Ninguém entende um mod


Movimento surgido no Reino Unido foi semente que resultou na mudança de comportamento e a “tomada de poder” pelos jovens na década de 1960

No início da década de 1960, na Grã-Bretanha, surgiu um uma subcultura formada por jovens adoradores da moda e oriundos da classe trabalhadora. Jovens crescidos no pós-guerra em uma Inglaterra devastada começavam a ver a luz do sol (pouca) e a cor do dinheiro (o suficiente) ante a recuperação econômica do final dos anos 1950. A chamada “cultura mod” entrou em cena como descendente direta dos teddy boys da Grã-Bretanha e dos beatniks norte-americanos.

Os mods criaram uma cena jovem vibrante e underground, por meio de um conjunto de casas noturnas e boutiques selecionadas por toda a cidade de Londres, muitas delas localizadas no Soho, no West End. Nesta era do pós-guerra, pós-racionamento e pós-recrutamento nacional, os adolescentes mods tinham mais rendimento disponível e tempo de lazer do que as gerações anteriores. E tiraram o máximo proveito.

Através de um estilo de roupa elegante e personalizado ou de uma música energética e dançante dos Estados Unidos e da Jamaica, eles procuraram reinventar o que significava ser jovem, moderno e principalmente britânico. Pete Meaden, um “velho mod raiz descreveu a subcultura como “uma vida boa em circunstâncias difíceis”, porque era um estilo de vida que motivava os jovens da classe trabalhadora a dedicarem todo o dinheiro que tinham ao cultivo de uma aparência cool.

As origens do mod remontam a um grupo de jovens londrinos que começou a autodenominar-se modernists devido ao seu amor pelo jazz e pelo estilo simplificado e sofisticação cool dos músicos afro-americanos que eram as suas estrelas.

Já no início dos 1960’s, uma nova geração desse grupo obcecado por imagens encurtou o nome, agora se autodenominando “mods”. Esta evolução foi também pontuada por uma mudança nas preferências musicais. Digamos que à medida que o jazz foi rapidamente substituído por outros gêneros musicais vindos da América  — seja o blues americano, o soul ou o r&b.

Liverpool tinha o The Cavern, famoso pelos Beatles, e Londres tinha uma série de locais populares dentro e fora do Soho. O Twisted Wheel em Manchester era o principal centro dos mods, atraindo ônibus cheios de adolescentes de lugares tão distantes quanto Newcastle e até da capital.

Eram verdadeiros inferninhos. Uma porta de entrada, corredores e salões escuros, um pub e um pequeno palco onde era possível encontrar músicos incipientes como Eric Clapton, Ron Wood, Pete Towshend e Rod Stewart, entre muitos outros, arranhando temas de blues ocasionalmente. Artistas negros dos Estados Unidos também apareciam. A Inglaterra, sem saber, preparava sua maior revolução social — ao menos no século 20.

O advento do mod viu a primeira grande onda de mulheres britânicas saindo de casa para viver por conta. Começaram a assumir os seus próprios empregos e a ganhar o controle dos seus próprios rendimentos. À medida que as mulheres ganharam o controle dos seus destinos, também reclamaram os seus corpos e a sua sexualidade. As saias ficaram mais curtas, os cabelos ficaram menos formais, e elas saíam para dançar desacompanhadas da presença masculina.

As atitudes mod foram favoráveis a esta nova autonomia dada às mulheres. Os caras, afinal sempre no comando, aceitaram prontamente a ideia de que uma mulher não precisava se apegar a um homem.

Até meados da década de 1960 não existia um festival de rock. Até que em 1963, o National Jazz and Blues Festival realizado no Richmond Athletic Recreation Ground em Londres trouxe os Rolling Stones.

Fissurados por música estrangeira, mas de difícil acesso, os mods necessitavam ultrapassar as classes mais ricas, vestindo ternos elegantes, feitos sob medida, como era de feitio dos mafiosos e dos músicos de blues na América, sempre elegantes. Seus penteados espelhavam tendências europeias do século 19. Uma geração de “Rimbauds” tomou as ruas e pubs das cidades britânicas.

As meninas também foram atraídas pela subcultura desde o início, pela música de energia sem igual, e pela moda. Enquanto os meninos usavam ternos elegantes e de bom gosto — que eram cobertos por parkas verdes quando andavam em suas lambretas italianas, ou as tradicionais vespas, as mulheres também adotavam linhas de corte preciso, em tops, saias e vestidos.

