Milton 80


Cantor encerra em novembro de 2022 uma carreira que dispensa apresentações

Para Cinthya Adriana,

com amor de irmão,

pela presença inestimável

 

Era 1944, quando Maria do Carmo do Nascimento, a Carminha, moradora de uma favela, empregada doméstica e mãe solteira, morre de tuberculose. Seu rebento, o pequeno Bituca — apelido de neném — de dois anos de idade é entregue à avó Maria (anotem este nome). Sem condições de criá-lo, dona Maria aceita o pedido de Lília Silva Campos, e entrega seu neto para adoção. Lília era filha de Augusta, a dona da pensão onde Carminha trabalhava no Rio de Janeiro.

Lília era professora de música. Seu marido Josino Campos dono de uma estação de rádio. Eles mantiveram o nome original de Bituca: Milton Nascimento. A família se transfere para o interior das Minas Gerais, na cidade de Três Pontas, onde Bituca cresce em ambiente musical, tocando sua pequena sanfona de dois baixos desde os 4 anos. Aos 13, já integrava o conjunto de baile Continental do maestro Duílio Tiso Cougo, na condição de crooner. O conjunto também era integrado por Wagner Tiso, amigo de infância de Milton.

Ambos adentram os anos 1960, quando formariam um grupo mais jovem, também de baile: os W’s Boys, com Milton dividindo a função de baixista (acústico) e cantor. Vão parar em Belo Horizonte fazer suas faculdades. Milton ingressou em Economia. Conhece os irmãos Marcio, Marilton e Lô Borges nas idas e vindas das noites universitárias pelos cinemas, bares e teatros da capital mineira. E na esquina onde se cruzam as ruas Divinópolis e Paraisópolis, no bairro de Santa Tereza, trocaram acordes e começaram a compor em parceria. Juntaram-se à turma Tavinho Moura, Flavio Venturini, Beto Guedes, Fernando Brant, Toninho Horta. Essa convivência de juventude e amizade chamou-se  – imaterialmente – de Clube da Esquina.

Em 1966, Milton vai ao Rio e grava seu primeiro álbum, Travessia (Codil/Ritmos, 1967) cuja canção-título (parceria com Fernando Brant) conquista o segundo lugar no Fico – Festival Internacional da Canção em 1967.

Milton impressionava mesmo o cosmopolita Rio de Janeiro do final dos 60’s. Negro retinto, olhos e boca grandes, e uma voz à qual Elis Regina viria a se referir depois como “a voz de deus”. Grava em seguida Courage (A&M/CTI, 1970), já com o mundo deitando os olhos sobre ele, a convite de Eumir Deodato, com participação de Herbie Hancock, nos Estados Unidos. Em 1969, pela EMI/Odeon o autointitulado Milton Nascimento e logo em seguida Milton (1970). Era hora de revisitar os amigos de Minas.

Com uma casa em Niterói, Milton reúne a velha turma de BH. Tavinho, Flavio, Beto, Fernando, Marcio, Lô, Toninho, entre outros. Compõem e revisitam velhas parcerias tendo como quintal em frente a ainda deserta praia de Piratininga. Vão para o estúdio e gravam um incrível álbum duplo, cujo nome não poderia ser outro que não Clube da Esquina (Emi/Odeon, 1972). Creditado a Lô Borges e Milton Nascimento, o álbum é uma verdadeira obra-prima, considerado um dos maiores discos de todos os tempos em todo o mundo.

A capa traz dois meninos, Cacau e Tonho, fotografados em estradinha de terra nas proximidades de Nova Friburgo, localidade serrana no estado do Rio de Janeiro, próximo de onde moravam os pais adotivos de Milton. No álbum, pérolas como Tudo que Você Podia Ser, Trem Azul, Cais e Paisagem da Janela expõem toda influência dos garotos de BH, que vão desde os Beatles e o rock progressivo inglês até o folk americano e o caipira brasileiro.

O resto é história. Depois do brinde bossanovista no início dos 1960’s, e com a fina flor da chamada MPB exilada ou sob pressão devido ao regime militar naquele início da década de 1970, Milton Nascimento é provavelmente o primeiro aceno internacional do Brasil em muitos anos.

Sua potência vocal é tão milagrosa que mesmo com as letras de seu Milagre dos Peixes (1973) censuradas, resolve gravá-las só com as melodias vocais, e concebe obra-prima tal e qual.

Seguem-se discos absolutamente sui generis que estabelecem seu nome na música mundial definitivamente, em sequência brinda o universo com Native Dancer (com Wayne Shorter, 1974), Minas (1975), Geraes (1976), Milton (1976), Clube da Esquina 2 (1978), Jornada ao Amanhecer (1979), Sentinela (1980), Caçador de Mim (1981), Anima (1982), Missa dos Quilombos (com Pedro Casaldáliga e Pedro Tierra, 1982) e Encontros e Despedidas (1985).

Bituca é um verdadeiro patrimônio brasileiro. Em 1993, resolve adotar um garoto de 13 anos, Augusto, como em uma retribuição a seu próprio destino, iluminado pelo gesto de sua mãe adotiva. Antes, em 1979, havia composto com Fernando Brant, Maria Maria (Clube da Esquina 2, 1978), na qual homenageia todas as “Marias” de sua vida, mãe natural, avó, tias e todas a mulheres do Brasil.

Em 2022, Milton completa 80 anos. Realiza sua última turnê mundial, que tem encerramento no estádio do Mineirão, com ingressos totalmente esgotados. O show é chamado A Última Sessão de Música.

Dia 13 de novembro de 2022. Última apresentação da “voz de Deus”. Tudo bem. Bituca dispensa apresentações.

Ouça. Leia. Assista:

Milton – A Última Sessão de Música

Milton Nascimento & Lô Borges –  Clube da Esquina (1972)

Imagens: reprodução