Jean Luc


A simpatia pelo demônio e a luz da lanterna mágica, empunhada pelas mãos de quem estava realmente à frente

O que mais vem à memória são as imagens de Sympathy for The Devil (ou One Plus One) com os Rolling Stones compondo, arranjando e gravando a canção que abriria naquele ano icônico de 1968 o álbum Beggars Banquet da banda.

Mick Jagger empolgado apresentando ao violão o lá-ré-mi incipiente que perfaz a base da canção que acabara de conceber, sobre ritmos que “trouxe do Brasil”, após conturbada viagem que ele, Keith Richards e as esposas empreenderam. Com direito a réveillon em Copacabana, confusão no hotel e estadia forçada na chácara do banqueiro Moreira Salles em Matão, interior de São Paulo, em retirada estratégica. Viagem na qual tomaram drogas e contato com as duplas caipiras e suas afinações inusitadas, além das batucadas demoníacas que viriam a inspirar a percussão inicial da música em questão, direto de Salvador na Bahia para onde se dirigiram logo depois, e das escolas dos morros cariocas. Uma salada. Uma história mal contada. Tudo a ver.

Jean Luc Godard pediu e os Stones aceitaram. Vamos filmar tudo. Fiquem à vontade. Como fosse possível estar à vontade em Londres, 1968.

À parte (bande à part?), o baixista Bill Wyman se contenta com algumas maracas, Charlie Watts vai tentando entrar no ritmo, prestativo e sóbrio como sempre à bateria, enquanto Keith toma conta de tudo, procurando encontrar as linhas de baixo e guitarra. À revelia de Brian Jones, que já se encontrava em processo de derretimento (acossado?), sempre alheio, pelos cantos do estúdio. Ainda o convidado Nick Hopkins (pierrot le fou?) capricha em levadas boogie woogie ao piano.

E os Panteras Negras em forte discurso pró luta armada. Elogios ao comunismo e não menos força na retórica contra o establishment dos EUA. Mais uma entrevista de uma garota ironicamente chamada Eve Democracy, com a inesquecível frase “o revolucionário precisa esquecer o intelectual”, não exatamente em tais palavras. Elogios a Mao Tsé Tung. Tudo sob o exercício do jump cut constante — expediente inovador do diretor, desde seu A Bout de Souffle (Acossado, 1959), aquele mesmo no qual Jean Paul Belmondo faz as vezes de “demônio” na vida de uma estonteante e “americanizada” Jean Seberg.

A versão de Godard para esse esquema com os Stones chamou-se One Plus One. A dos produtores (mudaram muito pouco) ficou como a conhecida Sympathy for the Devil. O nome da canção, afinal. Houve briga. Mas Jean Luc não ligou muito. Ele enxergava a América e os Panteras Negras como o centro nervoso da revolução. Era o que importava.

A relação com o rock era de puro fascínio. No mesmo ano de 1968, Godard foi aos Estados Unidos, em outubro. Antes do famoso show dos Beatles em um terraço no ano seguinte em Londres, filmou uma performance semelhante do grupo psicodélico norte-americano Jefferson Airplane. Foi sobre o telhado do hotel Schuyler na 45th Street em Manhattan, Nova York. A banda liderada por Grace Slick tocou a música House at Pooneil Corners, em versão pauleira, com distorções, e muito alto. A apresentação foi interrompida pela polícia após 7 minutos. Era para ser um filme, mas o projeto foi abandonado e lançado timidamente depois, em 1972, sem a participação do diretor — que não utilizou equipe alguma e fez as vezes de câmera também —, sob o nome de One AM. (One American Movie).

O artista foi ainda às manifestações em Chicago na época do julgamento dos chamados 8 de Chicago, de uns caras que haviam participado de protestos que resultaram em muita violência, basicamente uma reação dos manifestantes contra a opressão da polícia, durante a convenção nacional do Partido Democrata havia pouco tempo. Sempre penso que ele poderia ter encontrado o MC5 num desvio por Detroit, do outro lado do lago Michigan. Mas é delírio.