Carnaby Street, no West End, tornou-se o bairro mod em Londres. Os caras frequentavam lojas impensáveis anos antes, como a John Michael, a John Stephen’s Mod Male, ou a His Clothes. O estilo logo influenciou as estilistas locais, as meninas mod migraram para a boutique Bazaar, de Mary Quant na King’s Road em Chelsea, ou a Biba de Barbara Hulanicki em Kensington.

Os mods trabalhavam. Eram designers ou auxiliares de escritório, bancários, estudantes, e aproveitavam seus fins de semana, até o amanhecer de segunda feira, quando sob o efeito de boletas iam trabalhar de volta. Dançando em vários clubes para suas “noites inteiras” organizadas por DJs exóticos e inimagináveis até então.

As anfetaminas foram de fato um símbolo da cultura mod. Eram usadas para aumentar a energia e manter o pique na festa, depois também o duro trampo da semana. The Scene, no Ham Yard do Soho, era um local underground que se tornou a boate mais popular entre os mods de Londres durante o início dos anos 1960. Os locais do Soho igualmente frequentados incluíam o Flamingo, em 1964 o 100 Club. Outros locais notáveis ​​incluíam o vizinho Marquee na Wardour Street e o Harrow’s Railway Hotel, onde os mods podiam assistir a shows dos Yardbirds ou do The Who em qualquer noite. No Ealing Jazz Club os Rolling Stones eram uma atração noite sim outra também.

Um mod líder era denominado face. Seus “auxiliares eram os tickets. Em Quadrophenia (Franc Roddam, 1979) podemos ver Sting interpretando um face clássico, no filme ambientado em 1964, inspirado na ópera rock e disco do The Who, de 1973.

Onde estabelece-se uma tribo, não faltavam tretas, é claro. Os mods eram bem conhecidos em todo o Reino Unido. Justamente em 1964, os confrontos à beira-mar em Brighton, Margate e Clacton com os rockers, a outra tribo que viajava no mesmo rock’n roll dos mods, foram notícia nacional e provocaram pânico na sociedade.

O mod também começou a transcender suas origens subculturais à medida que a palavra ganhava fama internacional. Fora do Reino Unido, tornou-se sinônimo de fenômenos da cultura jovem mais mainstream. Do Reino Unido, como os Beatles, os Stones e a minissaia, o mod é naturalmente associado ao período da “Swinging London”, e  Carnaby Street tonou-se um destino turístico para estrangeiros em busca de tudo que era moderno e atual.

Apesar desta comercialização, várias facetas da subcultura mod original persistiram ao longo da década de 1960. Alguns membros da cena e bandas como Small Faces fundiram o estilo com a psicodelia da segunda metade dos 1960’s. Outro grupo, os “hard mods”, vestidos de forma mais casual, voltaram sua atenção para a música jamaicana. Em 1969, transformaram-se nos primeiros skinheads.

Ainda outro grupo de mods do norte da Inglaterra criou o que ficou conhecido como a cena northern soul. Embora o mod esteja para sempre ligado às suas origens e história da década de 1960, a subcultura continua a ser reinventada, atravessou os 1970 com o grupo The Jam em meio à new wave, lá por 1978. E hoje, tanto na Grã-Bretanha como em países tão diversos quanto Alemanha e Japão, e em toda a América Latina, o mod é sempre revivido.

No Brasil, a primeira referência ao estilo mod foi a banda Ira, que surge do movimento pós-punk em São Paulo, no início dos 1980’s. Depois, os curitibanos da Relespública fortemente inspirados pela banda paulistana, tornaram-se a maior referência mod em todo país. E ainda Faichecleres, Tarja Preta, Dissonantes, Laboratório SP, The Charts, entre outras, continuam desfilando com suas scooters e parkas verdes em solo tropical por aí.

A canção Ninguém Entende um Mod do Ira tem como refrão a frase que nomeia a música. Não parece tão difícil. Imagine um mundo chato coberto pelo cinza do céu inglês. “Vamos mudar o mundo”, devem ter pensado à época.

Nada mal. Com boas roupas, alguma bebida e umas boletas na cabeça.

Mudaram.

Ouça. Leia. Assista:

Quadrophenia – 1973 – Filme Completo em português

As Histórias São Iguais – Relespública – Spotify

My Generation – The Who

Imagens: reprodução