Ken Parker. Um faroeste humanista


Criação de Ivo Milazzo e Giancarlo Berardi apresenta temática social que conferiu aos fumetti de faroeste o status de arte

Em algum estado do frio noroeste dos EUA, ano 1868, pouco depois da Guerra Civil, um caubói percorre longo caminho em meio à rala vegetação, em busca dos assassinos de seu irmão, que se esconderam entre os homens do exército yankee. Ele precisa fazer justiça ao mesmo tempo em que se vê inserido em uma verdadeira guerra contra os índios.

Esta é a trama central de Ken Parker, um anti-herói ocidental, graficamente inspirado no Robert Redford de Jeremiah Johnson (Mais Forte que a Vingança, 1972), filme de Sidney Pollack. Como Johnson, ele é um caçador que decidiu fugir das grandes cidades, motivado por vingança, e busca por justiça. Suas histórias se passam principalmente naquela região. O tempo da ação se passa depois que Parker foi forçado a fugir, após participação em algumas greves em Boston, ao longo da fronteira com o Canadá. Já se nota por aqui uma temática completamente diferenciada do que estamos acostumados a ver em histórias de faroeste.

Os temas tratados pela HQ são inusitados para um western. As pautas vão desde homossexualismo, meio ambiente, marginalização dos povos originários da América, religião e justiça. Os roteiros são sempre intrigantes, e colocam dúvidas na cabeça do leitor.

Ken Parker não é um caubói típico como Tex Willer — seu “rival” nos quadrinhos — também de produção italiana emulando o oeste bravio dos EUA. Muito menos de heróis do cinema ao feitio de John Wayne.

Pra começo de conversa: Parker envelhece desde sua primeira história, comete erros e muda de ideia e de objetivo a cada arco proposto pela série. A frase que dá a letra completa é icônica ao personagem: “eu não gosto de matar… nem quando é necessário”.

A série Ken Parker foi criada em 1974 pelos italianos Giancarlo Berardi e Ivo Milazzo, na onda dos fumetti (como são chamadas as HQ em italiano) de faroeste que acabaram conquistando público em todo o mundo. No Brasil, estreou em 1978, pela Editora Vecchi. Foram publicados 53 exemplares até 1983.

A primeira edição, Lungo Fucile (Rifle Comprido) foi publicada pela editora italiana CEPIM. Ken Parker, no entanto, havia sido criado três anos antes em uma revista da mesma editora. A série teve 59 edições. Novas edições surgiram nos anos seguintes e estão constantemente sendo reimpressas na Itália. A publicação regular de Ken Parker cessou, mas ainda é ocasionalmente publicada pela Sergio Bonelli Editore e Panini Comics (inclusive no Brasil).

Ivo Milazzo nasceu em Tortona, Itália, em 20 de junho de 1947. Ingressou na área de quadrinhos junto com Giancarlo Berardi, que se tornou seu principal roteirista. Eles começaram fazendo algumas histórias de Tarzan para o mercado francês em 1971, e então assumiram sua primeira série humorística, Il Palafita, que apareceu na revista Sorry. Entre 1972 e 1973, Milazzo colaborou com a editora Gino Sansoni, desenhando histórias para as revistas Horror e Supervip, além de alguns episódios de Diabolik. Ingressou nos estúdios Bierreci, onde colaborou em quadrinhos da Disney com Giorgio Rebuffi e Luciano Bottaro, além de histórias de Tweety e Silvester para o mercado italiano e francês, novamente com textos de Berardi.

Giancarlo Berardi nasceu em 1949 em Gênova. Ainda como estudante demonstra paixão pelo teatro e pela música, cantando e tocando violão. Começou a trabalhar como roteirista de quadrinhos no início dos anos 70, ao lado de Ivo Milazzo, seu colega de faculdade. Estreia com o conto The Blind, publicado pela revista Fiction, editado por Gino Sansoni e dirigido por Pier Carpi e Alfredo Castelli.

Ao longo dos anos 1980, Milazzo e Berardi fundaram a Parker Editore, e lançaram a Ken Parker Magazine em 1992, que rodou até 1996. A partir de então, as aventuras de Ken Parker apareceram em Ken Parker Speciale.

Pela força inovadora de seus roteiros, pelo enquadramento cinematográfico de seus desenhos, de traço refinado que namora com a pintura, pela ótica diferenciada, pela minúcia que provoca encantamento e faz pensar, e muito especialmente pela capacidade de tocar os temas mais variados e complexos, pode-se dizer que Milazzo e Berardi conquistaram um lugar na narrativa das HQs.

Se o cinema italiano teve seu neorrealismo em meados dos anos 1950, dá pra dizer que em plenos 1970’s o realismo social das fumetti da dupla conferiu a Ken Parker o status de arte.

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Imagens: reprodução