Godard é lutar contra qualquer espécie de lugar que o cinema ocupe em nossos corações e mentes. Aquilo que a sétima arte significa, como sendo parte de um passado, se este ainda é ou não relevante, e aquilo que o cinema pode significar hoje (estamos em 1968, mas pode ser 2022). Tais questões abstratas são colocadas ao espetador (e ao artista) permanentemente. “Ideia de lugar ao sol não faço / lugar-comum fica em outro pedaço” (este mesmo que vos escreve, há alguns anos).

É o cinema sendo pensado, inadvertida e incessantemente, demostrando como se desenrola em um fluxo de pensamento e, principalmente, como trabalhamos com seus dois elementos principais: a imagem e a linguagem.

Quando é mais importante “instalar” que contar uma história. Glauber — nosso demônio em simpatia — é irmão de Jean Luc, e ambos são irmãos de Sganzerla ou Bressane, como podemos em alegoria colocar Truffaut como irmão mais velho de Walter Hugo Khoury, o brazuka mais elegante de todos. Todos diabos. Uns pobres, outros nem tanto.

Quando se pensa apropriadamente que rock’n roll é além-música, estando mais para uma “instalação sonora”, faz sentido a relação com os Stones. Faz sentido, apesar de ser Godard.

Não sai tal e qual da memória a dancinha contagiante de Bande à Part (1964), coisa mais linda e (enfim!) divertida. Tampouco o empenho que foi assistir Je Vous Salue Marie (1985), em uma sala escondida na faculdade, em fita VHS pirateada sabe-se lá de onde, sem que a polícia soubesse. Consenso: chato pra caramba. Ininteligível. Tá tudo certo. Esse pessoal é muito folgado. Não especificamente este filme, mas Godard como um todo. Diante de tanta beleza, o povo ainda quer entender? Muita pretensão. De ambas as partes, estamos entendidos.

Foi lindo ver Alphaville (1965) e a distopia que agora, vejam só, está aí, aos olhos. E O Desprezo (1963) que sabemos Jean Luc sentia tal e qual. Apreços à parte. Memorável, especialmente — novamente ele! — O Demônio das Onze Horas (Pierrot Le Fou, 1965). Que diabos.

Foi ainda mais bonito ver Anna Karina, Jean Seberg e Brigitte Bardot. As mais belas fotografias da vida. E mais lindo saber tardiamente da luta de Seberg contra o racismo, agora exposta em belíssimo registro de algum streaming por aí. Quem tem olhos pra ver, apenas veja. Em alguma passagem, Jesus de Nazaré disse algo parecido. Pasolini, outro irmão de Jean Luc, sorri do alto de sua eternidade.

A lanterna mágica a que apelidamos o cinema foi à frente de tudo quando empunhada e conduzida pelas mãos deste franco-suíço nascido em 1930, que trabalhou todos os dias até o fim, sem um minuto em que não contestasse qualquer coisa que tivesse forma estabelecida.

No ano da graça de 2022, a luz da lanterna apagou. Ele tinha 91 anos, mas parecia menos. Muito menos. Como uma banda de rock em flor. Como Jagger aos 25, empolgado com seu violão folk demonstrando sua simpatia pelo demônio aos companheiros de banda, fascinado após um Brasil de coisas em 1968.

Jean Luc, mesmo assim, cansado, pediu para morrer. O suicídio assistido é lei na Suíça, onde vivia. GODard, o demônio. Este chato inconcebível, por conceito extremo.

Foi bonito ver.

Vá em paz, Jean Luc. Au revoir. Não! Avant garde.

Merci.

Ouça. Leia. Assista:

One Plus One / Sympathy for the Devil – Jean Luc Godard – online

Bande à Part – Dance Scene

Il Cinema – Jean Luc Godard – livro – Estante Virtual

Jean Luc Godard/Anna Karina – documentário

Imagens: reprodução