Uma das maiores dádivas cômicas de todos os tempos aconteceu graças a um encontro casual entre um americano e um inglês nos tempos românticos de Hollywood. No show business por três décadas após seu primeiro encontro em 1921
As chances de a dupla se encontrar eram bem pequenas, considerando que Laurel nasceu em Ulverston, Cumbria no English Lake District e Hardy nasceu em Harlem, na Geórgia. Embora os dois comediantes tenham se interessado cedo em atuar, eles estavam separados por mais de 8 mil km, em um tempo no qual viajar não era tão simples quanto embarcar em um avião.
Mas o destino entrou em cena. Sem o acaso, o mundo jamais teria conhecido alguns dos maiores esquetes de pastelão da história, e o gênero teria perdido uma de suas maiores influências.
Nascido em uma família teatral, Arthur Stanley Jefferson veio ao mundo em 1890. Seu pai era um empresário que foi proprietário de alguns teatros no norte da Inglaterra e na Escócia. A família mudou-se para Glasgow em 1905 para ficar mais perto de seu negócio, o Metropole Theatre. Laurel fez sua estreia no palco no Britannia Panopticon, pouco antes de completar 16 anos de idade.
Ele ingressou na companhia mambembe Levy and Cardwell, o que o levou a Londres. Com o tempo, foi contratado como ator coadjuvante, na companhia do empresário Fred Karno. Pouco depois, Stanley destacou-se e foi indicado como substituto de outro comediante londrino: um certo Charlie Chaplin.
Do outro lado do Atlântico, Norvell Hardy, nascido em 1892, era dono de uma voz que encantava meio mundo, quando tinha 15 anos de idade. Talento que o levou a se tornar um cantor de operetas na adolescência, sob o nome artístico de Oliver. Era o nome de seu pai. Sua mãe era dona de um cinema que o jovem o administrava para ela. Ollie assistiu muitos filmes mudos, a grande maioria de comédia, o que o levou a se interessar pelo gênero.
Em 1913, Hardy conseguiu um emprego em Jacksonville, na Flórida, trabalhando para a Lubin Motion Pictures. Inicialmente, ele ajudou no estúdio com adereços e iluminação, enquanto aprendia a ser um supervisor de roteiro. Em 1914, aos 22 anos, foi oferecido a ele um papel em um filme chamado Outwitting Dad . Ele usou o nome artístico de Babe Hardy. Foi um grande sucesso, que o levou a ser contratado para estrelar uma série de curtas-metragens com a Vim Comedy Company até 1917. Sua versatilidade o levou a interpretar vilões, heróis e até personagens femininos cômicos. Ollie já era uma estrela do cinema mudo de comédia.
Enquanto isso, na Inglaterra, Laurel, aos 22 anos, foi convidado para uma turnê pelos Estados Unidos em 1912 com a Fred Karno Troupe. Era para ser uma viagem curta, com Laurel planejando voltar para Londres em breve, mas em vez disso decidiu emigrar. A exemplo do conterrâneo Chaplin, se envolveu com a indústria cinematográfica. Fez sua estreia no cinema em 1917 com Nuts in May, dirigido por Robin Williamson, quando começou a usar o nome artístico de Stan Laurel. Ele estrelou em mais de 50 filmes por conta própria antes de conhecer Hardy.
Laurel e Hardy eram atores consagrados antes de finalmente se conhecerem. Ambos estiveram envolvidos na indústria de cinema de Hollywood por vários anos, com Hardy tendo estrelado mais de 250 filmes. Foi uma escalação de ambos para o filme The Lucky Dog, produzido pelo estúdio Hal Roach em 1921, que finalmente os uniu. O esperto Roach sacou no ato: estava ali uma das melhores duplas que já havia visto. E que viria a ser a maior dupla de comediantes do mundo.
No filme, Laurel interpreta um homem deprimido que é despejado por não pagar o aluguel. O personagem encontra um cachorro na rua. Ele esbarra em um ladrão (interpretado por Hardy) que está no meio de um assalto. Seus caminhos se entrelaçam ao longo do filme e, mais tarde, Laurel começa a conversar com a dona do cachorro (um poodle) cujo namorado ciumento pede a ajuda de Hardy para “dar um jeito no carinha”. As coisas pioram quando Hardy tenta explodir Laurel com uma banana de dinamite, mas o cachorro entra em ação, perseguindo Hardy e o namorado ciumento, salvando a vida de Laurel.
Embora Laurel e Hardy interpretassem personagens separados (e antagonistas) The Lucky Dog, ainda longe da dupla inseparável que as pessoas aprenderam a conhecer e amar, foi a partir deste acaso que passaram a trabalhar definitivamente juntos. Estrelaram um total de 107 filmes, a grande maioria com grande sucesso.
Oficialmente conhecidos como Laurel & Hardy — O Gordo & O Magro no Brasil e Bucha & Estica em Portugal — eles causaram grande impressão logo de cara. Laurel tinha altura e peso medianos, mas Hardy era um homem montanha, com 1,80m de altura e pesando 110 quilos, gordinho, mas não muito, ao menos nos primórdios. Na comparação, pareciam de fato um cara gordo e um outro magro.
Eles logo desenvolveram características próprias, como a tradicional franjinha de Hardy grudados na testa e o bigode “escova de dente”, ou “bucha”, em contraste com o penteado arrepiado de Laurel e o andar desajeitado de pés .
Seguiram-se filmes inesquecíveis. Sua parceria cinematográfica continuou até 1955, quando Stan Laurel e Oliver Hardy fizeram sua última aparição pública no programa de televisão da BBC, This is Music Hall. Em junho de 1955, seu primeiro diretor de cinema, Hal Roach, deveria começar a filmar uma série de programas de TV de uma hora de Laurel e Hardy.
Hardy teve um AVC em 1956, ficando paralisado e acamado por vários meses, sem falar e se mover. Em agosto de 1957, morreu, aos 65 anos. Laurel entrou em depressão profunda e se recolheu até a própria morte, por ataque cardíaco em 1965. Tinha 74.
O acaso os uniu para além do trabalho, mas em grande amizade. O cinema agradece.
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Ouça. Leia. Assista:
O Gordo e o Magro – Distraído (1930) – dublado
Dois Palermas em Oxford (1940)
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