Intimidade

WagnerRengel

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Juarez acordou cedo, foi ao banheiro, se olhou no espelho e perguntou:

–Será que é comum, na minha idade começar a não dormir mais como antes, levantar no meio da noite para ir ao banheiro, para virar de lado, para parar de pensar? Será que buscam o relógio como eu às quatro e trinta e sete, se têm pesadelos abruptos e acham que por pouco não morreram de um coração que parou assim, sem mais nem menos, se sentem um pavor, uma inutilidade, uma necessidade de basta e não basta mais sentir nada, se sentem que precisam agir, fazer, mudar, largar, agarrar com tudo e não conseguem. Será?

Será que bebem um copo de água antes de dormir e assim que levantam,não por sede e sim por medo? Me pergunto se na minha idade essa coisa de não dormir mais uma noite inteira é um não estar só na madrugada e naquela mesma hora milhares se reviram moribundos em pensamentos apavorados?

Sim ou não? As duas respostas me incomodam. Se uma, não estou sozinho e não quero ser só mais um por um resto do que sobrou de uma vaidade que ainda tenho. Mas, é também um alento,  quem sabe, ter parceiros para um lamento novo e justificado por uma entrada na quase meia idade, metade, contagem do tempo que findará, queda de hormônios talvez, talvez, dores dos ossos, cartilagens, dentes, olhos, vícios que já são antigos, coluna, resmungos iguais e a única novidade é o encontro num pesar em comum.

Se outra, um segredo que causa uma hesitação em revelar, se serei compreendido, acolhido ou terei novas receitas, dicas, mapas que os mais novos que nem sabem aonde estão querem me dar.E talvez saibam de algum outro que não conheço que também anda assim e que não me servirá para nada. Bah, sendo assim, prefiro a dúvida e já me vejo olhando nos olhos dos desconhecidos e julgando que sim, esse anda vivendo o inferno do silêncio, esse não, aquele já não aguenta mais e com certeza outro ali ainda não se deu conta de onde entrou, sem volta.

Juarez anda acordando cada vez mais cedo, cada vez mais. Simplesmente levanta, ergue o corpo que não diz mais nada.

– Esse meu corpo só grita. Esses meus dentes e o ardido do creme dental que sempre chamei de pasta de dente e me engana, eu sei,me lacrimeja e me acorda. Tudo é um grande engano. Todos os dias. Essa água fria, cedo, sou bicho civilizado, eu tenho água encanada. Eu devia marcar um dentista, um dermatologista, que essa pele já tá fudida e um pneumologista sim, que preciso parar de fumar e não falo mais disso com ninguém e logo eu consigo fracassar de novo até que fracasse de vez e se for tarde demais?Essa água gelada trinca minha pele e parece que minha cara vai cair, aos pedaços como torrões de barro, deixando à mostra quem eu sou de verdade. Quem eu sou de verdade?  No inverno não lavo o rosto. Alguém lava ou só eu que não? Que diferença faz?

Para Juarez, intimidade são pensamentos.

– Sim. É como essa minha escova de dentes, esse espelho, essa água fria, esse cuspe cheio de pasta, essas noites mal dormidas, essa ânsia, esse medo, essa exaustão já de manhã. Intimidade é o que se pensa da pele na resposta desse do espelho.

O resto, o resto é público, é sorriso, bom dia, passa o açúcar, beijo, vou trabalhar, metas, esforços, derrotas, rotinas. O resto. Essa maquiagem em que se desaparece atrás dela, se esconde, defesa para que se tenha um íntimo, privado, as rugas, direito de escolha se diz ou não, se mostra ou não.

O espelho, já não aguentando mais, comentou:

– Não sei se há escolha. Muito mais uma pressão de dentro, um calor que seca os torrões de barro dessa sua cara rachada, trincada, caindo. Aí é só grito e nada.

– Será que só eu que nessa idade perdi o sono inteiro?

– Coisa de idade? Claro que não. É coisa de outra coisa, de angústia, de uma voz que te acorda sempre que abaixa a guarda, quando dorme.

– É íntimo. Não dormir a noite inteira é íntimo demais. Cadê minha roupa?

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