LATINIDADES CURITIBANAS: HAITI

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O Haiti país situado no Caribe, banhado pelo oceano Atlântico e Mar do Caribe (ou Mar das Antilhas), também teve como seus primeiros habitantes povos ameríndios, o que depois daria lugar a uma população em sua maioria de afrodescendentes. O país que em vários momentos da sua história teve contato com povos europeus, inicialmente com os navegadores espanhóis, seguido por franceses e outros viajantes que por lá aportaram, realizou trocas alimentares que resultou no que hoje se conhece por cozinha créole haitiana.

A culinária haitiana, influenciada pelas culturas já mencionadas, em especial pela cultura africana, absorveu também elementos e técnicas de preparo da etnia Taíno (nativos de todo o território caribenho). Esta fusão que deu origem a uma rica e singular cultura alimentar. Usando muitas ervas aromáticas, pimentas e outras especiarias, os pratos haitianos são um convite ao deleite e têm nos aromas e sabores um quê de alquimia que dialoga com os ritos e crenças de grande parte da população.

Semelhante a culinária de seus vizinhos caribenhos a comida do Haiti tem sua apresentação um pouco diferente e conta com uma dieta alimentar baseada no arroz, milho, batata-doce, painço e feijão. Assim como no Brasil, e em outros países tropicais, o haitiano tem grande variedade de frutas o ano todo, entre elas o abacaxi, a manga, o coco e a goiaba, e por isso os sucos de frutas geralmente acompanham as refeições. Apesar de toda essa diversidade, o país tem enfrentado problemas nas últimas décadas com a diminuição do investimento na agricultura e o abandono de terras produtivas em decorrência da forte emigração, o que tem refletido diretamente na alimentação da população.

Como os brasileiros, o haitiano se alimenta feijão e arroz quase todos os dias, uma combinação perfeita que tem preparos distintos no país caribenho. A banana (em especial a banana da terra verde) e o abacate são sempre incorporados a pratos salgados, dando cores e texturas que incrementam a alimentação. As carnes como de porco, de cabra (ou cabrito), os peixes e frutos do mar também figuram nas receitas de acordo com cada região e poder aquisitivo. A comida do dia a dia então, fica por conta do feijão, da banana frita, do arroz com ervilhas, do porco, das raízes, alguma sopa de peixe ou carne, tudo temperado com generosidade.

Com a recente chegada de imigrantes haitianos no Brasil e em outras partes do mundo, é possível conhecer uma pouco mais da cultura alimentar do país através de ações e eventos que têm no conhecimento culinário do imigrante o ponto de partida. Muitos deles mesmo não sendo cozinheiros de profissão trazem consigo todo o conhecimento cultural que lhes permitem apresentar pratos como: Légumes, um prato que leva carne e muitos legumes (por isso o nome); o Mollo, mistura do arroz com feijão (uma espécie de “baião de dois” deles); oMacaroniGratinéHaitien ou macarrão gratinado à moda haitiana sempre presente nas celebrações familiares; a SoupJoumou, uma sopa de abóbora consumida nos domingos ou em dias festivos; o Griot de porc, preparado com carne de porco servido com salada e banana da terra frita.

Para os mais abastados é possível preparar umTassotCréole, de peru, vitela ou bode preparados a partir de um marinado picante, ou ainda pratos à base de lagosta, de bacalhau, etc. Já a comida de rua presente no país e no estrangeiro é o famoso Fritay, um combinado que leva de tudo um pouco, frango ou outra proteína frita, banana da terra também frita, salada e molho picante. Vale lembrar, que quando um imigrante chega a outras terras precisa fazer adaptações alimentares e com isso os pratos podem variar de acordo com os produtos disponíveis. O Fritay por exemplo, em uma de suas versões, pode apresentar até feijão e arroz, concorrendo com nosso prato feito. A comida haitiana, além de matar a fome, traduz a luta e a resistência de seu povo.

 

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LEGUME HAITIANO

POR GABRIELLE PHILOGÈNE

(Serve 4pessoas)

 

Ingredientes

  • 600g músculo bovino cortado em cubos
  • 1 chuchu cortado em fatias longitudinais
  • 1 berinjela em fatias
  • 2 ramos de agrião
  • 2 cenouras em rodelas
  • 1 pimentão verde cortado em cubos
  • 4 cravos da índia
  • 1 limão Tahiti
  • 4 tomates em cubos
  • 50ml vinagre
  • 50ml shoyu
  • 20g mostarda amarela
  • Azeite e sal a gosto

 

Modo de preparo

Tempere a carne com o limão, o vinagre e o sal. Deixe repousar por 20 minutos.

Misture com “Epice”*. Coloque para dourar em panela com bordas altas.

Adicione os pimentões, shoyu, mostarda, azeite e sal. Misture bem.

Sobre a carne com os pimentões, cubra com as verduras (cenoura, chuchu, berinjela e agrião). Deixe cozinhar, sem misturar, por uma hora. Após este tempo, retire o agrião, a berinjela e o chuchu em um recipiente externo. Amasse tudo.

Retiradas as verduras, adicione à carne o tomate picado e cozinhar por mais 30 minutos. Retornam à panela, junto com a carne, as verduras amassadas e seguem cozimento por mais 20 minutos.

Sirva com “DiriPwa” (arroz com feijão, cozido como baião de dois). Veja a receita:

 

Ingredientes DiriPwa

  • ½ pimentão verde em cubos
  • 300g feijão preto
  • 300g arroz branco

 

Modo de preparo

Refogue o pimentão com o Epice* e acrescente o feijão para cozinhar juntos em panela de pressão. Retire o feijão ao dente e adicione o arroz, cozinhando por mais 25 minutos.

 

*Epice(Tempero base para a preparação de pratos haitianos)

  • 5 pés de alho poró
  • 10 dentes de alho
  • 3 pimentões verdes
  • 3 maços de salsinha
  • 6 pimentões vermelhos
  • Azeite e vinagre a gosto

 

Bata tudo no liquidificador e mantenha refrigerado para temperar as receitas que desejar.

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Sobre Gabrielle Philogène

 

Gabrielle era estudante de Enfermagem no Haiti e veio para o Brasil com a oferta de uma bolsa de estudos em Agroecologia. Ao chegar aqui, não teve suas expectativas cumpridas. A maioria dos estudantes que vieram com ela na ocasião mudaram de país. Gabrielle, por sua vez, permaneceu em Curitiba, onde acabou por constituir sua família. Casada e com 3 filhos, hoje dedica-se ao cuidado do lar e busca emprego.

 

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PORQUE COMIDA É CULTURA!

Equipe: Lai Pereira (coordenação geral), Marcelo Empinotti (curadoria), Meg Mamede (pesquisa histórica e textos), Juana Dobro (fotografias e entrevistas), Rádio Cultura de Curitiba (edição e veiculação)

 

PROJETO REALIZADO COM O APOIO DO PROGRAMA DE APOIO E INCENTIVO À CULTURA – FUNDAÇÃO CULTURAL DE CURITIBA E DA PREFEITURA MUNICIPAL DE CURITIBA