Lawrence Ferlinghetti e a City Lights Books


Livraria icônica era a casa principal do poeta. E também seu maior feito. A loja ajudou a mudar o mundo

Quando em 2003 Lawrence Ferlinghetti fechou momentaneamente as portas da City Lights Bookstore em protesto contra a invasão norte-americana do Iraque, a distinta loja estava completando 50 anos de atividades. Meio século de uma pequena edificação na baía de São Francisco que mudou os rumos da literatura americana e influiu decisivamente na contracultura dos anos 1960.

Aberta pelo jovem Ferlinghetti na ensolarada Califórnia, quando este contava 33 anos de idade, junto com seu amigo Peter D. Martin em 1953, a ideia inicial não parecia nada promissora, em que pese a inegável originalidade: uma livraria full-paperback. Ou seja, uma loja exclusiva para livros de bolso, edições baratas. Aquelas que se vendiam em postos de gasolina. Só que com boa literatura. Peter sugeriu o nome City Lights, inspirado naquele filme de Charles Chaplin.

Martin, que a exemplo de Ferlinghetti também era artista plástico, logo desistiu do negócio. Na avenida Columbus 621, esquina com a Broadway, na fachada de um velho armazém condenado pelo terremoto de 1906, depois restaurado, a City Lights foi dividindo o espaço com algumas outras lojas até se apropriar do prédio todo e seus três pisos. Assim nasceu a livraria mais famosa da América. E até hoje uma das mais conhecidas do mundo inteiro.

Ponto de encontro beatnik nos 1950-60, de happenings, leituras e lançamentos, a livraria de Lawrence Ferlinghetti acolhe literatura e cultura do mundo inteiro, há quase 70 anos. De frente para o Embarcadero, rua abaixo, que provê navegações ao Pacífico, parece estar sempre de portas abertas ao movimento de ida e vinda de informação, produtos e alimentos – inclusive para a alma. Algo que deu certo tom à contracultura que viria na década de 1960. Curiosamente, a Columbus Avenue começa na outra ponta, em uma pequena praça chamada Joseph Conrad, homenagem ao navegador e escritor, autor do Coração nas Trevas e Lorde Jim.  O beco que corre atrás da loja chama-se Jack Kerouac Alley. Homenagem singela a um velho amigo. Mas foi na condição de editora que a “City Lights Booksellers” deu sua maior contribuição para o despertar da beat generation. 

Em 1957, Ferlinghetti publicou O Uivo, de Allen Ginsberg. Logo de cara, enfrentou problemas com a censura e a justiça da Califórnia. O caso acabou por chamar atenção e transformou o livro em best seller e clássico instantâneo. Absolvidos pela Corte, nada mais poderia parar a City Lights. Os diretores Rob Epstein e Jeffrey Friedman levaram a história do julgamento para as telas de cinema, com o filme Uivo (Howl, 2010), que apresenta James Franco no papel de Ginsberg e Andrew Rodgers como Ferlinghetti. O advogado Jake Ehrlich é interpretado por Jon Hamm (o Don Drape de Madmen).

O resto da história é mais ou menos conhecido. São Francisco transformou-se na meca da contracultura, a partir também do romance experimental On the Road, de Jack Kerouac, que narra a saga estradeira rumo à costa oeste dos EUA e “Frisco” como destino. Lawrence Ferlinghetti publicaria ainda em 1958 Um Parque de Diversões da Cabeça, que o transforma em um ícone definitivo da literatura beat. Ferlinghetti nunca gostou do rótulo. Recusou inclusive os originais do On the Road de Kerouac e o Naked Lunch, de William Burroughs. Mas sempre manteve relações estreitas com todos os escritores daquela geração.

Na City Lights é possível entrar e ler um livro inteiro sem ser repreendido por um vendedor. Não há café nem bar, apenas um ponto de encontro onde é possível também comprar livros. Mas antes de tudo, pensá-los, conversar sobre, discutir, conspirar e descobrir. Muito especialmente na poetry room, que fica no último andar, um espaço com lareira e poltronas, destinado a leitura e bate papo. Outra observação interessante: a City Lights não possui wi fi. Há um aviso na porta pedindo para você deixar o celular desligado e desfrutar do universo que a livraria oferece.

Até poucos dias passados ainda era possível encontrar o próprio Lawrence Ferlinghetti, com seus 101 anos de vida, atendendo e recebendo as pessoas para animadas conversas na livraria. Ferlinghetti morreu em 24 de fevereiro de 2021. Sua importância é impossível de medir.

Fotos: reprodução

Ouça. Leia. Assista:

Uivo (filme, 2010)

Site da City Lights Books

Um Parque de Diversões Da Cabeça (livro, Lawrence Ferlinghetti, 1958)