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Num quarto escuro, sem luz após a aterrorizante tempestade de pedrinhas, convivo com outros medos menores, mas tão vivos quanto essa imaginação, capaz de criar histórias sem pé nem cabeça, e com uma certa quantidade de pêlos. Sei que nesse novo espaço, que aos poucos vai se tornando meu lar, ainda que provisório, especialmente em tempos pandêmicos, preciso me adaptar e tentar transformar o ambiente em algo confortável e seguro. O futuro segue incerto, mas por enquanto tenho que lidar com outros habitantes menores. Peçonhentos seres de oito pernas que me fazem lembrar das fobias de infância, diminuídas e relativamente resolvidas na fase adulta. Além das malditas aranhas, algumas marrons e outras maiores, há a presença de alguns roedores e ainda que seus riscos sejam menores que aqueles provocados por seus primos, comumente encontrados em bueiros e esgotos das grandes cidades, confesso que continuo me assustando com esses vultos estranhos. Ontem vi um desses personagens em cima do piano e dentro de uma pequena caixa de madeira. Lembrei do filme “Ratatouille”, afinal esse ser parecia ser bem simpático e talvez eu representasse seu maior medo naquele instante. Ou talvez ele tenha sido um pianista em alguma vida passada, e apenas estava em contato com o objeto mais importante, da sua outra vida. Quem sabe os indianos possam me explicar melhor essa ideia.
Sem rede elétrica, fico sem minha favorita distração do século 21, um joguinho bobo sobre construir cidades para depois destruí-las com desastres criados por você mesmo, o “prefeito” da cidade. Algo que talvez tenha sido inspirado nessas teorias que comprovam como o próprio homem é capaz de criar catástrofes apenas para enriquecer alguém por aí. Além disso, o game também é um jogo de memória e matemática, com pitadas de economia e política, como quase tudo na vida cotidiana e aburrida. Nesse sentido, sei que estou ficando velho, e talvez essas pequenas distrações tecnológicas ajudem a manter o cérebro ativo, evitando boa parte das doenças mentais que conhecemos e assim, esses joguinhos funcionam como uma “academia neural”. E já que nessa quarentena praticamente aboli exercícios corporais, pelo menos tenho mantido a mente ocupada, seja com esses jogos bobos, jogos de basquete jogados em uma bolha, conversas furadas ou no computador, realmente trabalhando e produzindo algo que possa contribuir com a renda mensal.
A energia, essa aliada dessas distrações tecnológicas citadas, já voltou há algumas semanas. Mas nem tudo de origem binária é descartável ou negativo. O gênio Huxley já havia nos dito lá atrás que a tecnologia é neutra e são os humanos que a transformam em algo diabólico. Os algoritmos das redes sociais que o digam. Com eletricidade, posso ouvir os programas de rádio do velho Dylan, disponíveis em formato podcast em um site bem maneiro. Escutar esses programas temáticos e recheados de pérolas dos anos 50 e 60, servem como uma prazeirosa companhia nas madrugadas frias e obscuras. E são nessas horas que me sinto ativo ou talvez mais perto dessa coisa chamada essência. Algo que costumo perder todos os dias, sempre que acordo e preciso encarar outro dia imprevisível, ainda que essa quarentena limite boa parte das possibilidades, especialmente se essas possibilidades envolvam qualquer tipo de saída.
No passeio com o carro pós apocalíptico em fase de desintegração, passo por caminhos batidos, caminhos que remetem a diferentes épocas: a estrada sinuosa para a escola, o clube dos esportes da adolescência, a rua dos bares da juventude e por fim, a casa da mãe falecida, simbolicamente muito mais forte que os demais. Sinto que em breve será a hora de botar o pé na estrada novamente, engavetando os fantasmas do passado e os demônios dos últimos anos. A tal troca da roupa da alma, tão citada em outras linhas, se torna mais uma vez necessária. Ainda me sinto jovem o suficiente para me aventurar por aí, sem endereços fixos, contas ou papéis que me tornem responsável por qualquer coisa. É hora de viver de forma minimalista, apenas com uma mochila e minha única ferramenta de trabalho, um laptop com uma década nas costas e com a velocidade de um caramujo gordo. Mas tudo bem, se já tive pressa, hoje ando devagar e sigo seguindo os conselhos do mestre Almir.
O mundo gira um pouquinho e agora estou no estado vizinho, mais pro sul e mais distante da cidade natal e que costuma ser chamada de capital do Natal, da ecologia, da tecnologia e não sei mais do quê. Por aqui, a biosfera cresceu consideravelmente: mais verde, menos poluição. Cohabito um espaço cercado por sapos monocromáticos, aranhas de origens desconhecidas vivendo em colônias multiformes, baratas sanitárias, besouros sem talentos musicais, lagartixas territoriais, cachorrinhos simpáticos e mais uma generosa porção de mosquitos traiçoeiros. Havia um gato preto, mas infelizmente ele precisou ser sacrificado devido a uma doença crônica.
O saudoso Miles toca na vitrola do pecado eletrônico, enquanto tento organizar meus pensamentos em outra madrugada sem fim, porém desta vez, com uma temperatura amena, após dois dias chuvosos e rotineiros, especialmente em cidades praieiras. O ar mais puro e a distância da babilônia, citada em 9 de cada 10 canções de reggae, me ajudaram um bocado. Me afastei de certos vícios e daqueles papos espirais propagados por junkies que ainda sentem algum peso em suas consciências. As pequenas discussões agigantadas pelo amigo e ex locatário ficaram para trás. Após 10 dias nessa “magical house”, tenho experienciado momentos de paz e amor, ao lado de um amigo antigo e de uma pequena família bem linda, composta por um casal artista e seu lindo bebê de nome monossilábico. Há outros personagens menos constantes e que integram o espaço, mas só posso dizer que até agora gostei de todos. Gostei até desses animais citados acima, com exceção dos mosquitos, obviamente.
Não sei exatamente quanto tempo permanecerei aqui, afinal, ainda estou em fase de adaptação – essa característica que une todos os seres vivos da Terra. Porém, já me sinto acolhido e disposto a colaborar com tudo que for necessário para que essa estadia seja guardada com carinho por esses hermosos anfitriões. Me sinto renovado e, até certo ponto, preparado para novos desafios, aventuras e outras surpresas regaladas por esse misterioso universo. Em breve participarei de alguns rituais indígenas, uma vez que descobri recentemente que há algum tipo de índio protetor perambulando ao meu redor, quem sabe um resquício da descendência materna, a qual manifesto um profundo orgulho e admiração. Só posso terminar agradecendo todas as pessoas que tive contato anteriormente e que de forma inconsciente me ajudaram a chegar até aqui. E que venham mais histórias, personagens e aprendizados. “E vou sendo como posso, jogando meu corpo no mundo, andando por todos os cantos, e pela lei natural dos encontros, eu deixo e recebo um tanto”.
E após uma década de andanças e mudanças constantes, sinto dores em minhas costelas. Sinais do inferno astral ou algum castigo divino, já que em breve estarei “quarentando” em plena quarentena?
Talvez.
Texto, Locução e Edição: Igor Moura
Trilha Sonora: William Fedrizzi
Apoio: Casa Mágika Itajaí