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I
Vi você enfiando a mão dentro do saco de pipoca e passando o dedo no sal e depois lambendo. Você me olhava e sorria e a gente ria de coisas que não lembro. Não importa. E você amassou o pacote de papel e lançou na lixeira. E errou. Teve que ir buscar e tentar de novo, mais de pertinho, imitando uma jogadora de basquete e acertou. Não foi de chuá, bateu no aro, você disse. Rimos feito alegres lá no calçadão da XV. Peguei na sua mão e pisquei para você e você retribuiu a piscada mandando um beijo. Rimos mais feito apaixonados.
II
Lembra daquele dia em que a gente sentou naquelas pedras e ficou olhando o mar? Estava frio e a gente tem uma foto com casacos e os cabelos bagunçados. Ventava, lembra? A gente ficou ali ouvindo o barulho das ondas quebrando nas pedras, tinha gaivotas passando, era fim de tarde e o sol se punha lá do outro lado. Não conversamos, só ficamos ali, testemunhas do mar, um do outro e das pedras resistentes contra o insistente mar. E na hora de ir embora eu te dei a mão para você passar de uma pedra para outra. Lembra?
III
Lembro que você estava linda na porta da igreja. Nosso filho num impecável terno. A gente não podia se olhar senão chorava. Ninguém podia se olhar senão chorava. Deu tudo certo, lembra? Foi lindo. Sim, eu exagerei na bebida, sim. Mas, lembro de tudo. A festa estava linda e dançamos muito. Você tirou os sapatos e voltou ao seu tamanho. Faz tempo, eu sei. Só lembrei daquele dia hoje de manhã quando me vi no espelho. A vida até aqui foi boa. Mas, você lembra?
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