Há muitos discos que foram concebidos a partir de músicas deixadas de lado em trabalhos anteriores, cujo resultado acabou por torná-los inesquecíveis, seja pela crítica, seja pelo público
Desde que a música se tornou de fato uma indústria bilionária, nos anos 1960’s, era tal e qual industrial a criação de canções inéditas pelos mais diversos grupos e artistas que compunham aquele caldeirão efervescente. Fez-se praticamente obrigatório lançamentos anuais de novos álbuns. Muitas vezes até mais de um título por ano. E eram poucos os artistas que escapavam dessa obrigatoriedade.
Mas, mesmo a gênios comprovadamente profícuos como John Lennon, Paul McCartney, Ray Davies, Pete Townshend, Paul Simon, Bob Dylan e algumas dezenas de outros, às vezes faltava tempo ou mesmo inspiração para dar conta de tamanha demanda. Quando adentram os 1970’s e a indústria passa a sufocar ainda mais seus criadores máximos, estes mesmos criadores já dispunham de alguns milhões em suas contas bancárias, o que não impunha tanta necessidade, fazendo-os preferir a qualidade e a tranquilidade para compor e lançar obras inéditas com o conceito que melhor lhes aprouvesse.
Mas havia a cilada dos contratos assinados. O que muitas vezes impunha um lançamento anual ao menos. E a solução encontrada não raro foi a utilização de material preterido em álbuns anteriores que ficou pra trás, as chamadas “sobras de estúdio”. Assim foram lançados alguns álbuns de grandes grupos, meio que “enganando” o mercado, com material inédito, porém não concebido para um álbum originalmente.
Acontece que alguns destes álbuns acabaram se tornando clássicos dentro da própria discografia destes artistas já consagrados à época. Não confundir com indecências recentes como Endless River do Pink Floyd, lançado em 2014 quando a banda sequer existia mais na prática, com a conversa mole de “novo álbum”. Estamos falando de títulos lançados com os artistas em plena atividade, que por acaso consistiram de tornarem-se álbuns conceituados e definitivos dos mesmos, em que pese terem sido construídos a partir do “lixo” deixado pra trás por eles próprios à época.
O primeiro grande exemplo mais conhecido foi lançado em 1970. Ano do fim dos Beatles. Let it Be era pra ser um álbum em 1969, pouco depois de vir à luz o Álbum Branco. O material composto (executado ao vivo) foi deixado de lado, e logo em seguida veio o Abbey Road (1969), este sim considerado o “último” disco do quarteto de Liverpool ainda reunido. Mas, antes do anúncio da separação definitiva do grupo, a Apple arrumou tempo para imprimir Let it Be.
O álbum fora pensado anteriormente para ser parte de um filme documentário chamado Get Back. Longe de ser considerado pela crítica um dos melhores álbuns dos Beatles, Let it Be no entanto é portador de algumas das obras mais executadas, como a faixa título e ainda Get Back e Across the Universe. Além de ter uma das capas mais reconhecidas e reproduzidas em camisetas e pôsteres até os dias de hoje. Grandes confusões permearam seu acabamento, com Lennon e McCartney mais os produtores George Martin e Phil Spector não concordando quanto ao resultado final, e McCartney ainda realizando a versão “naked” do álbum, por conta própria, com o acabamento que preferira. Por ser o último álbum da discografia da banda, e por todas as questões elencadas, pode ser considerado um “clássico”.
Em 1973, The Who vivia um grande auge, ainda surfando na onda do grande êxito de Who’s Next (1971), e em plena Quadrophenia (1973). Roger Daltrey, Pete Townshend e Keith Moon estavam então envolvidos nas filmagens da versão cinematográfica de Tommy. Sozinho, o baixista John Entwistle resolveu apanhar material gravado pelo grupo desde 1964, nunca aproveitado e reunir em um álbum. Foi concebido então Odds & Sods (1974). O álbum não consta na discografia “oficial” da banda. Foi pensado para combater a grande pirataria que se alastrava pelo material inédito e ao vivo do The Who, bem como de outros grupos. Acabou não cumprindo seu papel, pois chegara atrasado ante a voraz pirataria. É, no entanto, a reunião de grandes pérolas como a faixa Postcard. Disputado a tapas por colecionadores até os dias de hoje.
O Led Zeppelin começava a se enfiar na heroína em contraponto ao auge da carreira e os megaconcertos que realizava. Paradoxalmente, dava um grande passo na direção da independência do mercado fonográfico com a criação da Swan Songs, seu próprio selo e gravadora. O primeiro lançamento tinha de ser avassalador e marcante. Jimmy Page, produtor dos álbuns do supergrupo, tinha “garrafas vazias” para vender, no entanto. Muito mais que apenas sobras, havia material inédito pré-gravado com a intenção de compor de fato um novo álbum. Desde 1972.
Em 1975 é lançado o álbum duplo Physical Graffiti, primeiro registro da Swan Songs. Jimmy reuniu todo material gravado e não aproveitado nos últimos 4 anos e o grupo realizou aquele que por muitos é considerado a obra definitiva do Led Zeppelin. Uma cruzada entre o hard rock estabelecido pela banda em seus álbuns anteriores e o rock progressivo. A capa, uma das mais criativas da história do rock. Physical Graffiti é um clássico oficial e permanente.
Os Rolling Stones terminaram a década de 1970 com o pouco aclamado Emotional Rescue, e pareciam não ter mais bala na agulha para novos petardos como foram Sticky Fingers, Exile on Main Street, Black & Blue e Some Girls, entre outros menos votados do período.
Lançaram então Tattoo You (1981). Um álbum recheado principalmente por sobras de várias sessões de gravação deixadas de lado nas seleções para composição de repertório de discos anteriores. Algumas gravações já contavam 10 anos passados, e foram trabalhadas com novos vocais e overdubs. Apenas Neighbours e Heaven foram compostas propriamente para o novo trabalho. O resultado é primoroso, pop e revigorante. Coloca a banda em ponto de bala para a grande turnê que viria, e que resultaria no ao vivo Sill Life (disco e filme) dois anos depois. Tatoo You acabou por ser um dos maiores êxitos comerciais dos Stones em muitos anos. Garantiu a década de 1980 para a “maior banda de rock’n roll do planeta”. Muitos o consideram seu último álbum significativo. Faz sentido.
Como estes, há muitos exemplos de álbuns concebidos com sobras. Nem todos tiveram a sorte de se tornar um clássico. Mas fique de olho. Você sempre pode encontrar um lixo que é luxo por aí.
…
Ouça. Leia. Assista:
Tattoo You (full álbum)
Odds & Sods (full álbum)
Physical Graffiti (full álbum)
Let it Be (full álbum)
…
Imagens: reprodução