada, cabelo ao vento, gente jovem reunida”, aquela conversa fiada toda.

Todo mundo sabe que os anos 1960, apesar de serem marcados pelo lema “paz-e-amor” ou “faça-amor-não-faça-guerra” da cultura hippie, foram antes de tudo os anos sangrentos de luta por liberdade, repressão, guerra, violência e preconceito. E é claro que o Verão do Amor de 1967 uma hora ia ver sua ausência de protetor solar cobrar seu preço. E as queimaduras não seriam fracas, mas quentes como o escapamento de uma Harley.

Segundo matéria escrita para a revista Rolling Stone por Paulo Cavalcanti, em 2013, “hoje, para se tornar membro dos Angels é preciso ter licença de motorista, possuir uma máquina que tenha acima de 750 cilindradas e apresentar ficha policial limpa. Mas ser aceito não é algo simples. O membro em potencial precisa passar por uma iniciação: deve ser apresentado por um membro e fica um tempo “circulando”, se familiarizando com os integrantes de várias facções. Enfim, ganha o título de “associado”, situação que dura cerca de dois anos. Após uma longa avaliação, o nome do candidato vai para a votação, e ele só ganha o direito a se tornar membro se for escolhido por unanimidade. Finalmente, o novo Angel ganha o direito de usar na jaqueta a conhecida insígnia vermelha e branca com a indefectível “cabeça da morte”.

Outra curiosidade, apesar de pouco referida, por razões óbvias: não há negros entre os Hells Angels, historicamente. Alguma exceção há de surgir, é claro. Mas não é segredo mesmo entre os membros que um dos pré-requisitos é ser branco. Quanto à ficha limpa, isso é recente. É notório o envolvimento dos Angels com tráfico, armas e a máfia, desde os anos 1950.

Em 1969, em meio à febre causada desde Monterrey (1967) e com auge em Woodstock naquele ano, festivais de toda sorte se espalham pela América e pelo mundo. Mick Jagger começava a tomar as rédeas dos negócios dos Rolling Stones. O guitarrista Brian Jones havia recentemente falecido por excesso de barbitúricos e a banda trabalhava o álbum Let it Bleed (1969).

Em turnê pelos EUA, após um show no Madison Square Garden, Jagger tem a brilhante ideia de realizar um show gratuito no deserto da Califórnia, em uma região próxima a São Francisco, no autódromo de Altamont. Após pequenos acertos para definição do local, convidam diversos artistas para aquilo que seria o Altamont Free Concert. Carlos Santana, Grateful Dead e Jefferson Airplane entre eles.

Mas Jagger teve outra ideia, nada brilhante. Na ausência de dinheiro, dada a gratuidade do evento, convidou os Hells Angels para serem seguranças . Os motoqueiros garantiriam a paz e a ordem a troco de…. cervejas.

O resultado é conhecido de todos. 300 mil pessoas compareceram em 6 de dezembro de 1969 no Altamont Speedway para o concerto. Houve confusão do começo ao fim, com os Angels praticamente tomando conta do palco, provocando artistas de natureza mais hippie, especialmente a cantora Grace Slick do Jefferson Airplane, até que durante o show dos Stones uma briga generalizada tomou corpo e um rapaz negro foi assassinado a facadas.

Os cineastas Albert e David Maysles gravaram cenas do festival e as incorporaram ao documentário de 1970 Gimme Shelter. O filme relata toda negociação desde NY até o dia do concerto/confusão. Uma preciosidade para se entender como acabaram aqueles anos de loucura, abertura da mente, expansão da consciência e liberdade. Uma ótima deixa para se entender todo hedonismo que marcaria a década seguinte.

Os Hells Angels ainda estão por aí, com ramificações no mundo todo. Junto com eles há muitos grupos de motociclistas. Alguns rivais entre si, violentos. Outros nem tanto. A maioria pacíficos, formado por senhores aposentados com ótimo poder aquisitivo, de meia idade e amantes da motocicleta e da estrada.

Praticamente todos, quase sem exceção, reacionários e apoiadores de governos de extrema-direita, inclusive protagonizando recentemente as tais “motociatas” junto ao atual presidente da república do Brasil, abertamente apoiado por grupos fascistas e neonazistas.

Sempre sob o slogan: “quando fazemos direito, ninguém lembra. Quando erramos, ninguém esquece”.

Tirem suas próprias conclusões.

Ouça. Leia. Assista:

Gimme Shelter (1970) – documentário

Hell’s Angels – by Hunter S. Thompson (PDF em inglês)

Mitos e verdades sobre os Hell’s Angels – reportagem Rolling Stone

Fotos: reprodução