Manson Family: o fim do flower power


1969 marcou o fim do “verão do amor” iniciado em 1967. Enquanto festivais de música e paz  mudavam o estado de consciência de toda gente, uma América obscura começava a surgir. A Família Manson foi seu símbolo mais evidente

Na madrugada de 8 para 9 de agosto de 1969, em Los Angeles, um grupo de fanáticos da seita liderada por Charles Manson invadiu a mansão de Roman Polanski, na Cielo Drive número 10050 – Bel Air – Hollywood. O grupo matou sem piedade a atriz Sharon Tate, esposa do cineasta que viajava a trabalho, grávida de 8 meses. Foram 16 facadas. Outros 4 amigos de Tate foram mortos no local. Um deles foi esfaqueado e baleado antes, à entrada da casa, e morreu. Seu nome era Steven Parent, e estava indo visitar aos amigos (recém conhecidos) na mansão. Sem documentos, Parent foi enterrado como não-identificado, até que o caseiro o identificasse, após imensa confusão e desencontro de informações.

Na noite seguinte os hippies malucos foram ao bairro Los Feliz, invadiram a casa do casal Leno e Rosemary LaBianca, escolhida ao acaso, amarraram e assassinaram a ambos, por ordem de Manson. Os corpos foram descobertos dias depois.

Nada havia sobre os casos que chocaram a sociedade. A ligação entre ambas as carnificinas se dava por pichações feitas com sangue nas paredes, onde liam-se termos como “Helter Skelter” e “pigs” (porcos), entre outras.

Helter Skelter foi a grande inspiração de Manson para a barbárie. Uma interpretação pessoal para a canção homônima dos Beatles (White Album,1968). Ele enxergava mensagens subliminares na música. De acordo com a promotoria que investigou o caso, Manson acreditava que deveria haver “uma guerra entre brancos e negros”. Nessa guerra inventada, negros quereriam exterminar os brancos da face da terra. Na perturbada mente do guru assassino, tudo isso iria gerar conflitos nas ruas, culpando e contendo a sanha dos Panteras Negras, a principal vertente de guerrilha contra o sistema racista opressor dos EUA de então. Manson era racista, foi budista, era hippie, cantor folk e orientalista. Uma mistura que justifica a insanidade.

Charles Miles Manson nasceu em Cincinnati, Ohio em 1934. De infância atribulada, foi presidiário por metade da vida antes de desembarcar em Los Angeles em 1966 com a intenção de ser um astro da música. A casa onde Sharon Tate morava tinha sido alugada anteriormente por Terry Melcher, produtor musical pelo qual Manson procurava quando lá esteve, em março do mesmo ano. A intenção era acertar contas com Melcher. Dennis Wilson, dos Beach Boys e Melcher (filho de Doris Day) chegaram a se relacionar com o futuro guru durante algum tempo. Manson procurava divulgar sua música, até uma briga que os envolveu resultar em afastamento dos três. Todo esse caso deixou Manson ressentido. Em 1967 já dava os primeiros passos em sua carreira de líder espiritual e montava a seita que ficou conhecida como “Manson Family”.

Tudo leva a crer que foi o sentimento de vingança que o levou a procurar Melcher na Cielo Drive, meses antes. Não o encontrando — a casa já estava alugada a Roman Polanski e Sharon Tate — Manson retornou ao sítio onde viviam os membros da seita, uma antiga área de locação para filmes de faroeste. Lá, sua ordem foi dada aos demais membros da “família”: matar todos que estivessem na mansão, em agosto.

Susan Atkins, uma das meninas que esfaqueou Tate e seus amigos, estava presa por outros motivos (roubo de carro junto a outros membros da seita) algum tempo depois, e teria confessado sua participação a uma companheira de cela, que a delatou. Assim, a polícia ligou os pontos e todos foram presos. Atkins era uma ex-dançarina de strip-tease e juntou-se a Manson ainda em 1966. Outros integrantes mais conhecidos da confraria que participaram efetivamente dos assassinatos foram Patricia Krenwinkel, Leslie Van Houten, Charles “Tex” Watson e Linda Kasabian. Todos jovens entre 20 e 23 anos de idade à época. “Charlie” contava 34.

O julgamento foi uma espécie de sequência ao show de horrores iniciado pelos crimes. Todos os membros, exceto Kasabian, foram condenados à pena de morte, depois convertida em prisão perpétua. Atkins morreu em 2009, aos 61 anos, na prisão. Manson faleceu aos 83 em 2017. Todos os demais permanecem em cana até hoje, com inúmeros pedidos de liberdade condicional negados.

A América nunca mais se recuperou de 1969. Os Beatles, ingleses “inspiradores” de Charles Manson, se separaram definitivamente no ano seguinte. John Lennon foi morto 11 anos depois em Nova York, por um fanático de características se não semelhantes, muito próximas ao guru assassino, na linha tênue que separa o ser humano da sanidade e loucura. Ainda em 1969, os Hell’s Angels (notório grupo racista de motoqueiros brigões) mataram a facadas um jovem negro em meio as diversas confusões que ocorreram no famigerado festival promovido pelos Rolling Stones em Altamont, também na ensolarada Califórnia. Pouco antes, em 1968, Martin Luther King e Bob Kennedy foram assassinados a bala. Era o fim do flower power. A dura volta a uma realidade de guerra, opressão, conflitos raciais e luta por liberdades.

Até hoje, a casa de Polanski-Tate e a mansão LaBianca em Los Angeles — ambas já passaram às mãos de diversos outros proprietários — são alvo de turistas temáticos, que infestam a frente das residências atrás de fotos, souvenires e alguma memória dos tristes fatos lá ocorridos, há 51 anos.

Diversas produções em livros, filmes de ficção e documentários contam a história deste fenômeno que passou a ser considerado como “tipicamente americano”. Em 2009, a Companhia Vigor Mortis realizou montagem teatral com texto e direção de Paulo Biscaia Filho, contando a história da saga de Manson na busca pelo estrelato até as consequências finais de toda sua empreitada: Manson Superstar lotou teatros em Curitiba e pelo país afora. Em produção mais recente, Quentin Tarantino estreou em 2019 seu longa Era uma Vez em Hollywood, onde tenta reinventar e dar outro rumo aos acontecimentos da Cielo Drive.

A estes e outros, vale a pena conferir. Helter Skelter!

Fotos: reprodução

Ouça Helter Skelter: Helter Skelter – The Beatles

Assista Era uma Vez em Hollywood: Era uma Vez em Hollywood  – Trailer

Manson, documentário de 1973, dirigido por Robert Hendrickson: aqui (em inglês)

Livro Manson – A Biografia, por Jeff Guinn, na Amazon

Peça  Manson Superstar, de Paulo Biscaia Filho: Manson Superstar – trailer

Los Angeles no tempo de Charles Manson: L.A. in the Time of Charles Manson